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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Fogo de Santelmo na Literatura de Viagens – Parte II - Relatos do fenômeno

Na “História Trágico-Marítima” há várias referências interessantes. Na “Relação do Naufrágio da Nau Santa Maria”, um relator anônimo descreve a crença extrema dos marinheiros.
Têm todos os homens do mar tamanha veneração ao Bem-Aventurado S. Frei Pero Gonçalves, e o têm por tão seu advogado nas tormentas do mar, que crêem de todo o seu coração que aquelas exalações que nos tempos fortuitos e tormentosos aparecem sobre os mastros, ou em outras partes da nau são o Santo que os vem visitar e consolar. E, tanto que acertam de ver aquela exalação, acodem todos ao convés a o salvar com grandes gritos e alaridos, dizendo: — ‘Salva, salva, Corpo Santo’. E afirmam que, quando aparecem nas partes altas, e são duas, três ou mais, aquelas exalações, que é sinal que lhes dá bonança; mas, se aparecer uma só, e pelas partes baixas, que denuncia naufrágio. E tão crentes e firmes estão nisto que, quando aquelas exalações aparecem sobre os mastaréus, sobem os marinheiros acima, e afirmam que acham pingos de cera verde; mas eles não os trazem nem os mostram. Ao menos nós não os vimos alguma hora. e se os religiosos que vêm nas naus lhes querem ir à mão, dando-lhes razões para lhes mostrar que aquilo são exalações, e declarando as causas naturais por que se geram e por que aparecem, não falta mais que tomarem as armas e levantarem-se contra quem lhes contradiz aquela sua fé, que por tal o têm.

(Fonte: profteresa)

Um outro relato na mesma coletânea é o de Henrique Dias, criado de D. Antônio, Prior do Crato, na “Relação da Viagem e Naufrágio da Nau S. Paulo”, que partiu da Índia em 1560:
“[...] a qual claridade vendo o contramestre e marinheiros da proa a começarem a salvar da parte de Deus e Nossa Senhora e seus Santos, em vozes muito altas a que a gente toda à uma respondia com grandes gemidos e lágrimas [...] Assim que toda a noite se foi nestes gemidos e brados, andando sempre estas luzes conosco.”
Na Etiópia Oriental, de Frei João dos Santos , descrevem-se as aventuras da nau S. Filipe, que tinha saído de Lisboa em 1586.
“[Numa noite de tempestade] apareceu o Corpo Santo em a verga do mastro grande, em figura de uma faísca de fogo, muito clara e resplandecente, e dali, à vista de todos, se foi pôr sobre o mastro da mezena, onde o salvou o piloto da nau, da cadeira em que estava governando, dizendo: Salvé, Corpo Santo, salvé: boa viagem, boa viagem. E toda a mais gente da nau, que presente estava, respondeu da mesma maneira: Boa viagem, boa viagem, com muitas lágrimas de alegria. Neste lugar esteve esta luz resplandecente um grande espaço de tempo e dali desapareceu à vista de todos.”
(Fonte: nunoanjospereira)

Mais à frente, dá-se conta dos conflitos entre mareantes e prelados que esta crença extrema podia desencadear. A determinada altura da borrasca um soldado ajoelhara perante a luz e batera no peito repetidamente exclamando: “Adoro-vos, meu Senhor Pero Gonçalves; vós me salvai neste perigo por vossa misericórdia”. Os padres a bordo advertiram-no de que não deveria orar assim, pois a adoração se devia apenas a Deus e não aos santos. Mas o soldado respondeu “Meu Deus será agora quem deste perigo me tirar”.
Na escrita literária portuguesa aparecem também várias referências interessantes ao fogo de santelmo. Gil Vicente, no Ato segundo, Cena I do “Triunfo do Inferno” coloca um marinheiro a gritar, ao som da ventania endiabrada:
“Ei-lo precioso santo
Frei Pero Gonçalves Bento
PILOTO:
Empara-nos de tanto vento
C’o teu precioso manto
Senhor, libra-nos a malo
GREGÓRIO:
Dêmos à bomba, piloto;
Dai ó demo Frei Gonçalo,
E não Frei Pero Minhoto
PILOTO:
É o bem-aventurado
Frei Pero Gonçalves bento.

(Fonte: flickr)


Camões fala do fogo de santelmo, que descreve como “o lume vivo, que a marítima gente tem por santo” nos dois primeiros versos da estância 18 do Canto V d’Os Lusíadas. A referência insere-se no relato feito por Vasco da Gama ao rei de Melinde, na parte em que enumera as experiências fantásticas testemunhadas pelo narrador:
“Os casos vi, que os rudos marinheiros,
Que têm por mestra a longa experiência,
Contam por certos sempre e verdadeiros,
Julgando as cousas só pola aparência,
E que os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência
Vêm do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos ou mal entendidos.
Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.”
Bocage alude à crença no soneto Depreciação feita durante uma tempestade:

“Oh Deus, oh Rei do Céu, do mar, da terra
(Pois só me restam lágrimas, clamores),
Suspende os teus horrísonos furores,
O corisco, o trovão, que a tudo aterra:

Nos subterrâneos cárceres encerra
Os procelosos monstros berradores,
Que, enchendo os ares de infernais vapores,
Parece que entre si travaram guerra.
Para nós, compassivo os olhos lança,
Perdoa ao fraco lenho, atende ao pranto
Dos tristes, que em ti põem sua esperança!

Às densas trevas despedaça o manto,
Faze, em sinal de próxima bonança,
brilhar no etéreo tope o lume santo.”

(Fonte: rodrigooliveirablogger)




E Afonso Lopes Vieira, numa paráfrase a um relato da “História Trágico-Marítima”, faz uma chamada ao passado esquecido e lamenta o esmorecimento do culto a S. Pero Gonçalves:
“Por te enramarem coentros,
Entre bailes e folias,
Tu às hortas de Enxobregas,
São Frei Pero, de antes ias.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Pelas outavas da Páscoa
Era o teu dia marcado ;
Vinhas então de Enxobregas
De coentros enramado.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!
Bailando por São Frei Pero,
Não havia homem do mar
Que não tecesse capela
Para ao redor a levar.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Que tamanha devoção!
Mas São Pero, no mar
Acendia a luz nos mastros
Para a tormenta amainar.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Quando se lá acendia,
Essa benta luz de encanto,
Todos no convés em grita:
— Salva, salva, oh Corpo Santo!

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Mas São Frei Pedro, esquecido,
Já não vai às hortas, não;
Não tem bailes nem folias,
No mar não tem devoção.

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!

Por isso as naus se desgarram,
Santo nome de Jesus!
Salva, salva, oh Corpo Santo,
Acende ao alto a tua luz!

Assim nos guies e salves,
Senhor São Pero Gonçalves!”

(Fonte: treklens)



As referências literárias e populares são muitas e inequívocas, tais como o são muitos relatos de viagem. Os relatos referem-se a um fenômeno atmosférico verdadeiro, hoje chamado fogo de santelmo. Um fenômeno de tal forma integrado na história e literatura portuguesa que nesta se encontram muitas das descrições históricas que contribuíram para o seu conhecimento científico.
( Texto de Nuno Crato com adaptações)

O Fogo de Santelmo na Literatura de Viagens – Parte I

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Fogo de Santelmo na Literatura de Viagens – Parte I

O Fogo de Santelmo é um fenômeno meteorológico que ocorre geralmente em ocasiões de forte trovoada e que se caracteriza por pequenas descargas elétricas (projeções e irradiações luminosas de cor azul-violeta) nas pontas metálicas dos mastros dos navios, em torres metálicas ou nas partes salientes dos aviões, devido à concentração do campo elétrico atmosférico nas ditas zonas. É muitas vezes acompanhado de um zumbido ou estampido. A designação de Fogo deve-se ao fato de o mastro parecer arder. Como se trata de um fenômeno que surge com mais frequência no fim das tempestades, foi-lhe atribuído o nome do Santo protetor dos navegadores Santo Elmo, pois os marinheiros associavam o aparecimento desta "chama" à melhoria das condições meteorológicas.
(Fonte: nahusifero)

A primeira referência literária escrita à luminosidade hoje conhecida como fogo de santelmo é, possivelmente, a que aparece nos Hinos Homéricos, uma coletânea de poemas no estilo de Homero escrita por vários autores desconhecidos. Referem-se aí os gêmeos mitológicos Castor, o domador de cavalos, e o inocente Pólux, filhos de Zeus e filhos gloriosos da Leda do belo andar. Por ocasião das tempestades, diz-se que os marinheiros apelam a esses filhos do grande Zeus, consagrando cordeiros brancos e deslocando-se para a proa; o vento forte e as vagas do mar mantêm o navio sob a água, até que, subitamente, os dois são avistados no ar, rápidos e com asas douradas. Imediatamente suavizam as rajadas dos ventos cruéis e acalmam as ondas sobre o branco mar: São belos sinais e um salvamento.

Castor e Pólux (Fonte: meridianodepoesia)
Para os gregos, a luminosidade nas pontas dos mastros que se via em momentos tempestuosos podia ser sinal de mau augúrio, quando a luz tinha uma ponta apenas, caso em que associavam o fenômeno a Helena, a irmã de Castor e Pólux. Mas essa luminosidade era um sinal de bom augúrio quando tinha duas pontas, caso em que a associavam aos dois gêmeos mitológicos. Segundo a lenda, estes tinham poder sobre as forças tempestuosas e eram pois considerados protetores dos marinheiros.


(Fonte: minilua)

Aristóteles, nos “Metauros”, descreve o mesmo fenômeno e Plínio, o Velho (c. 29–79 d.C.), e grande enciclopedista romano, refere-se-lhe demoradamente na sua “História Natural”, confirmando que, se for um, anuncia uma tempestade severa, mas se forem dois, e isso quando a tempestade se tiver desenvolvido, é um bom sinal.
Nos Comentários de Júlio César, descreve-se o fenômeno observado em terra: “No mês de Fevereiro, cerca do segundo turno da noite, levantou-se subitamente uma nuvem escura a que se seguiu uma chuvada de granizo, e na mesma noite as pontas das lanças da V Legião pareceram incendiar-se”.
Sant'Elmo socorrendo náufragos (Fonte: instituto-camoes)

Séculos mais tarde, já na era cristã, os navegadores do Mediterrâneo viam neste lume misterioso o sinal da intervenção do “Corpo Santo” através de Santo Erasmo, um bispo italiano assassinado em 303 d.C., também conhecido por Santo Elmo ou Sant’Elmo.
Nos tempos das Descobertas, os marinheiros portugueses e espanhóis, tomariam como protetor outro santo da Igreja Católica, um frade dominicano do século XIII de nome Pero Gonçalves. Com os anos, as lendas fundiram-se, e o nome “Telmo” foi-lhe justaposto. Nos fins do século XVI falava-se em Pero Gonçalves Telmo como se sempre tivesse sido esse o seu nome.


(Fonte: paulohenriquei)

A literatura portuguesa abunda de referências ao santo e ao fenômeno luminoso. Começando pelos relatos de viagem, vale a pena destacar o que escreveu D. João de Castro, o grande intelectual viajante do século XVI, no Roteiro de Lisboa a Goa de 1538.
Tornando a 2ª vez à Índia, que foi no ano de 1545, esta mesma noite nos apareceu a aparência ou sinal a que os marinheiros chamam Corpo Santo, per duas vezes, e duraria espaço de meia hora. Primeiramente o vimos na ponta do mastaréu da gávea, e depois no lais da verga, e depois na ponta do mastro da mesma e depois na enxárcia. Esta aparência a que chamam Corpo Santo era uma claridade tamanha como a que costuma fazer uma candeia ou vela, mas a sua luz não era vermelha como fogo, mas prateada à semelhança do que se vê na Lua; e, quando dava algum relâmpago, não aparecia esse sinal. Porém, como passava o esplendor do relâmpago, tornava a aparecer. Quando nos apareceu este sinal, chuviscava, e o céu estava escuro e cerrado, e foi cousa muito patente e sem nenhum engano de vista, e parecia mistério e segredo da natureza. A este tempo estávamos norte sul com o Rio do Infante, e em altura de 34º.
Na próxima parte do artigo serão citados mais relatos de aparições do fogo de santelmo na literatura de viagens.

(Texto de Nuno Crato com adaptações)

O Fogo de Santelmo na Literatura de Viagens – Parte II - Relatos do fenômeno

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ling-chi - Parte II - Relatos sobre as execuções de corte lento

Imperadores confucionistas que não tinham controle legal em seu poder, ordenaram métodos similares e menos cruéis que o Ling-chi em seu regime. De acordo com Qin Er Shi e durante a primeira dinastia Han, vários tipos de tortura foram aplicados a seus funcionários. Liu Ziye, por exemplo, matou funcionários inocentes. Gao Yang matou seis pessoas. An Lushan matou um homem.

Heshen (Fonte: executedtoday)

O Ling-chi também era conhecido no período das Cinco Dinastias (907-960) e Gaozu, da última dinastia Jin, a aboliu. Esta pena apareceu pela primeira vez nos códigos de lei da dinastia Liao e foi usado com alguma frequência. O Imperador Tianzuo, de Liao, era um dos que frequentemente executava as pessoas desta maneira durante seu governo. Logo essa punição tornou-se difundida na dinastia Song, do imperador Renzong e do imperador Shenzong. Alguns funcionários muitas vezes também usavam o corte lento para torturar os rebeldes e esse castigo permaneceu no código de lei da Dinastia Qing para pessoas condenadas por alta traição e outros crimes graves. Após um tempo o Ling-chi foi abolido como resultado da revisão de 1905 do código penal chinês Shen Jiaben. Os relatórios dos juristas da dinastia Qing, mostravam que no Shen Jiaben a forma regular para que um carrasco executasse esta pena não era especificada em pormenor no Código Penal. Os chineses não estavam sozinhos na realização de castigos considerados cruéis e incomuns e a tortura geralmente precisava de permissão do imperador. Enquanto os países ocidentais mudavam seu pensamento com o intuito de abolir punições semelhantes, alguns ocidentais começaram a chamar a atenção para os métodos de execução usados ​​na China. Foi então que, em 1866, um ano depois do último caso de corte lento, Thomas Francis Wade, foi então ao serviço da missão diplomática britânica na China, sem sucesso, pedir a abolição da Ling-chi.

(Fonte: sanmiguelschool)

A primeira proposta para abolir o Ling-chi foi apresentada por Lu You (1125 -1210), em um memorial ao imperador durante a dinastia Song, no sul. Lu You era contra a argumentação elaborada acerca do Ling-chi que foi copiado e transmitido por gerações de estudiosos, entre eles os juristas influentes de todas as dinastias, até o final  da reforma do Shen Jiaben, na dinastia Qing, introduzida em seu memorial em 1905, obtendo eventualmente a abolição. Esta foi a resposta anti-Ling-chi contra as punições cruéis e incomuns (como a exposição da cabeça) que o Tang não tinha incluído na Tabela Canônica das Cinco Punições, que definia claramente as formas legais de punir o crime. Daí a tendência abolicionista estar profundamente enraizada na tradição chinesa legal, ao invés de ser puramente derivada de influências ocidentais.

Relatos acerca do Ling-chi

(Fonte: sanmiguelschool)

Um relato de 1858, de  Harper's Weekly afirmava que o mártir Auguste Chapdelaine foi morto por este método e havia sido decapitado após a morte. Tal descrição foi confirmada mais tarde por outra nota publicada (O povo e a política do extremo Oriente, de 1895), dessa vez por Sir Henry Norman. Este era um escritor e fotógrafo viajante. Norman disse ter testemunhado uma execução por tal método, e deu uma descrição gráfica em seu livro  “O carrasco”, onde descrevia que o condenado tinha um punhado de partes carnudas do seu corpo arrancadas, como coxas e seios, já os membros eram cortados aos poucos nos pulsos e tornozelos, cotovelos e joelhos, ombros e quadris. Finalmente, o condenado era esfaqueado no coração e tinha a cabeça cortada.
Para G.E. Morrison, “An Australian in China, (1895)”, há contestações sobre a metodologia do Ling-chi, pois alguns outros relatos afirmam que a maioria das mutilações do Ling-chi é de fato feita post mortem. Morrison escreveu a sua descrição baseada em um relato por uma testemunha ocular que afirmou: "O prisioneiro é amarrado a uma rude cruz onde ele é invariavelmente posto sob a influência do ópio. O carrasco, em pé diante dele, com uma espada afiada faz duas incisões rápidas acima das sobrancelhas e atrai a parte da pele sobre cada olho, então ele faz duas incisões rápidas no peito, e no momento seguinte, ele perfura o coração, e a morte é instantânea. Então eles cortam o corpo em pedaços e a degradação consiste na exposição a céu aberto das partes do corpo.”
No livro de Tienstin (Tianjin), “China - O Livro do Ano (1927)”, há relatos contemporâneos de lutas em Guangzhou (Cantão) entre o Governo e as forças comunistas de Nanjing. Histórias de várias atrocidades estão relacionadas, incluindo os relatos de Ling-chi. Não há menção de ópio e, nestes casos, parecem ser propaganda do governo.
Um jornalista do The Times (9 de dezembro de 1927), reportou que na cidade de Cantão os sacerdotes cristãos eram alvos constantes de comunistas e certa vez foi anunciado que o padre Wong iria ser publicamente executado pelo processo do corte lento.
George Roerich, "Trails to Inmost Ásia" (1931), relata a história do assassinato de Tseng Yang-hsin, o governador de Xinjiang em julho de 1928, pelo guarda-costas de seu ministro estrangeiro Fan Yao-han. Este foi apreendido e, ele e sua filha, foram ambos executados por Ling-chi. Em tal ocasião o ministro ainda foi obrigado a assistir a execução de sua filha em primeiro lugar. No entanto Roerich não foi uma testemunha ocular deste evento, tendo já retornado à Índia até à data da execução.
George Ryley Scott, History of Torture (1940), afirma que muitos foram executados desta maneira pelos insurgentes comunistas chineses. Ele cita as alegações feitas pelo governo de Nanquim, em 1927. Por essa razão talvez seja incerto se estas alegações eram de propaganda anticomunista. Scott também chama isso de "o processo de corte" e se diferencia entre os tipos diferentes de execução em diferentes partes do país. Não há menção de ópio. O livro de Riley ainda contém uma imagem de um cadáver em fatias (sem marcação no coração), que foi morto em Guangzhou (Cantão), em 1927. Ela não dá nenhuma indicação de que o corte foi feito post mortem. Scott afirma que era comum para os familiares dos condenados subornar o carrasco para matar o condenado antes do processo de corte começar.

(Fonte: intertheory)

Louise Levathes, em seu “When China Ruled the Seas: The Treasure Fleet of the Dragon Throne, 1405-1433 (1994)” relata que "Huang foi condenado a uma execução particularmente horrível conhecida como Maruca chi, ou “morte por mil cortes”, por ter cometido alta traição. "Os cortes foram feitos em seu peito, abdômen, braços, pernas e costas, para que ele sangrasse bem lentamente até a morte durante um período de tempo, talvez até três dias.
Mark Costanzo, Just Revenge: Costs and Consequences of the Death Penalty (1997): Às vezes era usado na China antiga a pena da “Morte por mil cortes”, onde pequenos pedaços de carne eram retalhados do condenado ao longo de um período de dias.


Relatórios militares dos EUA contam que os membros dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos estavam estacionados em torno de Xangai entre 1927 e 1941 em busca de provas de violações dos direitos humanos: "A prevalência de execuções e tortura é evidenciada pelos relatórios trazidos de volta da China pelos fuzileiros navais . Existem fotografias de pelotões de fuzilamento, a decapitação, estupro e torturas, tais como "a morte de mil cortes". Aparentemente, estas fotos eram comercialmente disponíveis [na China], por não serem cópias exatas, juntas a muitos recortes e com o nome de um estúdio comercial carimbado no verso das fotografias." É possível que as fotos da década de 1910 tivessem sido erroneamente associadas com as atrocidades em curso da China em 1920, e as fotos do Ling-chi acabaram sendo vendidas como raridades. Fotografias deste mesmo período, incluindo as linhas de cadáveres decapitados, os diplomatas não chineses mortos a tiros, e uma vítima Ling-chi, podem ser encontradas em “A History of Torture”, de George Ryley Scott.



            Ling-chi – Parte I – A dolorosa pena dos mil cortes

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ling-chi – Parte I – A dolorosa pena dos mil cortes

O Ling-chi, também traduzido como corte lento, morte lenta, ou morte por mil cortes foi uma forma de execução utilizada na China a cerca de 900 d.C. até a sua abolição em 1905. Nesta forma de execução, o condenado era morto por uma faca de lâmina fina que era usada para remover metodicamente partes do corpo do condenado durante um longo período de tempo. O termo ‘Ling-chi’ deriva de uma descrição clássica do ‘subir uma montanha lentamente’. O Ling-chi poderia ser utilizado como forma de tortura e execução de uma pessoa, como também poderia ser aplicado como um ato de humilhação depois da morte. Receberam tal castigo aqueles que cometeram crimes contra o sistema de valores morais tais como, atos de traição, assassinato em massa, parricídio (matar um parente próximo) ou o assassinato de um mestre ou patrão, porém imperadores utilizaram este método constantemente para ameaçar as pessoas, como forma de impedir delitos menores. Alguns imperadores também fizeram uso desta punição para membros traidores da família e seus inimigos. O processo envolveu a subordinação da pessoa a ser executada numa armação de madeira, geralmente em um lugar público. A carne do corpo era então cortada em várias fatias, em um processo que não foi especificado em pormenor no direito chinês e, portanto, o mais provável era que a quantidade de cortes era indefinida. Tempos mais tarde, o ópio era, por vezes, administrado como um ato de misericórdia ou como uma maneira de impedir desmaios.


A execução Ling-chi (Fonte: injuado)

De acordo com o princípio confucionista da piedade filial, ou Xiao, para alterar o corpo de alguém ou cortá-lo seria necessário violar as exigências do Xiao. Além disso, cortar um corpo em pedaços significava que o corpo da vítima não seria um "todo" em uma vida espiritual após a morte. Este método de execução tornou-se um elemento de fixação da imagem da China entre alguns ocidentais. Ele aparece em vários relatos de crueldade chinesa, como a biografia de Harold Lamb de 1930 sobre Genghis Khan.
Imperadores usavam este método cruel para ameaçar as pessoas e, por vezes, puni-las por pequenos delitos. Entretanto essa punição não costumava ser utilizada em condenações e execuções injustas. Alguns imperadores dispensaram esta punição para os membros da família de seus inimigos. Embora seja difícil obter os detalhes exatos de como as execuções conhecidas tiveram lugar, elas geralmente eram compostas de cortes nos braços, pernas e peito levando à amputação de membros, seguido por decapitação ou uma facada no coração. Se o crime tivesse sido de menor gravidade ou o carrasco misericordioso, o primeiro corte seria o fatal, diretamente na garganta, sendo que, os cortes subsequentes serviriam apenas para desmembrar o cadáver.

(Fonte: norahdooley)

O historiador de arte James Elkins argumenta que as fotos existentes sobre as execuções torna evidente que a "morte por divisão" (como era chamado pelo alemão criminologista R. Heindl) envolvia algum grau de desmembramento, enquanto o punido estava vivendo. No entanto, Elkins também argumenta que, ao contrário da versão apócrifa da "morte por mil cortes", o atual processo não poderia ter durado muito tempo. Não é provável que o indivíduo condenado tenha se mantido consciente (ou mesmo vivo) após um ou dois ferimentos graves e todo o processo não poderia ter incluído mais do que algumas dezenas de feridas. Na dinastia Yuan 100 cortes foram infligidos, mas pela dinastia Ming, havia registros de três mil cortes. Testemunhas de confiança, como Meadows, descreveram um processo de rápida duração (cerca de 15 a 20 minutos). Já registros fotográficos disponíveis parecem provar a velocidade do evento, enquanto a multidão se mantém coerente em toda a série de fotografias. Além disso, estas fotografias mostram um contraste impressionante entre o fluxo de sangue que encharca o flanco esquerdo da vítima e da falta de sangue no lado direito, possivelmente mostrando que no primeiro ou no segundo corte chegou ao coração. O golpe de misericórdia era mais certo quando a família podia pagar um suborno para infligir uma facada no coração em primeiro lugar.

(Fonte: ramirez-dahmer-bundy)

Alguns imperadores ordenavam três dias de corte, enquanto outros podiam ter ordenado torturas específicas antes da execução, por variados períodos. Por exemplo, os registros mostram que durante a execução, Yuan Chonghuan ficou gritando durante meio dia e depois o som parou. A carne das vítimas também podia ter sido vendida para a medicina chinesa. Além disso, como uma punição oficial, a morte por corte lento pode também ter envolvido cortar ossos, a cremação, e a dispersão das cinzas do defunto.

A percepção Ocidental


(Fonte: casavilamoreno)

A percepção ocidental de Ling-chi muitas vezes difere consideravelmente da prática, e alguns equívocos persistem até o presente. A distinção entre o mito sensacionalista Ocidental e a realidade chinesa foi notado pelos ocidentais bem cedo, em 1895. Naquele ano, o australiano viajante G.E. Morrison, que dizia ter testemunhado uma execução por corte, escreveu que "Ling-chi [era] normalmente, e erroneamente, traduzido como " morte por corte em 10 mil pedaços "- uma descrição verdadeiramente terrível de um castigo, cuja crueldade foi extremamente mal interpretada ... A mutilação é medonha e excita o nosso horror como um exemplo da crueldade bárbara; mas não é cruel, e não excita o nosso horror necessariamente, uma vez que a mutilação é feita, não antes da morte, mas depois. Segundo a lenda apócrifa, Ling-chi começou quando o torturador, empunhando uma faca extremamente afiada, começou por arrancar os olhos, tornando o condenado incapaz de ver o restante da tortura e, presumivelmente, contribuindo muito para o terror psicológico do procedimento. Sucessivos cortes menores não incluíam as orelhas, nariz, língua, dedos e os órgãos genitais antes de proceder os cortes grosseiros que removiam grandes porções de carne de mais peças de tamanho considerável, por exemplo, as coxas e ombros. O processo todo foi durava uns três dias, o que no fim totalizavam 3.600 cortes. Os corpos fortemente deformados dos mortos eram então colocados em um desfile para uma apresentação em público. Em algumas vítimas teriam sido administradas doses de ópio, mas relatos diferem quanto a saber se a droga foi usada para amplificar ou atenuar o sofrimento.

(Fonte: martinfrost)

J.M. Roberts, em seu livro “Século XX: A História do Mundo de 1901 a 2000”, escreve: "o castigo tradicional de morte por corte tornou-se parte do imaginário ocidental como “a morte por milhares de cortes” em uma sociedade chinesa atrasada em termos de desenvolvimento." Roberts, em seguida, observa que o Ling-chi foi condenada por K'ang Yu-Wei, um homem chamado de "Rousseau da China", que era um grande defensor de uma reforma intelectual e do governo na década de 1890. Apesar de oficialmente proibida pelo governo Qing em 1905, o  Lingchi se tornou para o ocidente um símbolo generalizado do sistema penal chinês a partir da década de 1910 em diante. Três conjuntos de fotografias tiradas por soldados franceses em 1904-1905 foram a base para a mitificação mais tarde. A abolição foi imediatamente cumprida, mas não foi definitiva. Essa pena ainda continuou sendo realizada na China depois de Abril de 1905. Entretanto, os casos relatados foram todos baseados em equívocos relacionados a execuções do passado. Quanto ao uso do ópio, como relatado na introdução do livro de Morrison, Sir Meyrick Hewlett insistiu que à maioria dos chineses condenados à morte foram dadas grandes quantidades de ópio antes da execução, e afirma Morrison que algumas pessoas caridosas teriam permitido empurrar ópio na boca de alguns condenados que morriam em agonia, acelerando assim o momento da morte. No mínimo, tais contos foram considerados críveis para oficiais britânicos na China e outros observadores ocidentais.

(Fonte: injuado)

Na próxima parte darei prosseguimento a reflexão ocidental acerca do Ling-chi.



            Ling-chi - Parte II - Relatos sobre as execuções de corte lento

segunda-feira, 28 de março de 2011

O Disco de Sabu

Um OOPArt - Out Of Place ARTifact (Artefato fora do lugar) é um termo aplicado a dezenas de objetos pré-históricos encontrados em vários lugares ao redor do mundo que, dado o seu nível de tecnologia, estão completamente em desacordo com sua idade determinada com base na química, física e / ou provas geológicas. Ooparts são muitas vezes frustrantes para os cientistas convencionais e um deleite para os pesquisadores aventureiros e pessoas interessadas em teorias científicas alternativas


Disco de Sabu (Fonte: carolinecabus)

Em 1936, um disco tri-lobulado foi descoberto pelo egiptólogo Walter Brian Emery, na tumba do príncipe de Sabu, filho do faraó Anedjib, o quinto monarca da I dinastia do Egito Antigo (3.000 a.C),  durante uma escavação na zona arqueológica de Saqqara, no Egito. Este disco enigmático foi encontrado entre cerâmica, ossos, pedra e vários outros objetos de valor que o nobre príncipe quis levar consigo para o além.
O dispositivo mede cerca de 23,5 centímetros de diâmetro e um pouco mais de 4 centímetros de altura. Embora alguns acreditassem inicialmente ser esculpido em ardósia, o disco, na verdade, foi feito de material siltito (muitas vezes empregado por entalhadores egípcios por sua capacidade de suportar o trabalho, detalhado e metódico, sem fraturas). Outras objetos encontrados neste túmulo também foram esculpidos a partir desta resistente rocha.

(Fonte: saucer2.vilabol)
Como uma tigela larga e plana com três  cortes ou pás curvas, a forma do objeto imediatamente sugere uma hélice semelhante a de um barco com três pás e um furo central para ser colocada em um eixo disposto a girar. Mesmo para siltito, os detalhes do disco (especialmente os três cortes e o cilindro central) são incrivelmente finos. Apesar de o disco não possuir uma simetria perfeita, todos os cortes são aproximadamente do mesmo tamanho e são orientados a 120 graus a partir do centro. Mas quanto à real função do objeto, os investigadores ainda não tem certeza.
Embora possam não ser capazes de determinar o que era, muitos concordam que o artefato não poderia ter sido uma roda, já que o volante fez a sua aparição recente no Egito em 1500 a.C., durante a 18 ª dinastia, com a invasão dos hicsos. No entanto, algumas gravuras egípcias, onde rodas semelhantes aparecem desenhadas, já eram encontradas durante a quinta dinastia, cerca de um milênio antes desse período. O disco de Sabu, porém, é um desafio ainda maior para os egiptólogos, porque as datas do surgiimento da roda giram em torno de 3000 a.C., durante o tempo da primeira dinastia.


Réplica (Fonte: atlantisonline.smfforfree2)

Outro cenário ainda mais incrível sugere que o disco de pedra, na verdade serviu como uma espécie de hélice usado com aletas (pequenas alas por onde passa algo) hidráulicas, o que implicaria que os egípcios provavelmente tinham a tecnologia para construir motores elétricos. Enquanto a pedra não pode ser um material razoável para tal dispositivo, o renomado egiptólogo Cyril Aldred postulou que o disco seria simplesmente uma reprodução de um objeto metálico muito mais velho do que este.
Claro que, esse objeto também, acreditava-se,  teria servido a um propósito muito menos incrível. Alguns acreditam que o disco pode ser simplesmente ser um de uma lâmpada a óleo. No entanto, os críticos desta teoria afirmam que sua função como uma lâmpada ritual, é bastante improvável devido à forma e curvatura de seus lobos, que parecem sugerir uma função ao invés de meros adornos.


(Fonte: davidicker)

Então qual seria a explicação para este disco? Embora não possa ter sido uma hélice de um veículo, o disco estranho ainda pode ter sido parte de uma espécie de um antigo componente da máquina para o processamento de grãos ou frutas, talvez. Alguns até sugeriram que ele possa ter sido parte de um gerador ou bateria para produzir electricidade.
A habilidade necessária para esculpir um objeto é também importante. Se alguém fosse fazer hoje um objeto semelhante a esse disco, a tecnologia necessária para tais formas finas e desproporcionais de rocha sólida exigiria algo como uma máquina de trituração computadorizada 3D moderna!


(Fonte: rocking-maniacs)

Outra questão a ser discutida seria o objetivo para o qual o artefato foi construído. Seria a reprodução de alguma tecnologia antiga desconhecida ou apenas uma amostra do talento de algum escultor que viveu naquela época?
De qualquer maneira, o disco tri-lobulado agora descansa no primeiro andar do Museu do Cairo, onde todos que podem apreciar o artefato se perguntam: que tipo de tecnologia que os egípcios eram realmente capazes de criar durante os primeiros dias de seu império glorioso?
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