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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

As conseqüências dos abortos seletivos na China – O desequilíbrio entre homens e mulheres

O desequilíbrio de gêneros na China obriga os 18 milhões de solteiros chineses a viajar para países como o Vietnã e Brunei em busca de esposas, as quais chegam a valer R$ 10 mil se forem virgens. Os abortos seletivos de meninas na sociedade também agravam a situação de desequilíbrio e a perspectiva é que em 2020, a China tenha 24 milhões de pessoas solteiras, já que para cada 116 homens nascem 100 mulheres. No resto do mundo, a proporção é de 103 e 107 homens para cada 100 mulheres.
(Fonte: horoscoposigno)

Por conta dessa situação, alguns solteirões chineses optam por viajar para países como o Vietnã para comprar suas esposas. No Vietnã, existem agências especializadas em oferecer esposas a partir de US$ 900. Detalhe: o cliente ainda possui garantia que varia de três meses a um ano, caso sua esposa queira fugir. Já para as vietnamitas, que são as mais cotadas, casar-se com um chinês significa fugir da pobreza e da baixa posição social. Para elas, os chineses são como os americanos são para as chinesas, ou seja, uma fonte segura de vida confortável e segura.
Por sua vez, os homens chineses também optam pela compra de suas esposas para não precisar corresponder às inúmeras exigências das mulheres chinesas, que procurem ao menos homens que ofereçam uma casa, um veículo e um salário fixo elevado.

(Fonte: atribuna)


Segundo um relatório do portal chinês "Souhu Jiaodian" - sobre o custo de um casamento nas maiores cidades da China, elaborado a partir de uma enquete feita pela internet - em Pequim, por exemplo, é preciso em torno de US$ 315 mil para garantir sua esposa. A pesquisa leva em conta o custo aproximado de uma casa de 80 metros quadrados, despesas com decorações, artigos para o lar, carro, festa de casamento e lua de mel na Europa, além de tudo que foi gasto durante o período de namoro.
Após todos esses cálculos, pagar uma quantia de US$ 900 a US$ 6 mil para comprar uma esposa que, segundo seus vendedores, será carinhosa e boa, motivou muitos chineses a buscar mulheres fora de sua terra natal. Há uma pressão pessoal e familiar muito forte na China para comprar uma casa e conseguir uma esposa.

Mulher vietnamita (Fonte: pop)


Natural da província sulina de Guangxi, Hong Lin, 22 anos, operário e cujo salário mensal é US$ 312, contou ao portal "Global Times", porque foi buscar uma mulher no Vietnã: "Para alguém como eu é muito difícil conquistar uma mulher chinesa. Eu não queria mais ficar sozinho".

(Fonte: alosertao)


Assim como Hong, muitos chineses pobres partem para o sudeste asiático em busca de comprar uma mulher. Na visão delas, os chineses são ricos e, por isso, aceitam se casar imediatamente. No entanto, muitos destes casamentos comprados são feitos sem o consentimento das futuras esposas, que são raptadas de suas famílias e obrigadas a se casarem para, em muitas ocasiões, acabarem maltratadas e prostituídas.

(Fonte: felipe.in)


Com casamentos comprados e forçados, muitas esposas, após um curto tempo ao lado do "marido", fogem. Em Shuangfeng, na província central de Hunan, muitos habitantes ficaram sem suas esposas. As mulheres, que foram adquiridas por preço médio de US$ 5.686, desapareceram juntas abandonando cerca de 50 chineses. A fuga coletiva das esposas revelou um possível acordo firmado entre a empresa vendedora e as mulheres vendidas que, desta maneira, poderão ser revendidas e lucrar em dobro com o valor da transação. Por conta desse motivo, os novos compradores estão passando a exigir garantia para empresa.
(Fonte: cravoecaneladegabriela)

O desequilíbrio de gêneros intensifica o tráfico de mulheres na China. Porém, a pressão social força muitos solteiros, independentemente da idade, a comprarem suas esposas. Segundo a Federação de Mulheres Chinesas, na cidade fronteiriça de Guangxi, que possui 120 mil habitantes, vivem 1,6 mil mulheres vietnamitas, sendo que 647 não possuem nenhuma formalidade legal.
(Fonte: uol)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Trabalho escravo na Zara

A espanhola Zara, maior varejista de vestuário do mundo está atualmente no topo das discussões do Twitter e também virou destaque no Facebook, por conta de recente operação do Ministério do Trabalho, que encontrou trabalho escravo na cadeia produtiva da marca. Oficinas subcontratadas mantinham 16 pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, em condição análoga à escravidão em plena capital paulista. O programa “A Liga”, da TV Bandeirantes que foi ao ar ontem e a ONG “Repórter Brasil” acompanharam equipes de fiscalização trabalhista que  flagraram funcionários estrangeiros submetidos a condições humilhantes ao  produzir peças de roupa da badalada marca internacional Zara, que pertence ao grupo espanhol Inditex.

(Fonte: noticiasachaqui)


A auditora fiscal do  Ministério do Trabalho e Emprego, Juliana Cassiano, que coordenou as ações de busca, confirmou a ligação das oficinas onde foram encontradas as pessoas em regime análogo à escravidão com a Zara. A investigação começou há três meses, após a primeira busca ter constatado irregularidades numa oficina em Campinas. Depois disso, o MTE lavrou 52 autos de infração contra a empresa devido a irregularidades nesta e em outra oficina, na capital, mas ainda não tinha comunicado oficialmente ao grupo. Um dos autos se refere à discriminação étnica de indígenas da tribo Quechuá e Aimará, que recebiam um tratamento pior do que outros trabalhadores.

(Fonte: textileindustry)


Em nota, a Zara assume o que aconteceu, comunica que "Tal fato representa uma grave infração de acordo com o Código de Conduta para Fabricantes e Oficinas Externas da Inditex, assumido por este fabricante contratualmente", diz que vai cobrar do fornecedor responsável que regularize a situação imediatamente, e mais: se apresenta como parceira do MTE para reforçar a fiscalização do sistema de produção tanto deste quanto dos outros 50 fornecedores fixos, que somam mais de sete mil trabalhadores.

(Fonte: noticias.achaqui)


O quadro encontrado pelos agentes do poder público, e acompanhado pela ONG Repórter Brasil, incluía contratações ilegais, trabalho infantil, condições degradantes, jornadas exaustivas de até 16h diárias e cerceamento de liberdade (seja pela cobrança e desconto irregular de dívidas dos salários, o truck system, seja pela proibição de deixar o local de trabalho sem prévia autorização). Segundo a ONG, para sair das oficinas, que também eram moradia, os trabalhadores precisavam até pedir autorização. O programa "A Liga" mostrou que os trabalhadores recebem centavos para fazer uma peça e, se causarem algum dano, são obrigados a pagar pelo preço que é vendida em loja. 

(Fonte: hellostranger)


De acordo com o diretor da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, a instituição acompanhou todo o processo de investigação do Ministério do Trabalho, que fará relatório específico sobre a Zara:
Haviam várias irregularidades nas oficinas, que vão desde o cerceamento da liberdade até às instalações encontradas pelas fiscalizações do ministério.
As vítimas libertadas pela fiscalização foram aliciadas na Bolívia e no Peru, país de origem de apenas uma das costureiras encontradas. Pessoas que deixam os seus países em busca do "sonho brasileiro". Quando chegam aqui, geralmente têm que trabalhar inicialmente por meses, em longas jornadas, apenas para quitar os valores referentes ao custo de transporte para o Brasil.

(Fonte: roteirodamoda)


O caso lembra o da GAP, outra empresa do setor têxtil que, em 2007, também foi para as páginas de notícias dos jornais por ter sido encontrado trabalho escravo em sua cadeia produtiva. Na ocasião, a  dona da empresa deu entrevista dizendo-se, como diz agora a Zara, indignada pela descoberta...
(Fonte: O globo)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os Porcos de Deus

Quando se fala em culturas diferentes da nossa é muito difícil estabelecer limites entre o certo e o errado, já que esses hemisférios variam dependendo do ponto de vista do pensador. Nos artigos “O ritual macabro de Toraja” e “Crianças enterradas vivas – uma triste realidade indígena” nós vemos, como um espectador, costumes que para a nossa cultura é condenável, mas para aqueles que vivem onde esses costumes estão inseridos é algo banal e com um significado mais grandioso. Se matar animais ou enterrar crianças vivas nos parece asqueroso, costumes presentes na nossa cultura, como comer carne de porco, parecem causar muito mais asco a pessoas de culturas divergentes. E por falar em porco, existe em Taiwan um festival onde foliões desfilam com corpos de porcos gigantes pelas ruas de New Taipei City: é o “Festival Porcos de Deus”.

(Fonte: odditycentral)


A princípio você deve imaginar quão singelo deve ser um festival onde pessoas desfilam juntas a porquinhos pintados, mas na verdade essa tradição é bem mais macabra do que parece. No período de 08 de fevereiro (período que marca o ano novo lunar chinês) é celebrada em New Taipei City, mais especificamente nas ruas de Shanhsia, o festival controverso do “Porcos de Deus”, onde a população local se reúne para ver porcos com até quatro vezes seu tamanho normal serem pesados e, em seguida, sacrificados, pintados e decorados para exposição na festividade. O objetivo é vencer uma disputa onde quem ganha é aquele que apresenta o porco mais gordo!

(Fonte: odditycentral)

(Fonte: odditycentral)

(Fonte: odditycentral)

(Fonte: odditycentral)


Não é difícil imaginar como esses poucos aparecem no festival com o tamanho corporal quadruplicado: alimentação forçada! O porco escolhido para participar do concurso é forçado a comer incessantemente durante anos. Geralmente os agricultores engordam mais de 60 suínos com ração especial e outros tratamentos mais esdrúxulos para participar do evento. No fim o porco fica tão pesado que já não tem capacidade nem para se levantar. A tortura física e psicológica causada no bicho faz com que seus órgãos entrem em colapso e seu corpo fique repleto de ferimentos devido ao tempo em que ficam deitados, sem possibilidade de se mover por conta do seu descomunal tamanho. Alguns porcos podem ser castrados pelo seus donos, sem anestesia, pois estes acreditam  que isso faça os porcos engordar ainda mais.

(Fonte: odditycentral)

(Fonte: odditycentral)


Faltando poucos dias para a competição ter início, os donos dos porcos costumam forçá-los a comerem areia e metais pesados, como chumbo, para ficarem o mais pesado possível. Chegando no dia do festival os porcos que vão competir são arrastados brutalmente até o encontro da multidão. Às vezes, são necessários até 20 homens para carregar um dos porcos gigantes. Uma vez lá, esses porcos são pesados numa balança e depois são abatidos com um corte na garganta. De acordo com alguns relatos de pessoas presentes no festival, os animais sacrificados ficam o tempo todo aterrorizados, gritando incessantemente até perder o controle do intestino. Após serem cruelmente sacrificados, os porcos mais pesados são pintados e decorados, em seguida, são colocados em carros alegóricos, fora de um templo taoísta, que passeiam pela cidade para exibir os animais mortos para a multidão presente no local. Os animais geralmente atingem os 700 quilos, mas já houve casos de porcos que chegaram aos 900 quilos.

(Fonte: liefintaiwan.wordpress)

(Fonte: liefintaiwan.wordpress)

(Fonte: liefintaiwan.wordpress)

(Fonte: liefintaiwan.wordpress)


A origem deste evento perturbador não é certa, mas dizem que ele faz parte do credo religioso de um grupo étnico conhecido por, Hakkas, com uma população de mais de quatro milhões de pessoas em Taiwan. Contudo, nos últimos anos, aparentemente o “Porcos de Deus” se transformou em uma demonstração de poder e riqueza das famílias deste grupo, sem nenhuma intenção religiosa. Naquele país, a engorda e matança de animais são atividades ilegais, mas ativistas dizem que o governo faz “vista grossa” por medo de uma revolta de grupos religiosos.

(Fonte: odditycentral)


(Fonte: odditycentral)


Grupos de proteção dos direitos dos animais, como a Sociedade Mundial de Proteção dos Animais (WSPA), têm protestado e pedido que os porcos sejam substituídos por réplicas feitas de massa, arroz ou flores. A WSPA Brasil tem em seu site um endereço para um abaixo assinado que pede o fim do “Porcos de Deus”. Para contribuir com sua assinatura, acesse: http://www.pigsofgod.org/.

Grupo da WSPA protestando contra o uso de porcos no Festival Porcos de Deus (Fonte: wspa-international)


No fim das contas, a gente sempre se esbarra no debate sobre a diferença entre as culturas dos povos do planeta. Até que ponto é permissível costumes que envolvam morte de pessoas ou animais em nome de tradições milenares? É bom lembrarmos que, no caso do “Festival Porcos de Deus” ele surgiu com um propósito religioso, mas com o tempo se tornou uma exibição de poder e riqueza de uma minoria de famílias privilegiadas da região que se divertem às custas da tortura de animais indefesos. Tal demonstração de poder tem passado por cima da autoridade do governo que prefere não se envolver diretamente nesse assunto. Por essa razão, festivais bizarros como esse continuam a ocorrer pelo mundo em nome de uma cultura desvirtuada, arcaica e sem sentido.

(Fonte: liefintaiwan.worpress)


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Turismo arriscado – Um passeio pelos lugares turísticos mais perigosos do mundo

Países como o Afeganistão, o Iraque e o Haiti, que frequentemente aparecem nos noticiários mundiais devido a conflitos, guerras e tragédias, também começam a ganhar destaque entre os destinos oferecidos por agências de viagens.
Companhias estrangeiras oferecem pacotes para grupos de corajosos, cansados dos cartões-postais tradicionais e abarrotados de turistas, que seguem uma tendência de conhecer lugares perigosos ou devastados por guerras.


(Fonte: urbanidades-madeira)

“Após anos de abandono, essas viagens estão sendo vistas como fonte de alegria e renascimento”, explica Hubert Debbasch, presidente da agência francesa Terre Entière, sobre os roteiros que sua empresa organiza, ao lado da Babel Tours, para o Iraque.

Como Sobreviver

Enquanto no Haiti os maiores riscos são de violência urbana (roubos, violência sexual, saques) no Iraque e no Afeganistão o medo maior é do terrorismo. Especializado em coberturas de conflitos armados, o jornalista canadense Robert Young Pelton lançou um site que dá dicas do que visitar e, principalmente, de como sair ileso das viagens.


(Fonte: noticias.r7)

O nome da página não é dos mais animadores, mas traduz o espírito desse tipo de turismo: comebackalive.com (“volte vivo”, em português).

Próxima parada...

AFEGANISTÃO

Até a década de 1970, antes dos conflitos com a antiga União Soviética e do domínio das milícias talibãs, o Afeganistão era um destino procurado. Centenas de jovens faziam a “trilha hippie”, ao norte de Cabul, que passa pelas montanhas Hindu Kush. Cenário de best-sellers como O Livreiro de Cabul e O Caçador de Pipas, a capital abriga hotéis luxuosos, como o cinco-estrelas Serena Hotels (http://www.serenahotels.com/) – que fica ao lado da Cidadela de Herat, construída por Alexandre, O Grande, 300 anos antes de Cristo.


Hindu Kush (Fonte: footballvideos)

Cidade de Herat (Fonte: mundodastribos)

Mesquita de Herat (Fonte: mais turismo)

O perfil do viajante, hoje, pós-11 de Setembro, é bem diferente dos jovens hippies. O país é considerado o destino mais perigoso do mundo para turistas, já que o seqüestro de estrangeiros  é usado como moeda de troca pelos rebeldes talibãs para suas exigências. Para os corajosos, no entanto, há recompensas em um país antigo, com herança cultural de cerca de três milênios. Entre as atrações, destacam-se a mesquita de Lashtar Gah, de mais de 500 anos; o minarete de Jam, no vale de Hari Rud, Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco; e os lagos do Parque Nacional de Band-e-Amir.


Vida boa, hein? (Fonte: oqueeufiznasferias)

Mesquita Azul (Fonte: oqueeufiznasferias)

Minarete de Jam (Fonte: giramundo-pernalonga)

Parque Nacional de Band-e-Amir (Fonte: firozalializada)


Agência que pode ser procurada para esse destino:

- Hinterland Travel (hinterlandtravel.com)


Próxima parada...

HAITI

Na época do terremoto que matou mais de 200 mil pessoas no Haiti, em 2010, jornais noticiaram que, em praias afastadas das regiões mais destruídas, centenas de turistas tranqüilamente aproveitavam suas férias em meio ao caos. A ideia de turismo no Haiti ainda é essa, já que, apesar da (lenta) reconstrução, as grandes cidades do país caribenho ainda são arriscadas e pouco atrativas para viajantes.


Praias caribenhas (Fonte: 01centralamerica)

Praias caribenhas (Fonte: 01centralamerica)

O jeito é aproveitar as belezas com risco e preços minimizados – cerca de 50% menores que em países vizinhos. Praias desertas como Labadee, resorts protegidos (Dan’s Creek e El Rancho são boas pedidas) e cruzeiros são as melhores opções.


Labadee (Fonte: miami-cruise)

Labadee (Fonte: flickr)


Agência que pode ser procurada para esse destino:

- Royal Caribbean (royalcaribbean.com.br)


Próxima parada...

IRAQUE

A terra do falecido Saddam Hussein fica na região considerada o berço da civilização, a Mesopotâmia, nascida por volta de 4.000 a.C. Por isso, apesar da destruição causada pelos conflitos armados, muitos sítios arqueológicos seguem parcial  ou totalmente preservados.


Mesquita (Fonte: turismo.culturamix)

Kifl (Fonte: ultimosegundo)

Os jardins suspensos do rei Hamurabi, na Babilônia, começaram a ser restaurados para atrair turistas para um país que, décadas atrás, tinha fama de hospitaleiro.
A região do Curdistão, ao norte, é a mais procurada, tanto por sua relativa paz e estabilidade como por sua paisagem montanhosa e cidades históricas. A capital curda, Erbil, mescla prédios novos com centenários.


Erbil (Fonte: nowpublic)

Grande Mesquita de Erbil (Fonte: en.wikipedia)


Agência que pode ser procurada para esse destino:

- Babel Tours (babeltours.com)
- Hinterland (hinterlandtravel.com)
- Terre Entière (terreentiere.com)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ling-chi - Parte II - Relatos sobre as execuções de corte lento

Imperadores confucionistas que não tinham controle legal em seu poder, ordenaram métodos similares e menos cruéis que o Ling-chi em seu regime. De acordo com Qin Er Shi e durante a primeira dinastia Han, vários tipos de tortura foram aplicados a seus funcionários. Liu Ziye, por exemplo, matou funcionários inocentes. Gao Yang matou seis pessoas. An Lushan matou um homem.

Heshen (Fonte: executedtoday)

O Ling-chi também era conhecido no período das Cinco Dinastias (907-960) e Gaozu, da última dinastia Jin, a aboliu. Esta pena apareceu pela primeira vez nos códigos de lei da dinastia Liao e foi usado com alguma frequência. O Imperador Tianzuo, de Liao, era um dos que frequentemente executava as pessoas desta maneira durante seu governo. Logo essa punição tornou-se difundida na dinastia Song, do imperador Renzong e do imperador Shenzong. Alguns funcionários muitas vezes também usavam o corte lento para torturar os rebeldes e esse castigo permaneceu no código de lei da Dinastia Qing para pessoas condenadas por alta traição e outros crimes graves. Após um tempo o Ling-chi foi abolido como resultado da revisão de 1905 do código penal chinês Shen Jiaben. Os relatórios dos juristas da dinastia Qing, mostravam que no Shen Jiaben a forma regular para que um carrasco executasse esta pena não era especificada em pormenor no Código Penal. Os chineses não estavam sozinhos na realização de castigos considerados cruéis e incomuns e a tortura geralmente precisava de permissão do imperador. Enquanto os países ocidentais mudavam seu pensamento com o intuito de abolir punições semelhantes, alguns ocidentais começaram a chamar a atenção para os métodos de execução usados ​​na China. Foi então que, em 1866, um ano depois do último caso de corte lento, Thomas Francis Wade, foi então ao serviço da missão diplomática britânica na China, sem sucesso, pedir a abolição da Ling-chi.

(Fonte: sanmiguelschool)

A primeira proposta para abolir o Ling-chi foi apresentada por Lu You (1125 -1210), em um memorial ao imperador durante a dinastia Song, no sul. Lu You era contra a argumentação elaborada acerca do Ling-chi que foi copiado e transmitido por gerações de estudiosos, entre eles os juristas influentes de todas as dinastias, até o final  da reforma do Shen Jiaben, na dinastia Qing, introduzida em seu memorial em 1905, obtendo eventualmente a abolição. Esta foi a resposta anti-Ling-chi contra as punições cruéis e incomuns (como a exposição da cabeça) que o Tang não tinha incluído na Tabela Canônica das Cinco Punições, que definia claramente as formas legais de punir o crime. Daí a tendência abolicionista estar profundamente enraizada na tradição chinesa legal, ao invés de ser puramente derivada de influências ocidentais.

Relatos acerca do Ling-chi

(Fonte: sanmiguelschool)

Um relato de 1858, de  Harper's Weekly afirmava que o mártir Auguste Chapdelaine foi morto por este método e havia sido decapitado após a morte. Tal descrição foi confirmada mais tarde por outra nota publicada (O povo e a política do extremo Oriente, de 1895), dessa vez por Sir Henry Norman. Este era um escritor e fotógrafo viajante. Norman disse ter testemunhado uma execução por tal método, e deu uma descrição gráfica em seu livro  “O carrasco”, onde descrevia que o condenado tinha um punhado de partes carnudas do seu corpo arrancadas, como coxas e seios, já os membros eram cortados aos poucos nos pulsos e tornozelos, cotovelos e joelhos, ombros e quadris. Finalmente, o condenado era esfaqueado no coração e tinha a cabeça cortada.
Para G.E. Morrison, “An Australian in China, (1895)”, há contestações sobre a metodologia do Ling-chi, pois alguns outros relatos afirmam que a maioria das mutilações do Ling-chi é de fato feita post mortem. Morrison escreveu a sua descrição baseada em um relato por uma testemunha ocular que afirmou: "O prisioneiro é amarrado a uma rude cruz onde ele é invariavelmente posto sob a influência do ópio. O carrasco, em pé diante dele, com uma espada afiada faz duas incisões rápidas acima das sobrancelhas e atrai a parte da pele sobre cada olho, então ele faz duas incisões rápidas no peito, e no momento seguinte, ele perfura o coração, e a morte é instantânea. Então eles cortam o corpo em pedaços e a degradação consiste na exposição a céu aberto das partes do corpo.”
No livro de Tienstin (Tianjin), “China - O Livro do Ano (1927)”, há relatos contemporâneos de lutas em Guangzhou (Cantão) entre o Governo e as forças comunistas de Nanjing. Histórias de várias atrocidades estão relacionadas, incluindo os relatos de Ling-chi. Não há menção de ópio e, nestes casos, parecem ser propaganda do governo.
Um jornalista do The Times (9 de dezembro de 1927), reportou que na cidade de Cantão os sacerdotes cristãos eram alvos constantes de comunistas e certa vez foi anunciado que o padre Wong iria ser publicamente executado pelo processo do corte lento.
George Roerich, "Trails to Inmost Ásia" (1931), relata a história do assassinato de Tseng Yang-hsin, o governador de Xinjiang em julho de 1928, pelo guarda-costas de seu ministro estrangeiro Fan Yao-han. Este foi apreendido e, ele e sua filha, foram ambos executados por Ling-chi. Em tal ocasião o ministro ainda foi obrigado a assistir a execução de sua filha em primeiro lugar. No entanto Roerich não foi uma testemunha ocular deste evento, tendo já retornado à Índia até à data da execução.
George Ryley Scott, History of Torture (1940), afirma que muitos foram executados desta maneira pelos insurgentes comunistas chineses. Ele cita as alegações feitas pelo governo de Nanquim, em 1927. Por essa razão talvez seja incerto se estas alegações eram de propaganda anticomunista. Scott também chama isso de "o processo de corte" e se diferencia entre os tipos diferentes de execução em diferentes partes do país. Não há menção de ópio. O livro de Riley ainda contém uma imagem de um cadáver em fatias (sem marcação no coração), que foi morto em Guangzhou (Cantão), em 1927. Ela não dá nenhuma indicação de que o corte foi feito post mortem. Scott afirma que era comum para os familiares dos condenados subornar o carrasco para matar o condenado antes do processo de corte começar.

(Fonte: intertheory)

Louise Levathes, em seu “When China Ruled the Seas: The Treasure Fleet of the Dragon Throne, 1405-1433 (1994)” relata que "Huang foi condenado a uma execução particularmente horrível conhecida como Maruca chi, ou “morte por mil cortes”, por ter cometido alta traição. "Os cortes foram feitos em seu peito, abdômen, braços, pernas e costas, para que ele sangrasse bem lentamente até a morte durante um período de tempo, talvez até três dias.
Mark Costanzo, Just Revenge: Costs and Consequences of the Death Penalty (1997): Às vezes era usado na China antiga a pena da “Morte por mil cortes”, onde pequenos pedaços de carne eram retalhados do condenado ao longo de um período de dias.


Relatórios militares dos EUA contam que os membros dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos estavam estacionados em torno de Xangai entre 1927 e 1941 em busca de provas de violações dos direitos humanos: "A prevalência de execuções e tortura é evidenciada pelos relatórios trazidos de volta da China pelos fuzileiros navais . Existem fotografias de pelotões de fuzilamento, a decapitação, estupro e torturas, tais como "a morte de mil cortes". Aparentemente, estas fotos eram comercialmente disponíveis [na China], por não serem cópias exatas, juntas a muitos recortes e com o nome de um estúdio comercial carimbado no verso das fotografias." É possível que as fotos da década de 1910 tivessem sido erroneamente associadas com as atrocidades em curso da China em 1920, e as fotos do Ling-chi acabaram sendo vendidas como raridades. Fotografias deste mesmo período, incluindo as linhas de cadáveres decapitados, os diplomatas não chineses mortos a tiros, e uma vítima Ling-chi, podem ser encontradas em “A History of Torture”, de George Ryley Scott.



            Ling-chi – Parte I – A dolorosa pena dos mil cortes

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ling-chi – Parte I – A dolorosa pena dos mil cortes

O Ling-chi, também traduzido como corte lento, morte lenta, ou morte por mil cortes foi uma forma de execução utilizada na China a cerca de 900 d.C. até a sua abolição em 1905. Nesta forma de execução, o condenado era morto por uma faca de lâmina fina que era usada para remover metodicamente partes do corpo do condenado durante um longo período de tempo. O termo ‘Ling-chi’ deriva de uma descrição clássica do ‘subir uma montanha lentamente’. O Ling-chi poderia ser utilizado como forma de tortura e execução de uma pessoa, como também poderia ser aplicado como um ato de humilhação depois da morte. Receberam tal castigo aqueles que cometeram crimes contra o sistema de valores morais tais como, atos de traição, assassinato em massa, parricídio (matar um parente próximo) ou o assassinato de um mestre ou patrão, porém imperadores utilizaram este método constantemente para ameaçar as pessoas, como forma de impedir delitos menores. Alguns imperadores também fizeram uso desta punição para membros traidores da família e seus inimigos. O processo envolveu a subordinação da pessoa a ser executada numa armação de madeira, geralmente em um lugar público. A carne do corpo era então cortada em várias fatias, em um processo que não foi especificado em pormenor no direito chinês e, portanto, o mais provável era que a quantidade de cortes era indefinida. Tempos mais tarde, o ópio era, por vezes, administrado como um ato de misericórdia ou como uma maneira de impedir desmaios.


A execução Ling-chi (Fonte: injuado)

De acordo com o princípio confucionista da piedade filial, ou Xiao, para alterar o corpo de alguém ou cortá-lo seria necessário violar as exigências do Xiao. Além disso, cortar um corpo em pedaços significava que o corpo da vítima não seria um "todo" em uma vida espiritual após a morte. Este método de execução tornou-se um elemento de fixação da imagem da China entre alguns ocidentais. Ele aparece em vários relatos de crueldade chinesa, como a biografia de Harold Lamb de 1930 sobre Genghis Khan.
Imperadores usavam este método cruel para ameaçar as pessoas e, por vezes, puni-las por pequenos delitos. Entretanto essa punição não costumava ser utilizada em condenações e execuções injustas. Alguns imperadores dispensaram esta punição para os membros da família de seus inimigos. Embora seja difícil obter os detalhes exatos de como as execuções conhecidas tiveram lugar, elas geralmente eram compostas de cortes nos braços, pernas e peito levando à amputação de membros, seguido por decapitação ou uma facada no coração. Se o crime tivesse sido de menor gravidade ou o carrasco misericordioso, o primeiro corte seria o fatal, diretamente na garganta, sendo que, os cortes subsequentes serviriam apenas para desmembrar o cadáver.

(Fonte: norahdooley)

O historiador de arte James Elkins argumenta que as fotos existentes sobre as execuções torna evidente que a "morte por divisão" (como era chamado pelo alemão criminologista R. Heindl) envolvia algum grau de desmembramento, enquanto o punido estava vivendo. No entanto, Elkins também argumenta que, ao contrário da versão apócrifa da "morte por mil cortes", o atual processo não poderia ter durado muito tempo. Não é provável que o indivíduo condenado tenha se mantido consciente (ou mesmo vivo) após um ou dois ferimentos graves e todo o processo não poderia ter incluído mais do que algumas dezenas de feridas. Na dinastia Yuan 100 cortes foram infligidos, mas pela dinastia Ming, havia registros de três mil cortes. Testemunhas de confiança, como Meadows, descreveram um processo de rápida duração (cerca de 15 a 20 minutos). Já registros fotográficos disponíveis parecem provar a velocidade do evento, enquanto a multidão se mantém coerente em toda a série de fotografias. Além disso, estas fotografias mostram um contraste impressionante entre o fluxo de sangue que encharca o flanco esquerdo da vítima e da falta de sangue no lado direito, possivelmente mostrando que no primeiro ou no segundo corte chegou ao coração. O golpe de misericórdia era mais certo quando a família podia pagar um suborno para infligir uma facada no coração em primeiro lugar.

(Fonte: ramirez-dahmer-bundy)

Alguns imperadores ordenavam três dias de corte, enquanto outros podiam ter ordenado torturas específicas antes da execução, por variados períodos. Por exemplo, os registros mostram que durante a execução, Yuan Chonghuan ficou gritando durante meio dia e depois o som parou. A carne das vítimas também podia ter sido vendida para a medicina chinesa. Além disso, como uma punição oficial, a morte por corte lento pode também ter envolvido cortar ossos, a cremação, e a dispersão das cinzas do defunto.

A percepção Ocidental


(Fonte: casavilamoreno)

A percepção ocidental de Ling-chi muitas vezes difere consideravelmente da prática, e alguns equívocos persistem até o presente. A distinção entre o mito sensacionalista Ocidental e a realidade chinesa foi notado pelos ocidentais bem cedo, em 1895. Naquele ano, o australiano viajante G.E. Morrison, que dizia ter testemunhado uma execução por corte, escreveu que "Ling-chi [era] normalmente, e erroneamente, traduzido como " morte por corte em 10 mil pedaços "- uma descrição verdadeiramente terrível de um castigo, cuja crueldade foi extremamente mal interpretada ... A mutilação é medonha e excita o nosso horror como um exemplo da crueldade bárbara; mas não é cruel, e não excita o nosso horror necessariamente, uma vez que a mutilação é feita, não antes da morte, mas depois. Segundo a lenda apócrifa, Ling-chi começou quando o torturador, empunhando uma faca extremamente afiada, começou por arrancar os olhos, tornando o condenado incapaz de ver o restante da tortura e, presumivelmente, contribuindo muito para o terror psicológico do procedimento. Sucessivos cortes menores não incluíam as orelhas, nariz, língua, dedos e os órgãos genitais antes de proceder os cortes grosseiros que removiam grandes porções de carne de mais peças de tamanho considerável, por exemplo, as coxas e ombros. O processo todo foi durava uns três dias, o que no fim totalizavam 3.600 cortes. Os corpos fortemente deformados dos mortos eram então colocados em um desfile para uma apresentação em público. Em algumas vítimas teriam sido administradas doses de ópio, mas relatos diferem quanto a saber se a droga foi usada para amplificar ou atenuar o sofrimento.

(Fonte: martinfrost)

J.M. Roberts, em seu livro “Século XX: A História do Mundo de 1901 a 2000”, escreve: "o castigo tradicional de morte por corte tornou-se parte do imaginário ocidental como “a morte por milhares de cortes” em uma sociedade chinesa atrasada em termos de desenvolvimento." Roberts, em seguida, observa que o Ling-chi foi condenada por K'ang Yu-Wei, um homem chamado de "Rousseau da China", que era um grande defensor de uma reforma intelectual e do governo na década de 1890. Apesar de oficialmente proibida pelo governo Qing em 1905, o  Lingchi se tornou para o ocidente um símbolo generalizado do sistema penal chinês a partir da década de 1910 em diante. Três conjuntos de fotografias tiradas por soldados franceses em 1904-1905 foram a base para a mitificação mais tarde. A abolição foi imediatamente cumprida, mas não foi definitiva. Essa pena ainda continuou sendo realizada na China depois de Abril de 1905. Entretanto, os casos relatados foram todos baseados em equívocos relacionados a execuções do passado. Quanto ao uso do ópio, como relatado na introdução do livro de Morrison, Sir Meyrick Hewlett insistiu que à maioria dos chineses condenados à morte foram dadas grandes quantidades de ópio antes da execução, e afirma Morrison que algumas pessoas caridosas teriam permitido empurrar ópio na boca de alguns condenados que morriam em agonia, acelerando assim o momento da morte. No mínimo, tais contos foram considerados críveis para oficiais britânicos na China e outros observadores ocidentais.

(Fonte: injuado)

Na próxima parte darei prosseguimento a reflexão ocidental acerca do Ling-chi.



            Ling-chi - Parte II - Relatos sobre as execuções de corte lento

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