quarta-feira, 23 de março de 2011

Acqua di Cristallo - a água mais cara do mundo

No artigo sobre as colunas de dessalinização eu tinha comentado a respeito da escassez de água potável no mundo, que em breve este recurso natural poderia ser o mais disputado pelas nações. Imagine que, à medida que a água se torna um bem raro, conseqüentemente ela se tornará um bem caro. A gente, por exemplo, pode questionar o abuso no preço da garrafa de água mineral, entretanto, em alguns lugares do mundo essa água é tão cara e escassa que ainda podemos nos dar ao luxo de ter disponível água pura em nossas casas. Pensando nessa questão do valor da água, pesquisando em alguns sites eu encontrei informações sobre qual seria a água mais cara do mundo. A resposta para essa pergunta é “Acqua di Cristallo”.

Acqua di Cristallo (Fonte: vivrearia)

Alguns designers só conseguem estabelecer recordes mundiais através de seus produtos uma vez ou outra. O designer Fernando Altamiro, que já concebeu a garrafa de conhaque mais cara do mundo – a Cognac Dudognon Património Henri IV -, é um desses profissionais e foi ele o responsável por mais um recorde com sua garrafa de água recém-projetada, no valor de 60.000 dólares. Este é o seu segundo recorde mundial do Guinness para o maior preço do frasco vendido em  um leilão.

Fernando Altamiro (Fonte: most-expensive-water)
Sabemos que boa parte desse valor se deve à garrafa e não à água, já que o frasco é composto de ouro, foscas de ouro, prata, prata fosco, cristal e uma variedade de composições. Inclusive, Altamiro fez uma versão especial dessa garrafa  com ouro, prata, platina e 6 mil diamantes para uma exposição, custando míseros 3,3 milhões de dólares! Para aqueles menos endinheirados, o Acqua di Cristallo está disponível em uma versão mais simples, conhecida como Blue Ice, por apenas 285 euros. O bom desses preços absurdos é que pelo menos 15% de todas as vendas serão doadas para causas do aquecimento global.


Blue Ice (Fonte: inventorspot)

E fora a garrafa, o que a água em si tem de especial? Bom, a água do Acqua di Cristallo tem mais de uma origem: uma parte veio de nascentes das Ilhas Fiji, outra parte de nascentes da França e outra parte de geleiras da Islândia. A cereja do bolo são os 5 miligramas de pó de ouro de 23 quilates polvilhado na água.


(Fonte: it.123rf)

O design do frasco é baseado em uma obra de arte criada pelo falecido artista italiano Amedeo Clemente Modigliari e é uma homenagem a ele. Nascido em 12 de julho de 1884 e falecido em 24 de janeiro de 1920, nasceu em uma família judia de Livorno, Itália. Era um artista que, apesar de ser italiano, trabalhou a maior parte do tempo na França. Principalmente como artista figurativo, ele se tornou conhecido por pinturas e esculturas em estilo moderno, tendo como características mais marcantes rostos alongados como máscaras. Ele morreu em Paris de meningite tuberculosa, agravada pela pobreza, excesso de trabalho, e à dependência do álcool. Mal sabia ele que suas obras, que na época não valiam nada, inspirariam mais tarde a criação de um artefato tão caro e luxuoso quanto o Acqua de Cristallo.


(Fonte: lussuosissimo)

A maioria das garrafas caras de água é vendida em leilão. Quem estiver interessado em adquirir um desses suntuosos frascos tem a vantagem do preço da garrafa já incluir a entrega do produto, que vem em um pacote de 5 kg, em todo mundo.  E além disso, o material vem acompanhado de autenticidade e certificado de edição limitada assinados pelo autor. Portanto, se você está insatisfeito com a água mineral que consome, comece a juntar economias para apreciar uma água especial, polvilhada a ouro, para beber até se engasgar e arrotar cifrões.

 

quarta-feira, 16 de março de 2011

O desastre radioativo de Chernobyl

Nos últimos dias toda a atenção do mundo esteve voltada para a tragédia do tsunami no Japão em conseqüência de um tremor de terra na escala de 8,9 em magnitude. O tremor ainda trouxe outras conseqüências como duas explosões na usina nuclear de Fukushima, espalhando fumaça radioativa à quilômetros de distância. A quantidade de mortos encontrados ultrapassa os 2 mil e a previsão é que esse número dobre! Tal disastre já é comparado ao de Chernobyl, ocorrido na década de 80,  que teve proporções ainda mais devastadoras. Vamos relembrar o que aconteceu nesse obscuro episódio.


O desastre de Chernobyl (Fonte: news.bbc)

Chernobyl

Na madrugada de 26 de abril de 1986, um dos quatro reatores nucleares da usina de Chernobyl explodiu. Tudo começou durante o turno da noite, na virada do dia 25 para o dia 26 de abril, quando engenheiros começaram um experimento para ver se o sistema de bomba de refrigeração ainda podia funcionar usando a energia gerada a partir do reator em baixa potência para auxiliar o abastecimento de eletricidade em caso de falhas. Cerca de 2.300 barras de controle que, regulam o processo de cisão num reator nuclear, absorvendo nêutrons e retardando a reação em cadeia,  foram reduzidas para diminuir a produção de energia para cerca de 20% da produção normal necessária para o teste.  No entanto, muitas barras foram reduzidas e a produção de energia caiu rapidamente, resultando na paragem quase completa do sistema de bomba de refrigeração.


O processo de aquecimento do reator nuclear (Fonte: news.bbc)

A partir daí, preocupados com a possível instabilidade, os engenheiros começaram a levantar as barras para aumentar a produção. Em 0030 foi tomada a decisão de continuar. Até 0100 o poder ainda era apenas cerca de 7%, necessitando que mais barras fossem levantadas. Então o sistema de desligamento automático foi desativado para permitir que o reator continuasse a trabalhar em condições de baixa potência. Enquanto isso os engenheiros continuaram a levantar as barras de controle para aumentar a produção. Ao chegar em 0123, a energia tinha alcançado 12% e o teste começou. Mas, segundos depois, os níveis de poder, de repente, subiram a níveis perigosos e o reator começou a superaquecer e na sua refrigeração a água começou a virar vapor. Neste ponto, acredita-se que todas as barras de controle levantadas tinham sido removidas do núcleo do reator, sendo que o número mínimo de funcionamento seguro foi considerado 30. Em conseqüência disso, o botão de parada de emergência foi pressionado. Com potência de 100 vezes o normal, as pastilhas de combustível no núcleo começaram a explodir, rompendo os canais de combustível. À cerca de 0124, duas explosões ocorreram, fazendo um telhado em forma de cúpula do reator ser arrancado e os conteúdos que o irromperam foram lançados para fora. Como o ar era sugado para o reator destruído, este inflamou o gás monóxido de carbono e causou um incêndio no reator que queimou por nove dias. Para piorar, pelo fato do reator não ter sido alojado em uma casca de concreto armado, como é prática normal na maioria dos países, o edifício sofreu danos graves e deixou escapar grandes quantidades de resíduos radioativos para a atmosfera.


O processo de aquecimento do reator nuclear (Fonte: news.bbc)

Durante o incêndio bombeiros tentaram controlar as chamas no telhado, enquanto helicópteros jogavam areia e chumbo, em um esforço conjunto para conter a radiação.
Os níveis de radiação eram pelo menos 100 vezes maior do que o poder radioativo das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Esse desastre abrangeu Chernobyl, partes da Bielorússia, Ucrânia e Rússia. Mais de 350.000 pessoas foram reassentadas longe dessas áreas, mas cerca de 5,5 milhões permaneceram no local.


Áreas abrangidas pela radiação (Fonte: news.bbc)

A contaminação com césio e estrôncio foi uma das principais preocupações, já que essas substâncias permaneceriam no solo por muitos anos, após o ocorrido. Posteriormente foram encontrados em todo o hemisfério norte resíduos radioativos e a direção do vento e das chuvas irregulares deixaram algumas áreas mais contaminadas que seus vizinhos imediatos. As explorações agrícolas de alguns países como a Escandinávia  e o Reino Unido também foram contaminadas pela radiação proveniente da usina de Chernobyl, tempos depois do acidente.


Formas de contaminação (Fonte: news.bbc)

Moscou demorou a admitir o que tinha acontecido, mesmo após os altos níveis radiação terem sido detectados por outros países. A falta de informação levou a reivindicações exageradas do número de mortos pela explosão na área imediata.  Por essa razão o número de pessoas que, eventualmente, podem ter morrido em virtude das conseqüências do acidente de Chernobyl ainda é altamente controversa. Um ‘extra’ de 9.000 mortes por câncer era previsto pela ONU no Fórum de Chernobyl. Mas ela diz que os problemas da maioria das pessoas são “econômicos e psicológicos, não sanitários e ambientais”. Já o Greenpeace está entre os que prevêem efeitos mais graves de saúde. Ele espera que pelo menos 93 mil mortes por câncer, em virtude do contato com a radiação, venha a acontecer, junto com outras doenças, elevando o número mortes resultantes da explosão radioativa para 200.000 mortos.


Vítima da radiação de Chernobyl (Fonte: blogln)

O impacto na saúde é mais evidente pelo aumento acentuado no câncer de tireóide em pessoas que viveram ou vivem em regiões que foram atingidas pelo incidente em Chernobyl. Cerca de 4.000 casos da doença foram observados, principalmente em pessoas que eram crianças ou adolescentes na época. As taxas de sobrevivência, no entanto, são altas e apenas 15 pessoas são conhecidas por terem morrido. Mas o Greenpeace diz que poderia vir a ser 60.000 casos da doença, entre 0s 270.000 casos de todos os cânceres.


Chernobyl após o incidente (Fonte: chernobylkidslondon)

O sarcófago (Fonte: news.bbc)

O sarcófago que ‘encerra’ Chernobyl foi construído às pressas e está se desintegrando. Apesar de ser reforçado para evitar e liberação de toneladas de poeira radioativa, há temores de que ele possa entrar em colapso e deixar todo esse material radioativo escapar. Para isso há uma previsão para a construção de um abrigo de reposição no valor de 600 milhões de dólares, projetado para durar 100 anos. Esse novo confinamento seguro de poeira radioativa será construído na área que abrange todo o local onde ocorreu a tragédia e depois sobre o sarcófago. Tal abrigo vai permitir que a estrutura de concreto possa ser desmontada para o tratamento do combustível nuclear e do reator danificado. O acesso ao interior será através das extremidades da estrutura. Apesar da contaminação duradoura da área, os cientistas ficaram surpreendidos com o ressurgimento dramático da vida selvagem no local. Populações de cavalo selvagem, javali e lobo estão prosperando, enquanto linces voltaram para a área e os pássaros têm a ninhada no edifício do reator, sem qualquer evidente mal efeito provocado pela radiação.

Animais vivendo normalmente em Chernobyl (Fonte: news.bbc)
Torcemos para que a tragédia ocorrida no Japão não chegue a este ponto e, tão logo, possam os cidadãos japoneses voltarem à sua vida normal.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Os ônibus da morte e a questão da pena capital na China

China é atualmente o país que executa mais penas de morte no mundo, ou seja, cerca de dois terços das penas capitais proferidas. Dentro dessa estatística é sabido que 68 tipos de crimes lá são passíveis da aplicação da pena de morte. Vão da contrafacção ao contrabando, passando pela fraude fiscal. Os crimes que mais levam condenados aos estádios e demais palcos de execuções públicas são os crimes de homicídio e tráfico de drogas. A gente pode pegar como exemplo o caso dos produtores de leite que venderam leite com melamina (composto alcalino que libera nitrogênio e é usado nos pesticidas) e intoxicaram mais de 300 mil crianças chinesas. Por conta disso todos foram executados no início de 2009. Mas a pena de morte não é exclusiva dos crimes de Direito Civil ou Penal, pois continuam a ser um meio de dissuasão política, pelo que muitos prisioneiros de consciência continuam a desaparecer nos centros de detenção. Sabe-se que, na sequência dos conflitos étnicos em Xinjiang, em Julho passado, entre a maioria han e a minioria ouighours, seis ativistas foram condenados à morte.


Ônibus da morte (Fonte: pulaomuro)

No relatório de 2009, a Anistia Internacional divulgou que, das sete mil penas de morte proferidas, 1700 foram executadas, mas a fundação chinesa Dui Hui afirma que houve mais execuções ainda: 5000, só este ano. Todavia, em qualquer dos casos, foram executados  metade dos prisioneiros em relação ao ano anterior. Era habitual assistir à execução de mais de dez mil detidos por ano. Normalmente com uma bala na nuca que a família era obrigada a pagar a um custo inflacionado. Depois de 1997 passoua a ser mais frequente o uso da injeção letal.


(Fonte: dn.sapo)

Desde 2007, a sentença é executada só quando o Supremo Tribunal confirma o julgamento. Não é possível qualquer contestação. Tal reforma pretendeu limitar o poder dos tribunais regionais, muito zelosos em matéria de condenação à pena capital. Dessa forma, o apelo se torna possível até chegar ao Supremo onde, em 2007, foram revogadas 15 por cento das condenações à morte; em 2008, 10 por cento.


(Fonte: gentesemfuturo)

É verdade que 2008 coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos – um sucesso para as autoridades chinesas mas não para os direitos do Homem. Antes dos Jogos, a Anistia Internacional denunciou a deficiente reforma chinesa sobre a pena de morte. O sistema continuava opaco, arbitrário e, simplesmente contrario à Carta Olímpica.


(Fonte: radionetgov)

Dentro desse contexto surgem também os ônibus da morte. À primeira vista eles não possuem nada de especial, além de uma sirene, um visual azul e branco, janelas escurecidas e a palavra “polícia” discretamente pintada na porta. Entretanto, quando esse micro-ônibus se aproxima dos presídios, é sinal de que o pior aguarda os presos.  Quando chega a uma cidade, o ônibus vai direto para o presídio. Ele tem uma maca e acomodações para apenas 6 pessoas – o médico, o oficial de execução e os guardas. O prisioneiro é tirado da cela, amarrado à maca e recebe uma injeção com sódio tiopental (para que ele fique inconsciente), brometo de pancurônio e cloreto de potássio, substâncias que causam parada respiratória e cardíaca.


(Fonte: www1.folha.uol)

A execução é transmitida ao vivo, por um circuito fechado de TV, para as autoridades locais. Se houver mais algum condenado para matar, repete-se o procedimento. Se não, é hora de voltar à estrada. Segundo o governo, os ônibus da morte são uma tentativa de humanizar o sistema de execuções na China (o número oficial não é divulgado, mas acredita-se que até 10 mil pessoas sejam executadas por ano). Antes da criação da frota, em 2004, a maioria dos condenados era morta a tiros. Isso porque a injeção letal, considerada um método de execução menos cruel, só estava disponível em Pequim – e nem todas as cidades podiam, ou queriam, pagar para que seus condenados viajassem até lá. “Eu tenho orgulho [do ônibus]. Ele é humano, como uma ambulância”, disse o criador dos veículos, Kang Zhongwen, ao jornal USA Today. Mas ongs de defesa dos direitos humanos afirmam que o verdadeiro objetivo dos ônibus da morte é outro. Eles estariam sendo usados como pequenos centros cirúrgicos, onde os órgãos dos presos seriam retirados logo após a execução – e vendidos no mercado negro por autoridades chinesas. Mas até então é difícil provar essa acusação, pois o corpo dos condenados é cremado logo após a morte.



(Fonte: manifestzine)


quinta-feira, 10 de março de 2011

Miapolis - O Maior arranha-céu sustentável do mundo

Atualmente o maior arranha-céu do mundo é o Burj Khalifa, de Dubai com 828 metros de altura, entretanto, seu posto poderá ser destronado em breve por uma torre de 975 metros de altura, projetada para ocupar a ilha de Watson, em Miami. De autoria da Kobi Karp, o Miapolis será levantado utilizando princípios da arquitetura sustentável e poderá se tornar a maior construção a receber um certificado LEED (certificação para edifícios sustentáveis).


Miapolis (Fonte: flepi)

O mega edifício terá 160 andares que serão ocupados por mil apartamentos residenciais, 792 quartos de hotel, 65 mil metros quadrados de lojas, 33 mil metros quadrados de salas comerciais, além de infinidade de opções de lazer como restaurantes, observatórios, parques e um anfiteatro.


(Fonte: fadtrends)

A preocupação ambiental ficará por conta de tecnologias como telhados verdes, dessalinização da água do mar, uso de 60% de energia eólica, sistema de gerenciamento das emissões de gases do efeito estufa, captação da chuva e reutilização de água cinza, gestão dos resíduos sólidos, uso de carrinhos elétricos e sequestro de carbono.


(Fonte: luxurylaunches)

Os responsáveis pelo projeto demonstram ainda que não se preocuparam apenas com a parte ambiental da obra, mas também nos benefícios sociais gerados pela construção desse monumento, principalmente levando em conta que a economia local ficou bastante abalada após a última crise financeira que balançou o mundo globalizado.


(Fonte: decodedstuff)

 “Miapolis é um motor econômico, é uma solução sensata e racional para a economia local. O projeto irá gerar 942 milhões dólares por ano em receitas fiscais, 46 mil empregos durante a construção e 35 mil postos de trabalho permanentes”, afirmam os envolvidos no mega empreendimento.


(Fonte: forum.xcitefun)

Atualmente a obra, que pretende ser “uma cidade dentro da outra”, está à procura de investidores.


sexta-feira, 4 de março de 2011

A coluna de dessalinização – Uma esperança para a escassez de água potável

Não é novidade o fato da água ser um dos principais recursos naturais dos quais necessitamos para viver. E também não é novidade sabermos que apesar de ser um elemento bastante abundante no nosso planeta, apenas pequena parte desse recurso é apropriado para o consumo humano. Não é de hoje que sinais de esgotamento de água potável têm surgido em regiões como o Oriente Médio e a África. Alguns estudiosos já prevêem que em breve a água será o principal foco de atenção entre as nações do mundo e, o Brasil por ter o privilégio de possuir 12% de toda a água doce da superfície terrestre, poderá futuramente fazer parte de conflitos pela disputa desse bem precioso. Além disso, nosso país, apesar de possuir boa parte desse recurso, já tem sofrido com problemas de falta de água em algumas cidades.



(Fonte: colegiosaocamilo)
 
Os principais fatores que levaram o Brasil a sofrer com problemas de escassez de água são a poluição de rios e nascentes, o desperdício e a má distribuição de água nas regiões brasileiras. Para se ter uma idéia a região amazônica possui 78% da água superficial, entretanto, é a região que possui a menor densidade demográfica. Em contrapartida, no sudeste, onde se concentra a maior parte da população, só tem disponível cerca de 6% do total de água. A região de São Paulo, apesar de ter crescido na confluência de vários rios, teve um processo de urbanização, industrialização e produção agrícola sem nenhum critério de preservação ambiental e da água, logo tornando imprestável para o consumo a água potável que a região tinha disponível. Assim, a população dessa região foi obrigada a buscar água em bacias distantes, alterando cursos de rios e a distribuição natural de água na região. Com relação ao desperdício de água, basta dizer que as cidades, em virtude da urbanização descontrolada possui uma taxa de 50 a 70% de desperdício de água, usada de forma irregular.
Sempre imaginei que uma solução para a escassez de água doce seria criar algum mecanismo capaz de transformar a água salgada em água potável. Há anos atrás, quando lia a respeito dessa possibilidade, constatava que um dos principais fatores de inviabilidade do processo de dessalinização da água do mar seria o alto custo gerado para investir em pesquisa de tecnologia para resolver o problema que se torna mais sério a cada dia que passa. Sem falar que, tal processo, teria que ser capaz de fazer a dessalinização da água em alta escala para atender às populações mundiais, o que na prática, seria realmente algo bastante complexo.


O processo de dessalinização da água (Fonte: inovaçãotecnológica)

Foi aí que, recentemente, descobri que não era o único que pensava em engenhocas desse tipo para deixar a água do mar apropriada para o consumo humano. A escola politécnica da USP acabou de desenvolver um mecanismo capaz de transformar a água do mar em água potável. Tal sistema foi batizado de Coluna de Dessalinização e funciona a partir de energia renovável. O objetivo desse aparato é atender às populações carentes, como a do Cabo Verde, na África, onde a escassez de água pura se tornou um dos problemas mais relevantes na região.
O engenheiro caboverdiano Juvenal Rocha Dias é o autor desse projeto que, segundo ele, foi feito justamente para atender às necessidades de seu país de origem. Dias ainda conclui que já é possível que os governos de países subdesenvolvidos invistam em métodos menos custosos de dessalinização de água, já que, o método atual utiliza energia elétrica a partir da queima de combustível fóssil, como o diesel. Este processo em si já é mais caro e mais prejudicial ao meio ambiente.


Sistema atual de dessalinização da água (Fonte: amanatureza)

O sistema utiliza-se de energia eólica, fornecida pelos ventos, para funcionar. Essa energia, por sua vez, é gerada a partir de cata-ventos ou turbinas eólicas, e energia potencial gravitacional. O processo então se inicia com o bombeamento da água salgada para uma coluna cilíndrica localizada na parte superior do mecanismo, onde há um reservatório. O peso dessa água impulsiona um êmbolo que pressiona o ar contido em uma câmara inferior do sistema. Esse ar exerce uma força sobre outro reservatório. A água contida nele é pressionada e passa por uma espécie de membrana. Esta, por sua vez, funciona como o filtro do sistema, onde é realizado um método conhecido como “osmose reversa” e, dessa forma, a água, antes salgada, passa para o outro lado da coluna dessalinizada. Ainda segundo o engenheiro, a dimensão da coluna a ser construída depende da quantidade de água potável desejada que, destarte, depende da quantidade de indivíduos que ela vai atender. Por exemplo, para a produção de 5 mil metros cúbicos (m3) de água, o que equivale, em média, à água utilizada por 10 pessoas ao longo de um dia, o sistema deve possuir cerca de 25 metros (m) de altura.
O processo realizado pela coluna de dessalinização equivale a 2,8 kWh/m³ de água potável produzida, o que é um consumo bastante baixo em relação ao método convencional que apresenta valores em torno de 10 kWh/m³ de água potável produzida a partir da dessalinização da água do mar.

Unidade de dessalinização australiana (Fonte; quimicaederivados)
A professora e orientadora do estudo, Eliane Fadigas, acredita que países em situações econômicas semelhantes à do Cabo Verde podem se beneficiar da coluna de dessalinização à longo prazo, mesmo que a construção desse sistema seja bem cara. Eliane explica que “O governo vai poder redirecionar o dinheiro que era utilizado com a compra de diesel para outras necessidades, ligadas também à população. É evidente que tudo isso depende da vontade política”, e ainda acrescenta mais: “Além de servir para transformar a água do mar em água potável, a coluna também pode ser adaptada e reprojetada para outros fins. Por exemplo, a partir do uso de filtros apropriados, o sistema pode ser utilizado para a despoluição de riachos e lagos, ou mesmo como fonte de água para uso na agricultura ou produção de energia elétrica”. E complementando o que Fadigas disse, “ao idealizar o sistema, pensamos não só na questão dos gases poluentes, mas também onde poderíamos depositar o sal retirado da água. Esse 'resto' pode ser, por exemplo, devolvido para o mar de uma forma controlada", completa o engenheiro Juvenal.
Apesar da coluna de dessalinização ser uma idéia bastante promissora, ela possui algumas limitações no funcionamento do sistema. O engenheiro apontou, por exemplo, que, “uma vez que é movido à energia eólica, ele depende das condições dos ventos, e até mesmo dos requisitos dos cata-ventos, que, por sua vez, devem ser instalados próximos ao mar ou a fontes de água. Isso não acontece caso a fonte de energia seja a turbina eólica, de mecanismo diferente do cata-vento. Há portanto a limitação de espaço, já que quanto mais cata-vento, mais potência”. Porém, prevendo tais limitações, Dias imaginou uma forma de contornar tal dilema. Para isso ele sugere a utilização da bomba clark, uma bomba d’água capaz de reaproveitar as energias perdidas durante o processo do sistema.


Ilustração de uma bomba d'água clark (Fonte: agram)

A partir deste projeto, pode ser que, num futuro próximo, a coluna de dessalinização seja uma alternativa para produzir água potável do mar, ou mesmo, uma porta para novas possibilidades de sistemas capazes de produzir água potável em larga quantidade, atendendo principalmente às regiões do mundo onde esse recurso natural encontra-se extremamente escasso.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pica – Comedores de terra, sabão e outras bizarrices

Um dia desses estava a ler algumas notícias quando me deparei com a seguinte manchete: “Jovem norte-americana sofre com compulsão por comer sabão”. Não é a primeira vez que ouço falar a respeito de pessoas que tem prazer em comer coisas estranhas. Vez ou outra, lemos notícias de pessoas que tem compulsão por comer terra ou cabelo, sendo que, na maioria dos casos é necessário submeter o indivíduo a uma lavagem estomacal para tirar o acúmulo de bizarrices do estômago e evitar infecções e outros problemas mais graves. A medicina dá o nome de PICA (do latim pega – um pássaro do hemisfério norte renomado por comer quase tudo o que aparece na sua frente) a esse distúrbio alimentar, caracterizado pela ingestão de substâncias ‘nada nutritivas’.

Tempestt em um de seus saborosos banquetes à base de sabão (Fonte: gistexpress)
           A pica, mais tecnicamente conhecida como alotriofagia ou alotriogeusia é uma condição rara que leva algumas pessoas a terem obsessão em ingerir substâncias não alimentares como terra, tecido, carvão, giz, moedas, pilhas (Rafael Ilha, alguém?) e, também, é incluído nesse conceito da doença aqueles que possuem uma vontade fora do comum em comer ingredientes de alimentos, como  farinha ou amido de milho e mandioca.
          Mas então como determinar se uma pessoa sofre desse distúrbio, já que, no caso das crianças, é muito comum saírem pela casa pondo na boca tudo o que vem pela frente? No caso da pica, o indivíduo só será diagnosticado com esse problema se sua ânsia por ingerir alimentos estranhos persistir por cerca de um mês, durante um período de sua vida, onde o consumo de coisas como excremento, pedrinhas ou botões serão considerados anormais para o desenvolvimento do sujeito. A pica é freqüentemente identificada em mulheres grávidas e em crianças que sofrem dificuldades em seu desenvolvimento infantil normal, mas tal transtorno pode surgir em qualquer idade.


Tempestt Henderson (Fonte: gentesemfuturo)

No caso da manchete citada no primeiro parágrafo, a matéria relatava o drama de Tempestt Henderson, uma estudante de enfermagem de 19 anos, que vive na Flórida, Estados Unidos, e come até cinco barras de sabão por semana, além de ingerir o mesmo material em pó. Ela revelou ao jornal Daily Mail que sempre soube que comer sabão era perigoso, entretanto Tempestt ignorou tal advertência e passou a se envenenar diariamente, ingerindo sabão e outros derivados desse produto. Após 6 meses de sofrimento a garota decidiu procurar um médico. A partir dessa consulta ela ficou sabendo que sofria com os sintomas da pica.


Cabelo retirado do estômago de um comedor compulsivo de cabelos (Fonte: fosselaumasereia)

Apesar de geralmente a origem do distúrbio estar associada à deficiência de minerais, o que explica por que mulheres grávidas podem desejar comer carvão, quando precisam de ferro, no caso de Tempestt, os médicos atribuíram o estresse como o fator determinante para a menina desenvolver tal compulsão por sabões. Segundo a própria, as coisas teriam ficado mais difíceis após a separação do namorado, que estava indo para faculdade.

Os comedores de terra

Dentre os casos de ingestões estranhas cometidas por algumas pessoas, uma das mais comuns é a ingestão de terra. Pessoas em muitas partes do mundo se permitem à curiosa prática de comer terra, também conhecida com geofagia. Mas por que o fazem permanecia um certo mistério. Agora, um novo estudo visa mostrar que a argila pode ser vital na proteção de mulheres grávidas.
Os habitantes da ilha de Pemba, no leste da África, exultam quando uma de suas jovens mulheres começa a comer terra. Este suplemento alimentar incomum só pode significar uma coisa: que ela está esperando um bebê.
"Uma porção diária é de cerca de 25 gramas de terra", disse Sera Young, que trabalha em tempo integral na pesquisa da geofagia. A antropóloga de 30 anos logo se transferirá da Universidade de Cornell para a Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Em todo continente há pessoas que comem greda, argila ou marga. Mas apenas agora Young e seus colegas estão começando a entender que forças as levam a fazer isso. Independente das pessoas estarem comendo argila de fontes naturais ou comprando "argila medicinal" na farmácia para comer, elas estão claramente seguindo algum anseio ancestral que se desenvolveu ao longo da evolução.


Vendedoras de argila para consumo (Fonte: oficinadesociologia)

Não são apenas seres humanos que comem um pouco de terra de vez em quando -papagaios, gado, ratos, elefantes e chimpanzés também o fazem. Até mesmo homens pré-históricos compartilhavam esta paixão por comer terra - uma escavação arqueológica na África encontrou marga (um tipo de calcário) em pó que claramente era usada como ração de marcha há dois milhões de anos. Mas a pergunta permanece: por quê?
Em seus estudos de campo na ilha de Pemba, que pertence à Tanzânia, Young observou que principalmente as mulheres grávidas sentiam desejo por terra. "É como um vício. Há até mesmo uma palavra para isso: 'vileo'", ela disse.
Mas as mulheres grávidas não simplesmente recolhem sua refeição terrena na rua. Na verdade, elas não medem esforços para assegurar que seja o tipo certo de terra. Elas raspam marga de fontes específicas ou a coletam em certos locais fora de suas aldeias. "A terra não pode ser suja", explicou Young.
A seletividade dos comedores de terra chamou a atenção do naturalista alemão Alexander von Humboldt há 200 anos, quando ele passou algum tempo onde atualmente é a Venezuela. O povo indígena otomaque, ele notou, preferia as camadas aluviais onde era encontrada "mais espessa, com melhor sensação".
O fato de os indígenas devorarem terra em "quantidades tremendas" e a guardarem para tempos de dificuldade, na forma de bolas de argila secas, levou Humboldt a supor que a geofagia era usada como solução improvisada para momentos de escassez de alimentos. De fato, as pessoas comiam terra particularmente em momentos difíceis, como no Haiti em 2004, quando os moradores das favelas recebiam bolos de manteiga, sal, água e terra.
Mas esta hipótese da fome não explica o fenômeno plenamente. A terra também está no cardápio de pessoas que se alimentam bem. Logo, muitos pesquisadores acham que a terra funciona como um medicamento natural. A marga, afinal, contém magnésio, sódio, cálcio, potássio, ferro e uma grande quantidade de minerais. Em casos de diarréia severa, segundo alguns cientistas, uma colher de chá de terra poderia fornecer ao corpo os minerais perdidos.

Fonte: (doencaspsicologicas12)

No entanto, Peter Hooda, um pesquisador de solo britânico, descobriu indícios de que, pelo contrário, a marga tira mais do corpo do que fornece. O cientista e sua equipe chegaram a esta conclusão surpreendente depois de realizar uma simulação em laboratório da interação entre a terra e o trato digestivo. Eles misturaram marga, ácido gástrico e nutrientes, deixaram a mistura barrenta à temperatura do corpo por tempo suficiente para reagir plenamente e então analisaram o composto resultante.

Um desentoxicante natural para o estômago

Os resultados mostraram que muitos nutrientes se ligaram firmemente às estruturas microscopicamente pequenas na marga. Isto levou a uma redução significativa no ferro, zinco e cobre disponíveis no banho de lama, o que estava de acordo com uma das observações de Young em Pemba: muitos dos apreciadores de marga eram anêmicos e apresentavam níveis baixos de ferro no sangue.
Mas em algumas circunstâncias, supõe a antropóloga, o efeito lixiviante da terra poderia ser uma vantagem. "A terra pode ajudar a remover toxinas do corpo." Esta teoria é apoiada por algo que Young notou após estudar mais de 2.700 casos relevantes na literatura sobre o assunto: crianças pequenas e mulheres grávida - pessoas para as quais uma intoxicação pode ser particularmente séria - fazem uso particularmente freqüente deste recurso natural.
Até agora, o enjôo matinal era visto como um mecanismo evolutivo desenvolvido para proteger a criança ainda não nascida das substâncias prejudiciais nos alimentos. Seria a geofagia uma estratégia adicional?

Mulher fazendo biscoitos de terra (Fonte: paypointusa77)
Em uma tentativa de dar mais substância à sua teoria, Young está atualmente acompanhando a análise de mais de 30 amostras de terra de Pemba, Quirguistão, Indonésia e outras áreas pelo Instituto Macaulay, em Aberdeen, Escócia, para entender até que ponto elas possuem potencial químico de remover as toxinas dos alimentos.
As análises poderão fornecer prova científica do que muitos comedores de terra sempre disseram: a terra limpa o estômago.

Os tipos de pica

Dependendo do tipo de alimentação anormal que o indivíduo acometido pela pica tem, ela se encaixará em uma das seguintes subcategorias:

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