quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Crianças enterradas vivas - Uma triste realidade indígena

No artigo sobre os funerais de Toraja eu havia comentado sobre a questão da cultura em diferentes regiões do mundo, onde eventos que nos parecem bizarros, para determinados povos não os são. Mas será que não existe limite para os extremismos culturais que, muitas vezes, envolvem sacrifícios banais em nome de uma tradição que no mundo moderno soa ultrapassada e sem sentido?


Infanticídio (Fonte: convulssion)

Uma organização sem fins lucrativos conhecida como ‘ATINI – Voz pela Vida’ desenvolveu um projeto em defesa da luta contra as práticas do infanticídio no mundo. Segundo eles, todos os anos centenas de crianças são sacrificadas em nome de uma tradição cultural seguida por determinados povos.  Na África Central e Ocidental, por exemplo, recém-nascidos que nascem com alguma deficiência são alvos de um preconceito extremo e são deixados à sorte até morrerem, o que geralmente causa alívio para todos. Na Índia, a família tem preferência pelas crianças do sexo masculino e, por essa razão, muitas mulheres são levadas a abortar o bebê quando descobre que é do sexo feminino. Além disso, as meninas são obrigadas a comer o resto de comida dos pratos dos meninos, geralmente adoecem mais e são as últimas a serem atendidas no sistema de saúde. Em algumas regiões de Camarões, Gabão, Nigéria e Libéria, crianças sensíveis e sonhadoras são acusadas de terem poderes diabólicos e são ligadas a eventos relacionados a acidentes e infortúnios. Em Benin, para uma criança ser morta basta ser encaixada em um desses requisitos: que na hora do parto saia primeiro os pés, ombros ou nádegas; que nasça com o rosto virado para baixo; que a mãe morra durante o parto; que nasçam primeiro os dentes inferiores, ou que simplesmente  não nasçam até os 8 meses de idade. Os pais ainda são obrigados a presenciar tudo e pagar pelo serviço. Um absurdo!

Campanha: Violência contra a criança (Foto: mesquita)
Aqui no Brasil também há registros de infanticídio em algumas tribos. O critério para determinar se uma criança deve ou não ser sacrificada é o fato de ela ter nascido com alguma deficiência física ou mental, de serem gêmeos, ou nascer de uma relação extra-conjugal. Uma grande discussão tem sido levantada em torno desse assunto, entre os defensores da prática em nome da preservação da cultura e aqueles que são a favor do fim dos sacrifícios. Aí nos perguntamos novamente: até onde uma tradição troglodita deve ser tolerada?
Isso me faz lembrar da era medieval onde a igreja concentrava o poder e matava milhares de pessoas em nome de Deus durante a inquisição. O propósito disso era claro, enquanto ela mantinha o povo sob controle permanecia inatingível. Depois que perdeu sua força com o tempo, hoje se limita a emitir opiniões condenando determinadas práticas como o uso da camisinha, numa época onde doenças como a Aids estão proliferando por todas as partes.

Criança indígena sendo enterrada viva (Fonte: Internationalsurvival)

Criança indígena sendo enterrada viva (Fonte: Internationalsurvival)

A ATINI, em 2008 lançou um documentário chocante sobre a prática de se enterrar crianças vivas, consideradas ‘amaldiçoadas’, em algumas tribos brasileiras. O nome do documentário é ‘Hakani, Enterrada Viva – a história de uma sobrevivente’ e conta a história de uma jovem índia chamada Hakani que nasceu 1995, numa tribo suruwaha, semi-isolada no sul da Amazônia. Como ela não se desenvolveu bem até os dois anos − tinha hipotireoidismo congênito − ela foi rejeitada pela tribo e seus membros pressionaram os pais de Hakani para que eles a sacrificassem. Porém o peso de ter que matar um filho foi demais para eles e os pais da menina resolveram se suicidar, deixando a indiazinha e um irmão órfãos. Sobrou então para o irmão mais velho a responsabilidade de matar a menina. Ele a levou para um local próximo a maloca, cavou uma cova rasa e a enterrou viva diante de alguns índios. Dentro da terra ainda dava para ouvir o choro abafado da criança (alguns relatos dizem que crianças enterradas vivas passam horas chorando debaixo da terra antes do silêncio prenunciar sua morte). Porém, antes que o choro de Hakani fosse silenciado seu irmão a desenterrou e a levou para o avô. Como se não bastasse todo esse drama, a tribo voltou a pressionar a morte da menina e coube ao avô essa triste responsabilidade. Ele tentou sacrificar a criança com uma flecha no coração, mas errou o alvo e atingiu o ombro da menina. Resultado disso: seu remorso pela situação foi tão grande que resolveu tomar um veneno conhecido como timbó e veio a falecer também. Aos 2 anos e meio a pequena índia viveu em condições subumanas na tribo onde era considerada um ser amaldiçoado. Porém, sua vida finalmente teve uma reviravolta depois de 3 anos de sofrimento físico e psicológico com o povo suruwaha. Hakani finalmente foi resgatada por um de seus irmãos e levada até um casal de missionários, Márcia e Edson Susuki, que trabalhava com o povo suruwaha a mais de 20 anos. Comovidos com a história de vida da garota eles passaram a cuidar dela como se fosse sua própria filha. Para se ter uma idéia do estado deplorável em que a menina se encontrava, ela, com 5 anos de idade, pesava apenas 7 quilos e media 69 centímetros de estatura. Os missionários decidiram posteriormente pedir permissão para o governo para poder adotar Hakani e levá-la para a cidade. Recebendo carinho e tratamento adequado, dentro de pouco tempo Hakani voltou a falar e a andar e o inocente sorriso que havia sido perdido há tempos voltou a brotar do seu rosto.

Hakani: um exemplo de luta pela vida (Fonte: hakani)

Hakani com seus pais adotivos e com o diretor David Cunninghan (Fonte: Fotolog)

Atualmente Hakani, aos 14 anos, está morando em Brasília, cursando a quinta série do ensino fundamental, fazendo aulas de natação e curso de inglês. Além disso, ela continua fazendo terapia para se livrar dos traumas ocorridos no passado. Em 2008 esteve em Washington com seus pais adotivos, durante a exibição do documentário que leva o seu nome, e na época do documentário, teve um emocionado reencontro com o irmão que a salvou de ser enterrada viva. É com certeza um exemplo de luta pela sobrevivência em meio a uma sociedade subversiva.
O documentário em si merece algumas observações importantes. Apesar de parecer extremamente chocante (quem não viu pode conferir no youtube buscando Hakani nas pesquisas) com cenas da criança Hakani com terra na boca chorando e sendo enterrada viva, as cenas não são reais. Segundo a ATINI, os índios que aparecem no vídeo são sobreviventes do infanticídio nas comunidades indígenas e a criança sendo enterrada não é Hakani. A terra que cobre a criança é pó de chocolate para fazer bolo, e segundo o diretor norte-americano David Cunningham, criador do documentário, ninguém se machucou durante a produção do vídeo. Agora os relatos de sobreviventes e pais que tiveram seus filhos enterrados são reais e mostram um drama que a organização tenta combater junto a grupos indígenas que defendem o fim dos sacrifícios de crianças nas tribos brasileiras.


Hakani e seu irmão (Fonte: inovavox)
É nesse contexto que o embate entre antropólogos que defendem a prática do sacrifício de crianças se insere. Imaginemos um documentário na África, onde um filhote de elefante se encontra sozinho no meio da savana. Ele é surpreendido por um grupo de leoas que começam a atacá-lo. A pessoa que está ali gravando o documentário está acompanhada de habitantes da região, armados com pistolas de dardos tranquilizantes. Apesar de estarem comovidos com a situação do pobre elefantinho eles não fazem nada. Por quê? Por que eles não vão lá e tentam intervir antes que o pobre animal vire refeição de um covarde grupo de leoas famintas? Eis a questão, para eles aquilo faz parte da vida na savana, é a lei onde o mais forte sobrevive. Eles não se intrometem na ação das leoas porque aquilo era para ser assim mesmo, é a ordem natural das coisas. Essa é justamente a visão de alguns antropólogos em relação ao caso dos infanticídios nas tribos indígenas. Eles consideram os sacrifícios como algo natural na cultura indígena. É algo que achamos desprezível, mas não podemos intervir. É como no caso dos rituais de Toraja, onde o maciço sacrifício de animais parece algo sem propósito, mas para eles tem um sentido muito maior, um sentido divino. Inclusive grupos como o “International Survivor” criticam duramente a organização ATINI, por suas intervenções nas culturas indígenas, alegando que na verdade o único objetivo da organização é a destruição das tradições indígenas e conseqüentemente da identidade desse povo. É uma discussão bastante complexa que se desdobra em muitos casos onde extremismo cultural vive chamando a atenção da mídia internacional, como o drama recente de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma mulher iraniana que é acusada de adultério e foi condenada a execução, mediante protestos pipocando por várias partes do mundo.




Extremismo não tem religião (Fonte: revistaforum)

Para mim esses casos são condenáveis, mas é muito complexo se falar em mudanças na cultura de um povo, pois a proibição desses rituais, dessas posições religiosas e políticas, trazem à sociedade uma transformação considerável, mas assim como trás benefícios, trás também prejuízos que podem ser considerados maiores do que aqueles problemas primariamente questionados. Atrevo-me até a fazer uma citação a uma das obras mais conhecidas de Orwell: “A Revolução dos Bichos”, onde após o controle da fazenda pelos animais, as expectativas de melhoras naquela sociedade se diluíram, quando eles viram que o que era ruim acabou ficando ainda pior. Ou seja, uma mudança sempre vem acompanhada de fatores positivos e negativos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O mundo dos pesadelos

Eu estava sentado no sofá, na sala da minha antiga casa. Tinha mais ou menos uns 12 anos de idade quando isso aconteceu. Na minha frente tinha uma estante de madeira onde ficava a TV, o vídeo cassete e umas louças da minha mãe. Do lado direito tinha um quadro do Charles Chaplin na parede que sempre me pareceu bastante tenebroso. Ele mostrava um semblante ruim e me encarava o tempo todo. Num determinado momento ele saiu do quadro e começou a me perseguir. Saí da sala rapidamente e corri para o corredor que dava no quarto dos meus pais. Antes que pudesse alcançá-los, aquele Chaplin com olhar demoníaco me agarrou, aí acordei.

Uma representação artística do pesadelo (Foto: meninadeplantao)
Hoje em dia esse tipo de pesadelo me soa bastante tosco, mas na época em que o tive, me cagava de medo de voltar pra cama. Quem já não teve um sonho ruim onde você era perseguido, assombrado por monstros ou caía num precipício? Esses sonhos negativos geralmente concatenam memórias do passado e formam pequenas histórias onde você se situa de alguma maneira inusitada. São predominantemente perturbadores e costumam causar uma opressão torácica e dispnéica, seguidos de um despertar agitado e angustiante.


Sucubus e Incubus (Foto: abismodaobscuridao)

A origem da palavra pesadelo vem do inglês nightmare, onde o mare significa demônio noturno, de acordo com o inglês antigo. Essa palavra, por sua vez originou-se do germânico maron, que significa ‘duende, ser fantástico’. A palavra nigthmare, durante a idade média, fazia referência a um demônio conhecido como Incubus. Este ser era semelhante aos vampiros e tinha o hábito de invadir o quarto de mulheres durante a noite para deitar sobre seus corpos e forçá-las a fazerem sexo, sugando suas energias vitais. Os homens, por sua vez, eram atacados da mesma forma pela Sucubus, uma versão feminina do Incubus, e o resultado desses ataques variavam de um irresistível prazer a um grande pânico. Segundo a demonologia tanto um quanto o outro descende do mesmo demônio onde sua forma varia de acordo com o sexo da pessoa que ele ataca.
A importância que atribuímos aos pesadelos varia muito de cultura para cultura. Por exemplo, enquanto numa o pesadelo está relacionado a fenômenos espirituais ou sobrenaturais, para outra sua causa pode estar associada a distúrbios mentais ou físicos. No nosso caso, o pesadelo pode estar associado a pessoas, situações e acontecimentos que fizeram parte do nosso dia-a-dia. O estresse físico e mental proveniente de problemas que enfrentamos no nosso cotidiano pode ser um dos principais fatores de sonhos ruins.


O sonâmbulo Brian Thomas e Sua mulher Christine(Fonte: thisissouthwales)

Um caso ocorrido no final do ano passado chamou a atenção da mídia: o britânico Brian Thomas com histórico de sonambulismo, durante um pesadelo que teve, acabou estrangulando sua mulher Christine, de 57 anos, acidentalmente! Eles estavam passando suas férias em um acampamento no País de Gales, quando Thomas atacou sua mulher no meio da noite. Ao acordar e se dar conta do que fez ele imediatamente ligou para a emergência comunicando o que havia ocorrido e pedindo socorro. O sonâmbulo disse o seguinte à atendente do serviço de emergência: “Acho que matei minha mulher. Meu Deus... Achei que um ladrão tinha entrado. Eu estava brigando com ele, mas era a Christine. Eu devia estar sonhando. O que eu fiz?
O que eu fiz? Vocês podem mandar alguém aqui?”.
Mas já era tarde, pois Christine já havia falecido e, quando as autoridades chegaram no local, acharam Thomas tremendo, chorando e balbuciando: “Ela é tudo pra mim...”.
A gravação de sua conversa com a atendente do serviço de emergência foi utilizada em uma das audiências de seu julgamento, na cidade de Swansea. A promotoria não buscou sentenciá-lo por homicídio, mas por insanidade. Porém, essa insanidade não seria entendida num sentido literal, mas no sentido de que, por estar dormindo, ele não tinha o controle da situação.
Thomas sofria desse distúrbio desde os 9 anos de idade e um exame feito por um grupo de médicos confirmou que ele sofreu naquela noite de automatismo (distúrbio em que o subconsciente toma o controle do indivíduo). A promotoria queria encaixá-lo no caso de automatismo insano, sendo que na lei britânica existem duas hipóteses: a do automatismo insano e a do não insano. Entretanto, se Thomas for encaixado nessa pena, será submetido a um tratamento psiquiátrico em um hospital e ainda poderá ser preso por tempo indefinido. Por conta disso, seus advogados de defesa estão tentando mudar o veredicto para automatismo não-insano, para que o réu possa ser absolvido. Ele estava casado a 39 anos e tinha duas filhas. Esse foi o pesadelo vivido por Brian Thomas que saltou do subconsciente para a sua realidade, transformando sua vida num inferno. Apesar de ser um evento bastante inusitado, faz parte das características do sonâmbulo, fazer coisas que ele faria se estivesse acordado: andar, comer, urinar, realizar tarefas comuns e até sair de casa, tudo isso sem consciência e possibilidade de se comunicar com alguém.

(Fonte: pepita)
Contudo, diferente do caso de Thomas, onde ele foi dominado por seu pesadelo, podemos dominar nossos sonhos intranqüilos a partir do momento em que começamos a compreender o que representam todas aquelas mensagens entrelaçadas num sonho. Tudo o que se passa num pesadelo está relacionado à nossa insegurança quanto a alguma coisa vivida no nosso dia-a-dia. Se você está correndo o risco de perder o emprego, a sua angústia em relação a isso será um prato cheio para um pesadelo perturbador. Agora se você resolve enfrentar determinada situação isso pode contar a seu favor. Exemplo: se você sonha com assombração, antes de dormir pode mentalizar como você irá desafiar isso, mostrar o quanto isso não lhe atinge. No meu caso, sempre tive muitos pesadelos quando era pequeno, pois tinha medo de muitas coisas, entre elas o escuro. Quando passei a enfrentar meus medos no mundo real, as assombrações nos pesadelos passaram a diminuir proporcionalmente. Quando sonho com demônios ou coisas do tipo sou bastante indiferente a isso, chega a ser cômico. Há um tempo atrás sonhei que estava deitado na cama e vi um reflexo meu sair do espelho do guarda-roupa. O meu sósia veio flutuando e o rosto transfigurou-se numa face demoníaca e risonha que ficou me encarando. Meu coração bateu mais forte, mas, mesmo assim, meti a mão na cara dele e falei: sai daqui que eu quero dormir! Não passou dois segundos e eu acordei um pouco assustado, mas logo me deu vontade de rir da minha atitude inusitada e logo voltei a dormir novamente. Quando me tornei indiferente a sonhos desse tipo, eles acabaram. Porém, ainda tem um tipo de sonho que me incomoda, que é aquele que imita a vida real, ou seja, ao invés de sonhar com assombrações e entidades você sonha com um bandido ou com a morte de um ente querido. Esse tipo de sonho eu ainda estou bolando estratégias para superar, hehe.


Sonhos Tranquilos (Fonte: eutenhovctem)

Um estudo recente feito há alguns meses atrás mostrou que um grupo de cientistas tinha criado algumas formas de acabar com pesadelos. Uma que achei bastante interessante, apesar de não ter testado, é a de você deixar um papel e uma caneta do lado da cama. Quando você tiver um pesadelo, ao acordar espere uns 2 minutos para o cérebro organizar a base da história do pesadelo, aí você escreve em detalhes tudo o que aconteceu, entretanto, o final do sonho deverá ser reescrito com um final onde tudo acaba bem, ou seja, o pesadelo será transformado num sonho bom. Esse exercício mental ao ser executado com freqüência, segundo as pesquisas, fará com que os pesadelos diminuam gradualmente até que se extingam com o tempo. Quem quiser tentar me fala depois se deu certo, hehehe.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma opinião sobre a violência

Antes de ir trabalhar estava eu em casa esparramado no sofá, ao lado do meu pai, vendo um daqueles noticiários policiais, onde não existe uma informação que se aproveite, e observei a seguinte manchete: um grupo de torcedores de um determinado time espancou um outro torcedor de um time rival até a morte. As cenas eram chocantes: o vídeo mostrava um jovem já caído no chão enquanto chegava outro com uma barra de ferro e o atingia várias vezes na cabeça antes de sair correndo. Em seguida outros homens chegavam batendo na vítima com placas, pedaços de pau, bicudos na cabeça, e o jovem caído há muito tempo já não reagia mais, pois já tinha morrido.


Torcida organizada (Fonte: abril)

O que choca mais é a motivação que leva um indivíduo a cometer tal barbárie. Considerando que esses torcedores são meros expectadores de uma partida de um esporte popular em sua cultura, o fanatismo que eles mantém pelo símbolo que o time para o qual eles torcem representa é tamanho, que uma maneira de demonstrar o poder do seu grupo é subjugando um outro grupo, o qual eles consideram seu rival. E isso funciona melhor num contexto de grupo que num contexto individual. Por exemplo: uma pessoa presencia um estranho cair desajeitadamente de uma escada. A primeira reação é imaginar se o sujeito se machucou ou não, ou ainda prestar alguma assistência à pessoa que se desequilibrou da escada. Agora se na mesma situação, no local do observador estiver um outro grupo de observadores que, ao verem o estranho cair, começarem a rir e fazer chacota do sujeito desastrado é possível que o observador da primeira situação seja levado a participar daquela euforia, esquecendo conseqüentemente do fato do sujeito que caiu da escada poder ter se machucado pra valer.


O que pode parecer engraçado para alguns não o é para outros (Fonte: mundomisturado)

O ser humano é um sujeito influenciável por natureza, tanto que, as pessoas que o acompanham durante a sua vida é que vão determinar que tipo de sujeito ele será no futuro. Se o jovem é agredido constantemente pelos pais, é possível que este faça o mesmo com seus filhos ou parceira. Se ele é constantemente humilhado na escola pelos colegas, é possível que se torne um adulto retraído e traumatizado. Assim vivemos numa utopia onde a violência não deixa de existir porque pessoas não deixam de sofrê-la e fazer sofrer. Os valores familiares se diluíram com o avanço da modernidade, com a liberdade que os jovens possuem para fazerem o que bem entenderem, com o acesso irrestrito a todo tipo de informação, desde aquelas associadas à pornografia até os extremos casos de violência, que chegam até nossa família pelos diversos meios de comunicação existente, em especial a mídia sensacionalista, que assim como o seu governo está mais preocupada com o lucro do que a educação de seus jovens.

Fonte: bengochea
Quando colocamos o caso do torcedor que foi espancado até a morte considerando o jovem morto como a vítima, esquecemos que na verdade todos são vítimas dos meios que os formam, pois se invertêssemos o caso e o jovem morto, junto com o seu grupo tivesse a oportunidade de espancar algum torcedor do time rival, quem garante que ele não o faria? Diferente dos cinemas, na vida real não existem bandidos e mocinhos, já que cada um mantém dentro de si um pouquinho de bandido e de mocinho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O ritual macabro de Toraja

Funeral (Foto: betzyapoderosa)
Quando perdemos um ente querido, além de nos causar muito pesar, sentimos a obrigação de lhe prestar uma última homenagem, uma despedida digna desse plano para um outro. Essa homenagem vem em forma de uma cerimônia religiosa que conhecemos como funeral, onde se reúnem parentes e conhecidos para fazerem discursos de despedida, rezarem ou orarem (dependendo da religião) e darem um último adeus. Porém, em algumas culturas, esse ritual é bem mais complexo e envolve muitas simbologias e crenças que não compreendemos direito o propósito. Existe um lugar onde a maneira de prestar homenagem ao morto é provocando várias outras mortes (de animais no caso)! Será que existem limites para o que nos parece incompreensível ou o problema está em nossa percepção diante dos fatos?


Tana Toraja (Foto: adventures-travel-tales-and-tips)

Tana Toraja é uma pequena região localizada na parte central de Sulawesi, na Indonésia, a maior ilha do arquipélago. É conhecida por seus rituais funerários excêntricos e suas casas típicas com telhados em forma de chifres. Apesar de serem convertidos ao cristianismo, eles ainda mantêm fortes raízes da religião animista. Esta, por sua vez se fundamenta no cosmocentro, no antropocentro e no teocentro e tem como regra os seguintes preceitos: tudo no Cosmo tem ânima; todo o ânima é transferível; e tudo que transfere ânima não perde a totalidade de seu ânima, mas quem ou quê o recebe perde parte ou a totalidade de seu ânima, o qual será tomado pelo ânima doador.
Os moradores locais acreditam que quando um ente querido morre, este é levado ao céu para ser julgado pelos atos cometidos, logo, o resultado desse julgamento é mensurado de acordo com o seu comportamento em vida. Outro fator primordial seria a quantidade de espíritos de animais que levam o espírito do falecido até o céu. E como seria possível a alma viajar para outro plano com uma porção de almas de animais? Simples: através de muuitos sacrifícios de animais!


Funeral em Toraja (Foto: e-farsas)

Essa é uma das principais características dos fúnebres funerais de Toraja. Diferente de outras regiões do mundo onde o funeral se resume ao sepultamento do morto diante de entes queridos, lá em Toraja os funerais só podem ser realizados depois que a família do falecido arrecadar muitos recursos para bancar toda a cerimônia. Para se ter uma idéia, é necessário construir uma vila completa para abrigar uma multidão de convidados durante o período de uma semana, após isso a vila é desmanchada. Além disso, a família precisará desembolsar muito dinheiro com animais para serem sacrificados (e não são poucos). Um búfalo de água, que é o animal mais comumente sacrificado em tal ritual, por ser também o mais valioso e ser comum de encontrar nas planícies da região, custa cerca de 40 milhões de rúpias (pouco mais de 3.000 dólares) e um porco 3 milhões de rúpias (aproximadamente 250 dólares). Não é raro num único evento desse serem sacrificados mais de 50 porcos, além de diversos búfalos. Por essa razão, muitas famílias mantêm em suas propriedades o corpo do ente querido mumificado, enquanto obtêm dinheiro suficiente para bancar toda a cerimônia (um processo que pode durar mais de 5 anos, dependendo da situação dos envolvidos).


Porcos prontos para o abate (Foto: basilico)

Búfalos sacrificados (Fotos: basilico)

O primeiro dia do funeral começa com o abate dos búfalos. Quanto maior for a importância do falecido, maior é a quantidade de búfalos a serem sacrificados. No dia seguinte, os convidados chegam, geralmente, trazendo os porcos para o sacrifício. Por fim, no último dia acontece, de fato, o funeral do defunto. Enquanto convidados se amontoam em cabanas de bambu, onde lhes são servidos chás e biscoitos, eles presenciam com bastante naturalidade búfalos e outros animais serem esfolados vivos e o sangue se espalhando pelo chão, com direito a crianças brincando inocentemente com o sangue e os restos de órgãos de animais mortos! Logo após isso, eles podem ir para outra cabana onde é possível presenciar os porcos serem sacrificados com uma punhalada no coração, estremecendo de dor até desmaiarem, e, em seguida, terem seus órgãos retirados diante da multidão curiosa.


Cabeças de búfalos expostas para os convidados do funeral (Foto: adventures-travel-tales-and-tips)

Depois do funeral, partes das carnes dos animais sacrificados são oferecidas aos convidados que podem levar para a casa para consumir posteriormente e caso essa distribuição não ocorra, a família pode ser mal vista pelos demais moradores da região. Assim, a conclusão do funeral se dá em outro dia, com caixão do falecido sendo levado para uma igreja para outro ritual, esse de natureza católica, pois como tinha sido dito no início deste artigo, eles são cristãos. Nessa parte do evento é muito comum os convidados tirarem fotos, pois seria um sinal de que o falecido ainda faria parte da comunidade. Subsequentemente o caixão segue em procissão até o local do enterro, ao som de gargalhadas e aplausos, para espantar os maus espíritos e, chegando no local, um grupo de atrizes se deitam sobre o caixão chorando, para incentivar a alegria a se tornar tristeza (umas chegam até a simular um desmaio), trazendo de volta o tom sério do ritual para um último adeus. Em seguida, o caixão é colocado numa sepultura cheia de outras caixões devido à falta de espaço, dando-se por encerrada toda a cerimônia de despedida do ente querido falecido. E há de se lembrar ainda que existem outras formas de sepultamento que variam de acordo com a classe social do indivíduo.


Procissão dos convidados até o local de sepultamento do falecido (Foto: adventures-travel-tales-and-tips)
A gente pode notar através desse evento que nos parece asqueroso como as nossas concepções variam de cultura para cultura. A morte, por exemplo, chega até nós como uma punhalada no coração, algo que nos choca e nos traz sentimentos negativos como tristeza e depressão. Confesso que fico extremamente perturbado em presenciar mortes de animais, pois me causam um incômodo muito grande que não sei explicar. Quando constato que em culturas como as de Toraja as pessoas crescem no meio de uma carnificina animal que celebram a morte de um indivíduo em meio a muita dança, festa e euforia, fico pensando se o erro está em julgar o que nos parece diferente, como acontece em diversas outras manifestações de preconceito. Se a gente nasce e cresce no meio de tais costumes, é inegável que aquilo para nós será completamente normal e aceitável. Então, por mais bizarro que pareça alguns costumes de outros povos, temos que lembrar que para eles fazemos coisas que são tão bizarras quanto sacrificar animais em um funeral.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Lamento das árvores e as manifestações divinas

É incrível como tudo aquilo que parece não ter explicação pode ser taxado como um milagre divino, como oportunidade de buscar curas e outros tipos de bênçãos. Há uma época atrás borbulhavam casos de imagens santas que, alegavam algumas pessoas, apareciam numa porta, numa janela, num jardim e até em papel higiênico. Tais imagens reuniam uma procissão de curiosos que faziam fila para rezar e pedir bênçãos entre outras coisas. Se uma mancha que parece Maria realmente faz milagre, não posso afirmar ao certo, mas o poder da fé que as pessoas tem nisso eu creio que é a responsável pelos mais diversificados milagres já relatados pelos crédulos que atribuem tal maravilha.


Um exemplo do fenômeno no Vale do Jaguaribe (Foto: planetavale)
            
Diante desse contexto podemos dar início ao tema desse artigo com a seguinte história: Numa quente manhã de Mossoró, Rio Grande do Norte, uma jovem senhora passeava com seu bebê quando parou em frente a uma árvore algarobeira quando percebeu um fenômeno estranho: a árvore transpirava abundantemente e diversos pingos afloravam dos seus galhos dando a impressão de que fossem lágrimas que escorriam fartamente de um triste vegetal. Além disso, havia traços de neve em várias partes da árvore, o que soa bizarro, levando em conta que não chovia há dias na região. Na verdade trata-se de uma espécie de espuma que brota dos galhos e se torna água límpida e passar a precipitar no solo ao redor da árvore. Impressionada com o que havia presenciado, a jovem senhora correu para contar aos demais cidadãos da cidade sobre a ‘árvore milagrosa’! Dentro de pouco tempo centenas de pessoas se aglomeravam no local se benzendo, levantando as mãos para o céu e buscando respingos das milagrosas lágrimas que só poderiam ser uma obra de Deus.



Estranha formação de flocos de neve nos galhos (Foto: planetavale)
O caso das árvores que choram não é um fato isolado em Mossoró e é um fenômeno bastante relatado em diversas partes do mundo. Só no Brasil, existem vários registros de ‘árvores tristonhas’ que passam o tempo chorando. Em Botafogo, no Rio de Janeiro, uma árvore choramingante reuniu uma multidão de pessoas que faziam peregrinações até o local, pedindo proteção, se benzendo com a água e até tomando dela literalmente, crente de que isso as beneficiarão de alguma forma. Este caso, assim como o primeiro, já chegou aos ouvidos da mídia, que apresentou ambas as histórias como um mistério sem explicação.
No caso do Rio, a situação, apesar de já ter sido solucionada pela CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) que alegou que havia próximo a árvore um cano rompido, muitos continuam a acreditar que a árvore chora sim, graças a um milagre de Deus! Mas será que os outros casos se explicam também pelo fato de haver um cano furado no local?

Cartoon de árvores que choram (Foto: ceticismo)
Moradores de Coelho Neto, no Maranhão, se dirigiram a uma árvore que chorava, munidos de baldes, bacias e garrafas para levar um pouco da água que alguns alegam ser benta. Alguns chegam a ficar horas debaixo da árvore e outros, pasmem, chegam a dormir debaixo delas, para receber uma chuva de bênçãos! Mas o que fazem essas pessoas terem tanta fé num fenômeno em que cientistas já descartaram a hipótese de ser sobrenatural? Talvez pelo contexto em que vivem. Um contexto de miséria, pobreza, fome e desamparo. É o padrão de vida de muitos brasileiros que vivem sem segurança, saúde, educação e emprego digno e são simplesmente esquecidos pelo governo que, em tempos de eleição, prometem o que não tem condições e nem disposição para oferecer ao povo. Este, por sua vez, recorre à ajuda espiritual, e busca em tudo a presença de Deus para lhe confortar de alguma forma.

Gutação (Foto: amigodasciencias)
Mas e os cientistas? O que dizem a respeito das árvores que choram? A explicação mais recorrente está num fenômeno conhecido como gutação, que é a eliminação de água em estado líquido pelas folhas das árvores. Ela ocorre quando a transpiração é lenta ou simplesmente ausente e a planta necessitando eliminar esse líquido do corpo a faz mediante a gutação, aproveitando a temperatura geralmente baixa (isso não é regra) e a umidade relativamente alta da atmosfera e do solo para eliminar a água em forma líquida (naturalmente uma planta elimina a água em forma de vapor).
Tal explicação se encaixa em boa parte dos relatos de árvores milagrosas e não podemos deixar de considerar outras inusitadas possibilidades como a de um cano furado, próximo ao vegetal, ou mesmo a de que realmente as gotas que precipitam das árvores sejam um milagre divino, afinal de contas, se dizem que a fé move montanhas, fazer uma árvore chorar então é bem mais simples do que parece.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Um Popeye da vida real

Um certo sujeito conhecido como Frank Rocky Feigle vivia em Chester Illinois e tinha algumas características peculiares: era baixinho, andava com um dos olhos meio fechados, fumava um cachimbo e gostava de inventar histórias onde ele protagonizava diversas aventuras, se gabando sempre de sua força física e de não ter perco nenhuma de suas brigas. Trabalhava num bar local fazendo sua limpeza e nos tempos livres se dedicava a contar causos de suas proezas aos visitantes. Um desses visitantes, fascinado por suas histórias, era um jovem garotinho que atendia pelo nome de Elzie Crisler Segar e viria mais tarde a se tornar um cartunista mundialmente famoso pela criação de um certo marinheiro Popeye em 1929.


Popeye (Foto: seriesedesenhos)

O carismático marinheiro estava sempre tentando proteger sua amada Olívia Palito das mãos do grandalhão Brutus e apesar de ser baixinho e magrelo, tinha braços grossos e era muito forte e, ao comer espinafre, sua força aumentava exponencialmente.
Na vida real um jovem competidor de torneios de queda de braço ficou conhecido como o “Popeye da vida real” por manter uma característica semelhante a do personagem: braços grandes e desproporcionais em relação ao corpo. Na verdade apenas o braço direito é grande, o outro é normal, o que o torna bem mais incomum.

Mathias Schlitte (Foto: dosediaria)
Mathias Schlitte nasceu em 1987, em Haldensleben, Alemanha, e desde pequeno apresentou um braço bem mais robusto que o outro, proveniente de algum distúrbio genético. Ao invés de ficar se queixando de não ter nascido como os outros jovens sem problema algum, ele resolveu usar o seu diferencial a favor de si. Aos 16 anos de idade começou a praticar queda de braço, e desde então passou a desenvolver apenas os músculos do braço maior, com o objetivo de se profissionalizar nessa modalidade de esporte. Em 2004, devido à falta de experiência, entrou na categoria amadora de queda de braço, numa turma onde o peso dos competidores, em média, era de 95kg, apesar de Mathias pesar na época apenas 65kg.


Suas habilidades despertaram o interesse de Bill Frank, vice-campeão mundial de queda de braço, que decidiu treinar o jovem para que ele pudesse competir profissionalmente. Mathias passou então a integrar o VfL Wolfsburg, do qual Frank era técnico assistente. Após um ano de treino o jovem ‘Popeye’ participaria do campeonato alemão de queda de braço em Hanau, onde, já com 70kg, adquiriu seu primeiro título e já poderia dar um passo à frente, que seria integrar o time alemão de queda de braço.


Schlitte em torneio de queda de braço (Foto: ourkitchensink)

Quando completou 18 anos, Mathias passou a integrar a classe Sênior e expandiu seus horizontes já podendo vislumbrar competições a nível mundial. Em 2006 venceu seu primeiro torneio internacional, porém não se deu bem no primeiro campeonato mundial de queda de braço, onde participaram cerca de 1000 atletas de 40 países diferentes, e não chegou às finais da competição.
Atualmente integra a ‘Liga Nacional de Queda de Braço’ e treina diariamente para um dia chegar ao pódio como o número 1 no esporte.

Schlitte em programa de TV (Foto: yousaytoo)
É interessante notar que nesse tipo de esporte não é incomum os atletas desenvolverem apenas o braço que usarão em competições, tendo visualmente uma aparência desproporcional. Mathias apenas união o útil ao agradável e transformou um defeito na oportunidade de ser reconhecido mundialmente, vencendo todas as barreiras impostas pela sociedade.

domingo, 28 de novembro de 2010

Dançando até morrer

A dança, assim como o teatro e a música é uma das principais formas de expressão artística. Ela está presente em praticamente todas as culturas tanto na forma de uma descompromissada diversão quanto na forma de um complemento de alguma importante cerimônia ou ritual. Danças folclóricas, cênicas, religiosas, sociais, eróticas... Todas elas têm uma característica comum: são saudáveis ao indivíduo que as executam, seja no aspecto físico-mental, seja no aspecto social. Então quando é que uma dança qualquer poderia ser prejudicial ao dançarino? Ou prejudicial a ponto de matar o sujeito? Seria possível? E se ao invés de matar um sujeito, matasse centenas?

Pessoas dançam incessantemente em uma viela de Estrasburgo (Fonte: globo)
Uma certa vez, em julho de 1518, a cidade francesa de Estrasburgo na região da Alsácia foi palco de um estranho e infeliz incidente envolvendo a dança. Uma mulher conhecida como Frau Troffea resolveu começar a dançar fervorosamente em uma rua de Estrasburgo. Enquanto dançava, pessoas que estavam próximas e presenciaram o inusitado comportamento da mulher passaram a acompanhá-la na euforia. Debaixo de um sol de verão a dança de Troffea durou de 4 a 6 dias seguidos sem tempo para descanso. Em uma semana uns 30 cidadãos estavam na rua dançando sem parar e após um mês esse número disparou para 400 pessoas. O resultado disso foi trágico, pois a maioria dos envolvidos morreu seja de ataque cardíaco, derrame cerebral, exaustão, ou mesmo desidratação e outros problemas provenientes do calor que fazia na época. Quem esteve presente na ocasião relatou que muitos dos envolvidos queriam parar de dançar, mas não conseguiam, permanecendo dia e noite bailando pelas ruas sem descanso. Como se estivesse em um bloco carnavalesco.
A história por mais bizarra que pareça pode ser confirmada através do historiador John Waller que, quase 500 anos depois, lançou um livro sobre o episódio que reunia registros históricos sobre a dança mortal como sermões, anotações de médicos, crônicas locais e atas do conselho da cidade onde ocorreu o caso.


A dança da morte (Foto: uarevaa)

Waller acredita que o fenômeno ocorrido em Estrasburgo pode ser explicado pelo contexto de miséria em que vivia a população local naquela época. Ele afirma que o contexto que antecedia o bizarro evento era de miséria e fome, resultante dos prejuízos advindos das colheitas improdutivas e do excesso de mendicância da região. Segundo Waller, esse era o palco ideal para os mais diversos tipos de superstições. Entre elas a que São Vito (protetor dos artistas, das doenças nervosas e dos dependentes de drogas) poderia enviar sobre pecadores que causassem sua ira uma praga de dança compulsiva. A crença em tais superstições poderiam ter desencadeado uma histeria coletiva acompanhada de um estresse psicológico intolerável. A essa categoria de histeria coletiva dá-se o nome de “enfermidade psicogênica de massa”, que surge em conseqüência do efeito Nocebo (oposto do efeito placebo), ou seja, em vez de pensamentos positivos ou associações que produzam um efeito benéfico, as pessoas desencadeiam pensamentos e associações ruins que resultam em efeitos negativos. Por exemplo, um sujeito pode entrar em desespero ao ser picado por uma cobra e a crença de que possa ser morto pelo veneno da cobra é tão forte que a saúde dele é prejudicada mesmo quando a cobra que o picou não é de fato peçonhenta.

Mulheres acometidas pela praga da dança (Foto: inconscientecoletivo)
Outra teoria atribuída à ‘praga da dança’ é a do ergotismo, ou envenenamento por Ergot. Eugene Backman, em seu livro “Religious Dances in the Christian Church and in Popular Medicine” argumentou que as pessoas envolvidas no caso poderiam ter ingerido um fungo contaminante comum do centeio e outros cereais. Tal fungo ataca o sistema nervoso central, causando confusão mental seguida de depressão, hipertensão, bradicardia, vasoespasmos, cianose periférica (mãos e pés pálidos) com claudiocação, podendo ainda levar ao coma e a morte. Entretanto, Waller contesta essa posição afirmando que o fungo poderia causar convulsões e alucinações, mas não poderiam causar movimentos coordenados por vários dias. Além disso, relatos alegam que as pessoas não queriam dançar, de fato, pois apresentavam em suas faces medo e desespero.
Além dessas teorias, outras surgiram posteriormente, com menos impacto, como a do sociólogo Robert Bartholomew, que acreditava que as pessoas envolvidas na dança estariam cumprindo um ritual herético (relacionado à heresia).
Após esse incidente houve ainda registros de mais 6 surtos semelhantes a esse, sendo que o último ocorreu em Madagascar, em 1840. Os demais teriam ocorrido em diferentes localidades da Bélgica.
 No fim das contas, uma solução definitiva para o caso ainda não existe e este permanece como mais um mistério que confunde historiadores e estudiosos do caso.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Previsão do tempo de hoje: Chuva de animais!

Imagine você estar caminhando tranqüilamente pela rua num tempo nublado e ser surpreendido por uma chuva de peixes ou uma chuva de pássaros! Parece absurdo não é? Mas existem registros oficiais, e outros não tão oficiais, de tais acontecimentos, inclusive um registro recente de chuva de peixes na Austrália.


Chuva de peixes (Foto: asaber)

Em março deste ano, segundo o jornal Telegraph.co.uk, moradores da cidade de Lajamanu, localizada no norte australiano foram atingidos por uma chuva de peixes. De acordo com os habitantes da região centenas de peixes brancos caíram de um céu repleto de nuvens de chuva densas, e dentre os peixes alguns ainda vivos. E o mais curioso, essa seria a terceira vez, em 30 anos, que tal evento ocorre! É mole?
A chuva de animais é tema de diversos relatos divulgados ao longo da história, por mais que pareça ser um tema obscuro. Acredita-se que o primeiro registro de tal evento se deu no antigo Egito, através do papiro de Alberto Tulli, um antigo diretor do museu egípcio do Vaticano. Este teria restaurado tal documento, mas em virtude de seu falecimento, jamais chegou a traduzir e nem a publicar tais informações, até que, posteriormente, o papiro foi encontrado junto com outros documentos de Tulli pelo príncipe Bóris de Rauchewitz, que enviou o papiro à Tiffany Thayer, presidente da Sociedade dos Amigos de Charles Fort (um colecionador de fenômenos anômalos, precursor do fortianismo). Por fim, Thayer transcreveu o papiro e, em parte dessa transcrição, foi registrado o seguinte:

“...Poderosa era a posição das bolas de fogo. A armada do rei as observava e o rei encontrava-se no meio dela . Era após a refeição da noite. Sobre esta, elas ( as bolas de fogo ) se elevaram mais alto em direção sul. Peixes e voláteis caíram do céu. Era uma maravilha jamais vista desde a fundação do país! Ela pediu à Sua Majestade que usasse incenso para apaziguar a Terra ( ...não transcrito...) Para escrever ?) o que chegou no livro da Casa da Vida (...não transcrito...) a fim que se guarde a lembrança?) na Eternidade".

O texto completo relata o surgimento de bolas de fogo no céu (que muitos acreditam que sejam OVNIS) e fenômenos estranhos como a citada chuva de peixes. Porém, é bom lembrar que, nem mesmo a existência de Tulli foi comprovada e Charles Fort era conhecido por colecionar histórias fantásticas, das quais ele nem sempre tinha uma explicação lógica, procurando por muitas vezes confundir os cientistas ao invés de esclarecê-los.
Algumas referências antigas a respeito de chuvas bizarras podem ser encontradas na bíblia e em outras fontes antigas. No livro de Josué, por exemplo, o exército liderado por ele foi auxiliado por uma chuva de pedras que caiu do céu sobre o exército amorita. Na Grécia antiga o escritor Ateneu registrou uma chuva de peixes que durou cerca de 3 dias na região de Queronea, no Peloponeso. Posteriormente, Plínio, o Velho descreveu uma chuva de pedaços de carne, sangue e outras partes de animais como rãs, e na Idade Média, o fenômeno era citado com tanta freqüência que muitos imaginavam que os peixes nasciam no céu e depois caíam no mar.


Chuva de sangue (Foto: canseidesercowboy)

Ao longo da história mais e mais relatos foram surgindo, desde a chuva de ratos amarelos em Bergen, na Noruega, em 1578, até uma chuva de sangue, registrado na Índia no ano passado, onde alegam que o material da chuva havia sido analisado e constatado que era de fato sangue mesmo. Até mesmo no Brasil, existe um relato sobre uma chuva de sangue e pedaços de carne que havia acometido São Paulo em 1968. No site do wikipedia existe uma boa relação dos principais casos de chuvas incomuns que ocorreram até os dias de hoje.
Boa parte dos cientistas não dá crédito a esses fenômenos e acreditam que os relatos sejam falsos, até porque na maior parte dos casos, não existiram provas concretas, e algumas histórias soam um tanto quanto sem fundamento. Tomemos como exemplo a chuva de pedaços de carne: será que no dia desse evento ninguém teve curiosidade de recolher amostras dessas carnes que supostamente caíram do céu, a fim de que análises pudessem esclarecer a origem desse material orgânico? Pertenciam a algum animal? Veio de outro planeta? É humano? As respostas ficam apenas no campo das especulações.

Chuva de peixes em Singapura em 1861 (Foto: insoonia)
Entretanto o caso de Lajamanu foi registrado e analisado por especialistas que chegaram à seguinte conclusão: os peixes foram sugados por uma forte tempestade, elevados a mais ou menos 15 metros de altura e logo em seguida precipitou-se sobre a pequena cidade, como se realmente tivessem surgido do céu. A propósito, a explicação do fenômeno mais aceita até então é a das trombas marinhas, espécie de tornados que se formam na água através de acumulação do vento. Essas trombas podem ser tão fortes a ponto de secar um lago completamente e fazer com que a água seja precipitada em um local bem mais afastado. Essa mesma tromba marinha poderia facilmente carregar animais de pequeno porte ou algum tipo de objeto como pedra e arremessá-los do céu, fazendo com que se pareça que realmente chove bichos e outras bizarrices do céu.
Por mais convincente que seja esta hipótese ela não explica o fato das trombas carregarem apenas uma espécie de animal, pois na prática, uma chuva de peixes viria acompanhada de outras espécies presentes na fauna local, inclusive, espécies de plantas e algas, e isso não acontece.
E o que dizer da chuva de sangue? Existe um caso particular muito interessante: na década de 60, no sul da Inglaterra, a região foi surpreendida por uma chuva vermelha que tingiu tudo o que viu pela frente. Muitos acreditavam que se tratava de sangue, mas uma análise mais apurada revelou que as nuvens estavam misturadas a grãos de areia proveniente de tempestades de areia no Saara. Logo essas nuvens misturadas com areia se deslocaram até a Inglaterra onde ocorreu a misteriosa chuva vermelha.

Chuva de animais (Foto: druidadocerrado)
No fim, constatamos que, entre muitas especulações, existem sim casos verídicos de chuvas anômalas que podem ser explicadas cientificamente, e por que não religiosamente? Muitos atribuem esses fenômenos ao fim dos tempos, a intervenções divinas ou mesmo ao sobrenatural. Cabe a cada um julgar se essas informações procedem ou não.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

As Sete Trombetas no mundo Contemporâneo (Segunda Parte)

Anteriormente fiz algumas considerações sobre os profetas e suas previsões e mergulhei na previsão mais popular que existe: a do fim do mundo. Do ponto de visto bíblico, o Apocalipse faz um relato detalhado de como serão os últimos dias do homem na Terra. Porém, como já foi dito antes, este livro é carregado de simbologias, logo não há como definir uma interpretação definitiva para tal, sendo que cada um deve apresentar aquilo que pensa a respeito e levantar uma discussão saudável, respeitando as mais diversas opiniões.
Na primeira parte desse artigo foi traçado um paralelo entre as 4 primeiras trombetas e a possibilidade de elas se concretizarem no mundo contemporâneo. Há de se constatar, que fazer tal analogia soa um tanto quanto inadequado, se pensarmos que ao fazer isto estou ignorando todo um contexto que existe por trás dessa passagem bíblica, que seria necessário para uma interpretação mais substancial do tema. Então quero rapidamente falar um pouco a respeito do contexto onde se encaixam as Sete Trombetas.

7 Anjos, 7 Trombetas (Foto: escoladominical)

As Sete Trombetas fazem parte de uma trilogia de julgamentos de Deus de proporções gradualmente devastadoras. A trilogia é formada pelos 7 selos, as 7 trombetas e as 7 taças.
Os 4 primeiros selos são conhecidos também como os 4 cavaleiros do apocalipse: Conquista (ou anti-Cristo), Guerra, Fome e Morte. O quinto selo se refere aos martirizados por sua fé em Cristo e o sexto selo, quando quebrado trará terremotos e fenômenos astronômicos incomuns (UFOs, alguém?) . Por último, o sétimo selo tem em seu conteúdo as Sete Trombetas.

Os 4 cavaleiros do Apocalipse (Foto: jonatanconceicao)

Entre os sete selos e as sete trombetas há um detalhe a ser considerado: os selo representam martírios que todos os homens terão que passar, inclusive os futuros escolhidos, já as trombetas trarão martírios mais pesados que somente os ímpios serão acometidos. Nesse meio tempo, o povo de Deus será marcado com um selo e estes serão poupados das pragas que estão por vir. O contexto da quinta trombeta afirma isso:

Capítulo 9, Versículo 4: "...e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte"

Peraí, a quem foi dito que não causasse dano aos escolhidos de Deus? Pois bem, vamos a eles:

5ª Trombeta
Capítulo 9, Versículos 1-11: E o quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caiu na terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo.
E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha, e com a fumaça do poço escureceu-se o sol e o ar.
E da fumaça vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra.
E foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm nas suas testas o sinal de Deus.
E foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem; e o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem.
E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles.
E o parecer dos gafanhotos era semelhante ao de cavalos aparelhados para a guerra; e sobre as suas cabeças havia umas como coroas semelhantes ao ouro; e os seus rostos eram como rostos de homens.
E tinham cabelos como cabelos de mulheres, e os seus dentes eram como de leões.
E tinham couraças como couraças de ferro; e o ruído das suas asas era como o ruído de carros, quando muitos cavalos correm ao combate.
E tinham caudas semelhantes às dos escorpiões, e aguilhões nas suas caudas; e o seu poder era para danificar os homens por cinco meses.
E tinham sobre si rei, o anjo do abismo; em hebreu era o seu nome Abadom, e em grego Apoliom.
Na primeira parte do artigo falei que as 4 primeiras trombetas tinham um significado mais físico e as 3 últimas um significado mais espiritual. Aqui vemos mais claramente essa diferença. A estrela que cai do céu não pode ser considerado um ser inanimado, pois ela recebe uma chave que abre o poço do abismo. Dá para concluir a partir disto que a tal estrela seria Satanás e o poço do abismo o inferno. Satanás então abriria as portas do inferno e do chão surgiriam os demônios, representados simbolicamente pelos estranhos gafanhotos descritos nessa passagem. Considerando que os demônios estariam livres para circular pela Terra, teriam liberdade para se incorporarem nas pessoas e desencadear coisas que vemos acontecer com muita freqüência, pais voltando contra filhos, filhos contra pais, violência, bizarrices sexuais ou religiosas e por aí vai. Abadom, também seria uma representação do diabo liderando o seu exército livremente na Terra, ou mesmo a representação de um poderoso chefe político com ideais destrutivos.

Guerras: uma pista revelada na sexta trombeta (Foto: limaocom-acucar)
6ª Trombeta

Capítulo 9, Versículos 13-18: E tocou o sexto anjo a sua trombeta, e ouvi uma voz que vinha das quatro pontas do altar de ouro, que estava diante de Deus,
A qual dizia ao sexto anjo, que tinha a trombeta: Solta os quatro anjos, que estão presos junto ao grande rio Eufrates.
E foram soltos os quatro anjos, que estavam preparados para a hora, e dia, e mês, e ano, a fim de matarem a terça parte dos homens.
E o número dos exércitos dos cavaleiros era de duzentos milhões; e ouvi o número deles.
E assim vi os cavalos nesta visão; e os que sobre eles cavalgavam tinham couraças de fogo, e de jacinto, e de enxofre; e as cabeças dos cavalos eram como cabeças de leões; e de suas bocas saía fogo e fumaça e enxofre.
Por estes três foi morta a terça parte dos homens, isto é pelo fogo, pela fumaça, e pelo enxofre, que saíam das suas bocas.
Esta trombeta representa o massacre de um terço da humanidade, por um exército liderado por 4 anjos. Dá para arriscar dizer que algo semelhante poderia acontecer numa 3ª guerra mundial, onde estivessem envolvida as 4 principais potências no mundo atual. Eu chutaria Estados Unidos, China, Rússia e Japão. Entretanto Irã e Coréia do Norte são fortes candidatos a dar um pontapé inicial nessa possibilidade. Espiritualmente falando, este exército de espíritos encarnariam em cada homem provocando o desejo de se matarem num conflito de grandes proporções.
A última trombeta anuncia a guerra do bem contra o mal (Foto: previnasedamarca)
7ª Trombeta

Capítulo 11, Versículos 15 : E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre.
A passagem da sétima trombeta faz um relato simbólico entre a luta do bem e do mal com a vitória de Deus. Não quis colar aqui porque é muito comprido, mas a quem interessar, a partir do versículo 15 em diante. A sétima trombeta evoca os sete anjos com as sete taças da ira de Deus. As taças fazem parte do terceiro julgamento da trilogia de julgamentos de Deus. A primeira taça causa feridas muito dolorosas que aparecem na humanidade (Apocalipse 16:2). A segunda taça resulta na morte de todo ser vivente no mar (Apocalipse 16:3). A terceira taça causa os rios a se tornarem sangue (Apocalipse 16:4-7). A quarta das sete taças resulta no calor do sol sendo intensificado e causando grande dor (Apocalipse 16:8-9). A quinta das sete taças causa grande escuridão e uma intensificação das feridas da primeira taça (Apocalipse 16:10-11). A sexta taça resulta no rio Eufrates secando completamente e os exércitos do anticristo se juntando para lutar a batalha do Armagedom (Apocalipse 16:12-14). A sétima taça resulta em um terremoto devastador seguido de pedras de granizo gigantes (Apocalipse 16:15-21). Notem que o conteúdo das sete taças é praticamente idêntico ao das sete trombetas. Muitos estudiosos acreditam que a diferença entre elas é temporal, ou seja uma se refere a fatos do passado e outra a fatos do futuro. Porém a linha mais aceita é que as duas estejam relacionadas entre si. O que se pode concluir disso é que as trombetas anunciam os juízos que serão imputados a terra depois do selamento do povo de Deus, pouco antes da volta de Cristo.

Analisar o Apocalipse, assim como outros livros da bíblia é realmente algo fascinante quando você resolve se aprofundar nos seus antigos textos. É conteúdo para muitas discussões acirradas entre religiosos e ateus. Mas como já aprendemos alguma vez na vida: religião não se discute. Mas analisá-las já é outra história...

As Sete Trombetas no mundo Contemporâneo (Primeira Parte)
http://opiniaomijiniana.blogspot.com.br/2010/11/as-sete-trombetas-no-mundo.html


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