quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Crianças enterradas vivas - Uma triste realidade indígena

No artigo sobre os funerais de Toraja eu havia comentado sobre a questão da cultura em diferentes regiões do mundo, onde eventos que nos parecem bizarros, para determinados povos não os são. Mas será que não existe limite para os extremismos culturais que, muitas vezes, envolvem sacrifícios banais em nome de uma tradição que no mundo moderno soa ultrapassada e sem sentido?


Infanticídio (Fonte: convulssion)

Uma organização sem fins lucrativos conhecida como ‘ATINI – Voz pela Vida’ desenvolveu um projeto em defesa da luta contra as práticas do infanticídio no mundo. Segundo eles, todos os anos centenas de crianças são sacrificadas em nome de uma tradição cultural seguida por determinados povos.  Na África Central e Ocidental, por exemplo, recém-nascidos que nascem com alguma deficiência são alvos de um preconceito extremo e são deixados à sorte até morrerem, o que geralmente causa alívio para todos. Na Índia, a família tem preferência pelas crianças do sexo masculino e, por essa razão, muitas mulheres são levadas a abortar o bebê quando descobre que é do sexo feminino. Além disso, as meninas são obrigadas a comer o resto de comida dos pratos dos meninos, geralmente adoecem mais e são as últimas a serem atendidas no sistema de saúde. Em algumas regiões de Camarões, Gabão, Nigéria e Libéria, crianças sensíveis e sonhadoras são acusadas de terem poderes diabólicos e são ligadas a eventos relacionados a acidentes e infortúnios. Em Benin, para uma criança ser morta basta ser encaixada em um desses requisitos: que na hora do parto saia primeiro os pés, ombros ou nádegas; que nasça com o rosto virado para baixo; que a mãe morra durante o parto; que nasçam primeiro os dentes inferiores, ou que simplesmente  não nasçam até os 8 meses de idade. Os pais ainda são obrigados a presenciar tudo e pagar pelo serviço. Um absurdo!

Campanha: Violência contra a criança (Foto: mesquita)
Aqui no Brasil também há registros de infanticídio em algumas tribos. O critério para determinar se uma criança deve ou não ser sacrificada é o fato de ela ter nascido com alguma deficiência física ou mental, de serem gêmeos, ou nascer de uma relação extra-conjugal. Uma grande discussão tem sido levantada em torno desse assunto, entre os defensores da prática em nome da preservação da cultura e aqueles que são a favor do fim dos sacrifícios. Aí nos perguntamos novamente: até onde uma tradição troglodita deve ser tolerada?
Isso me faz lembrar da era medieval onde a igreja concentrava o poder e matava milhares de pessoas em nome de Deus durante a inquisição. O propósito disso era claro, enquanto ela mantinha o povo sob controle permanecia inatingível. Depois que perdeu sua força com o tempo, hoje se limita a emitir opiniões condenando determinadas práticas como o uso da camisinha, numa época onde doenças como a Aids estão proliferando por todas as partes.

Criança indígena sendo enterrada viva (Fonte: Internationalsurvival)

Criança indígena sendo enterrada viva (Fonte: Internationalsurvival)

A ATINI, em 2008 lançou um documentário chocante sobre a prática de se enterrar crianças vivas, consideradas ‘amaldiçoadas’, em algumas tribos brasileiras. O nome do documentário é ‘Hakani, Enterrada Viva – a história de uma sobrevivente’ e conta a história de uma jovem índia chamada Hakani que nasceu 1995, numa tribo suruwaha, semi-isolada no sul da Amazônia. Como ela não se desenvolveu bem até os dois anos − tinha hipotireoidismo congênito − ela foi rejeitada pela tribo e seus membros pressionaram os pais de Hakani para que eles a sacrificassem. Porém o peso de ter que matar um filho foi demais para eles e os pais da menina resolveram se suicidar, deixando a indiazinha e um irmão órfãos. Sobrou então para o irmão mais velho a responsabilidade de matar a menina. Ele a levou para um local próximo a maloca, cavou uma cova rasa e a enterrou viva diante de alguns índios. Dentro da terra ainda dava para ouvir o choro abafado da criança (alguns relatos dizem que crianças enterradas vivas passam horas chorando debaixo da terra antes do silêncio prenunciar sua morte). Porém, antes que o choro de Hakani fosse silenciado seu irmão a desenterrou e a levou para o avô. Como se não bastasse todo esse drama, a tribo voltou a pressionar a morte da menina e coube ao avô essa triste responsabilidade. Ele tentou sacrificar a criança com uma flecha no coração, mas errou o alvo e atingiu o ombro da menina. Resultado disso: seu remorso pela situação foi tão grande que resolveu tomar um veneno conhecido como timbó e veio a falecer também. Aos 2 anos e meio a pequena índia viveu em condições subumanas na tribo onde era considerada um ser amaldiçoado. Porém, sua vida finalmente teve uma reviravolta depois de 3 anos de sofrimento físico e psicológico com o povo suruwaha. Hakani finalmente foi resgatada por um de seus irmãos e levada até um casal de missionários, Márcia e Edson Susuki, que trabalhava com o povo suruwaha a mais de 20 anos. Comovidos com a história de vida da garota eles passaram a cuidar dela como se fosse sua própria filha. Para se ter uma idéia do estado deplorável em que a menina se encontrava, ela, com 5 anos de idade, pesava apenas 7 quilos e media 69 centímetros de estatura. Os missionários decidiram posteriormente pedir permissão para o governo para poder adotar Hakani e levá-la para a cidade. Recebendo carinho e tratamento adequado, dentro de pouco tempo Hakani voltou a falar e a andar e o inocente sorriso que havia sido perdido há tempos voltou a brotar do seu rosto.

Hakani: um exemplo de luta pela vida (Fonte: hakani)

Hakani com seus pais adotivos e com o diretor David Cunninghan (Fonte: Fotolog)

Atualmente Hakani, aos 14 anos, está morando em Brasília, cursando a quinta série do ensino fundamental, fazendo aulas de natação e curso de inglês. Além disso, ela continua fazendo terapia para se livrar dos traumas ocorridos no passado. Em 2008 esteve em Washington com seus pais adotivos, durante a exibição do documentário que leva o seu nome, e na época do documentário, teve um emocionado reencontro com o irmão que a salvou de ser enterrada viva. É com certeza um exemplo de luta pela sobrevivência em meio a uma sociedade subversiva.
O documentário em si merece algumas observações importantes. Apesar de parecer extremamente chocante (quem não viu pode conferir no youtube buscando Hakani nas pesquisas) com cenas da criança Hakani com terra na boca chorando e sendo enterrada viva, as cenas não são reais. Segundo a ATINI, os índios que aparecem no vídeo são sobreviventes do infanticídio nas comunidades indígenas e a criança sendo enterrada não é Hakani. A terra que cobre a criança é pó de chocolate para fazer bolo, e segundo o diretor norte-americano David Cunningham, criador do documentário, ninguém se machucou durante a produção do vídeo. Agora os relatos de sobreviventes e pais que tiveram seus filhos enterrados são reais e mostram um drama que a organização tenta combater junto a grupos indígenas que defendem o fim dos sacrifícios de crianças nas tribos brasileiras.


Hakani e seu irmão (Fonte: inovavox)
É nesse contexto que o embate entre antropólogos que defendem a prática do sacrifício de crianças se insere. Imaginemos um documentário na África, onde um filhote de elefante se encontra sozinho no meio da savana. Ele é surpreendido por um grupo de leoas que começam a atacá-lo. A pessoa que está ali gravando o documentário está acompanhada de habitantes da região, armados com pistolas de dardos tranquilizantes. Apesar de estarem comovidos com a situação do pobre elefantinho eles não fazem nada. Por quê? Por que eles não vão lá e tentam intervir antes que o pobre animal vire refeição de um covarde grupo de leoas famintas? Eis a questão, para eles aquilo faz parte da vida na savana, é a lei onde o mais forte sobrevive. Eles não se intrometem na ação das leoas porque aquilo era para ser assim mesmo, é a ordem natural das coisas. Essa é justamente a visão de alguns antropólogos em relação ao caso dos infanticídios nas tribos indígenas. Eles consideram os sacrifícios como algo natural na cultura indígena. É algo que achamos desprezível, mas não podemos intervir. É como no caso dos rituais de Toraja, onde o maciço sacrifício de animais parece algo sem propósito, mas para eles tem um sentido muito maior, um sentido divino. Inclusive grupos como o “International Survivor” criticam duramente a organização ATINI, por suas intervenções nas culturas indígenas, alegando que na verdade o único objetivo da organização é a destruição das tradições indígenas e conseqüentemente da identidade desse povo. É uma discussão bastante complexa que se desdobra em muitos casos onde extremismo cultural vive chamando a atenção da mídia internacional, como o drama recente de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma mulher iraniana que é acusada de adultério e foi condenada a execução, mediante protestos pipocando por várias partes do mundo.




Extremismo não tem religião (Fonte: revistaforum)

Para mim esses casos são condenáveis, mas é muito complexo se falar em mudanças na cultura de um povo, pois a proibição desses rituais, dessas posições religiosas e políticas, trazem à sociedade uma transformação considerável, mas assim como trás benefícios, trás também prejuízos que podem ser considerados maiores do que aqueles problemas primariamente questionados. Atrevo-me até a fazer uma citação a uma das obras mais conhecidas de Orwell: “A Revolução dos Bichos”, onde após o controle da fazenda pelos animais, as expectativas de melhoras naquela sociedade se diluíram, quando eles viram que o que era ruim acabou ficando ainda pior. Ou seja, uma mudança sempre vem acompanhada de fatores positivos e negativos.

4 comentários:

Biologia XLVI disse...

gente branca nao tem que se meter em custumes de outros povos e se dane, ninguem vem impedir de bando de gente dar dinheiro que nem uns imbecis a igreja, então larga eles com os costumes dele E PONTO!

Infinite Mijinian disse...

Assim como gente mal educada não tem que se meter nos blogs alheios pra esbanjar arrogância e falar um monte de baboseira. Cada um tem sua opinião, se você defende seu ponto de vista, isso ótimo, entretanto tem milhares de pessoas por aí que pensam diferente de você. Infelizmente né?

Bárbara Fernanda disse...

Meu Deus que crueldade, acho que esse povo deve parar de ignorante e buscar saber o que é certo e o que é errado!

Lindomar Padilha disse...

O vídeo em questão é uma farsa, uma encenação devidamente desmascarada. Acesse e confira http://lindomarpadilha.blogspot.com.br/2013/10/video-hakani-uma-voz-pela-vida-que.html

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