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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Contos Mijinianos #6 - O barco

(Fonte: fotolog)

Em meio a um oceano plácido e deserto em que as luzes do poente se espalham num horizonte de águas infinitas, de algum lugar vozes aflitas ecoam causando um contraste com a calmaria do mar:
- Capitão! Capitão! Ai de nós, pois o barco afundando está! O que hemos de fazer?!
O capitão de grande porte com seu andar desajeitado observa a agitação como quem não entende o porquê de tamanha inquietação de seus marinheiros raquíticos. E com semblante sereno ele, enquanto passa a mão na barriga, diz:
- Ora, homens do mar, para quê tamanho rebuliço? Não há motivos para tanto alarde, pois não vês? Nosso barco navega dentro da água e afundando ele há de voltar para superfície e estaremos todos salvos!
Depois do esclarecimento feito pelo seu capitão fanfarrão os tripulantes da embarcação se dão conta que navegavam do lado de dentro do mar o tempo todo, mas não tinham idéia desde quando isso acontecia. Agora, impregnados pelo medo da situação caótica em que se encontravam, a única coisa que eles almejavam eram retornar sãos e salvos para a superfície. Um dos marinheiros, porém, lançou no ar uma dúvida singular:
- Capitão! O barco está afundando e estamos nós navegando de ponta-cabeça como se a superfície fosse o mar e este a superfície. Se o barco afunda para fora do mar, não hemos nós de afundar nas profundezas da imensidão do mar? Pois o barco de ponta-cabeça retornará ao outro plano e todos nós cairíamos ao infinito fundo do oceano!
O Capitão por sua vez, olha para o marujo que lançou a infame dúvida, vacila como sempre seu cacoete de mão na barriga, passando sempre a idéia de que está à frente de seus subordinados tripulantes, e retruca o argumento do jovem:
- Ora não seja tolo! Pois conheço eu tudo sobre a arte da náutica! Não há o que temer, ó homens do mar. O barco está quase afundando e sabem vocês o que há de acontecer? Pois vou lhes dizer: à medida que a nossa embarcação for afundando ela tende a desvirar num ângulo de 180º quando passar de uma superfície à outra. Assim voltaremos à superfície junto com o barco. Não se esqueçam das leis da gravidade! É a lógica da natureza!
Convencidos pela tamanha sabedoria do circunspeto capitão, todos os marinheiros se acalmam e aguardam pacientemente pela previsão do seu excêntrico superior.
O barco então afunda e, ao passar de um plano para o outro, ele cai em direção ao céu até, aos poucos, desaparecer nas densas nuvens, levando consigo toda uma tripulação amargurada que contempla tudo desiludida e descrente.



Contos Mijinianos #1 - O Grito

Contos Mijinianos #2 - Trem das Paisagens


Contos Mijinianos #3 - A Chuva


Contos mijinianos #4 - Pombos e anões


Contos Mijinianos #5 - Hotel Paranóia


Contos Mijinianos #5 - Hotel Paranóia


(Fonte: fotolog)


Quem matou Joaquim?
E por que mataram Joaquim?

Durante uma festa no hotel
uma coisa terrível aconteceu
lamentavelmente Joaquim foi assassinado...
começara tudo numa noite de dezembro
Inês e Lisandra bebiam tinta no corredor
Nonato sozinho no porão
é... foi quando Eclovaldo e Marinete se beijaram no elevador
Inês foi ao banheiro procurar dinossauros
a Doidona estava batendo um papo com a esposa de Joaquim

mais tarde Dulcinéia viu Joaquim e Lisandra na maior intimidade
apareceu depois na festa o sempre atrasado Jozeca
Toda vez isso sempre acontece
o Eclovaldo saiu para tomar ar fresco
Uma hora depois, Joaquim e Lisandra começam a discutir.

Joaquim retira-se da festa
o Eclovaldo entra para dentro do hotel
assustado com a chuva de batata-doce que caiu do céu
queria Jozeca receber o dinheiro que Joaquim estava devendo a um ano
um barulho de caixas caindo no porão é escutável
Inês encontra Lisandra chorando sentada na escada
Marinete vê Joaquim descendo até o porão.

Pensando em trair seu marido, Dulcinéia procura Eclovaldo
o Jozeca subiu para o terraço
rapidamente Doidona atira uma faca contra a parede
quando isso aconteceu, Nonato saiu do porão
Um grito masculino ecoou do 1º andar
e é bom lembrar que a festa ocorreu no antipenúltimo andar!

Eclovaldo esnoba Dulcinéia
sabendo do seu nível, Joaquim insulta Inês
Todas as luzes se apagam
a Marinete se apaixonou por Joaquim e logo se encontram
veio também Eclovaldo ao encontro deles
após Nonato sair do 1º andar, ele vai para o terraço

Contudo, Inês está furiosa e vai para o terraço à procura de Joaquim
o Nonato e o Jozeca também estão a procura dele
mas com a escuridão ficava difícil de procurar e quem estava no terraço desceu...

com essa bagunça toda Doidona resolve pegar uma faca
Inês de tanto beber tinta enlouquece
último a descer do terraço, Nonato carrega uma mala preta
Momentos depois, Lisandra reaparece
e Dulcinéia procura Joaquim
Sem saber de nada, Doidona planta bananeira

de repente, ouve-se o grito de Joaquim
e ninguém sabe o que aconteceu
Lisandra chega desesperada e conta o que aconteceu
Encontraram Joaquim morto com uma faca fincada no peito...

Quem matou Joaquim?
E por que mataram Joaquim?




Contos Mijinianos #1 - O Grito

Contos Mijinianos #2 - Trem das Paisagens


Contos Mijinianos #3 - A Chuva


Contos mijinianos #4 - Pombos e anões

  

Contos Mijinianos #6 - O barco

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Contos mijinianos #4 - Pombos e anões

Desde pequeno, uma coisa que eu nunca tinha visto e sempre me deixou com a pulga atrás da orelha era se alguém já tinha visto um filhote de pombo ou um enterro de anão.

(Fonte: desciclopedia)


Todos nós já estamos habituados a ver somente pombos adultos sobrevoando os céus e fazendo caca na cabeça das pessoas, assim como também só costumamos ver enterros de pessoas com estatura normal. Já cheguei a pensar, por exemplo, que os pombos já nasciam adultos e os anões não morriam, eles depois de uma certa idade, simplesmente se transformavam em enfeite de jardim.
Para tirar essa dúvida resolvi procurar um vidente que mora no finalzinho da minha rua. Ele além de administrar uma igreja lá no centro da cidade, ele também trabalha como vidente e tarólogo nas horas vagas.
Marquei uma consulta com ele e fui em seu local de atendimento. O ambiente em que ele atende é um misto de tecno-brega com gótico-homossexual.
Perguntei a ele sobre a origem dos pombos e o destino dos anões e ele, sentado em frente à uma mesa, pôs a mão num celular de cristal (não era pra ser uma bola?) e após um tempo o celular toca:
Trriiiiimmm Trrriiiiimmm!!!
- Ó sim, agora posso ouvir as vozes do além!!!!!!!!!!!!!!! Me dêem a resposta para as nossas angústias!!!!
E eu pensando:
- Nossa que dramático...!
Depois de alguns minutos, ele me disse que recebeu a resposta de um tal Anacoluto. Quando ele me esclareceu o mistério dos pombos e dos anões, eu fiquei chocado, com essa fenomenal descoberta. Com certeza, quando eu revelar isso para o mundo, a ciência tomará novos rumos (tá bom). O segredo é o seguinte:
- Os anões nascem e vivem até o fim de suas vidas, só que ao invés de morrerem ou virarem enfeites de jardim, eles se transformam em pombos adultos!!! É isso mesmo que você ouviu! É por isso que nunca vemos filhotes de pombo e nem enterro de anão!!!
Trriiiiimmm Trrriiiiimmm!!!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Contos Mijinianos #3 - A Chuva

No meu velho quarto me encontro trancado em meio ao negrume, de olhos abertos, mas sem poder enxergar um palmo da minha mão. Fico a observar o nada, tentando fitar algum rastro de luz vindo lá da noite escura, pela janela do meu quarto, transpassando a cortina azul. Porém, o céu da noite nada ilumina, apenas enegrece mais o vazio que vai de mim para o exterior. Assim permaneço em trevas, em busca de algo que não sei dizer, por isso nunca durmo, pois necessito esperar sempre lúcido.
(Fonte: flog)

Lá fora chove densamente. A água, que se sugere infinita, cai ensandecida e uniforme num ritmo tão intenso que, parece querer opor o seu poder a todos os seres terrestres. É como se quisesse engolir a cidade inteira.
Tudo o que sinto agora é o barulho da chuva e, no estado em que estou, mergulhado na fadiga de um dia enfadonho, meus sentidos parecem mais vivazes do que nunca. Sinto a água escorrendo por cima do telhado e precipitando sobre o jardim, molhando as rosas secas e outras plantas não menos amarrotadas. Delas as águas gotejam até o chão formando uma série de ruídos semelhantes e não aleatórios, que parecem querer fazer algum sentido no meio do chiado provocado pelo conjunto da tempestade. É algo que eu nunca havia reparado antes, mas mergulhando dentro desse chiado agressivo posso sentir lá no fundo um simbilar de gotas que pendem sempre de maneira caótica. A água que escorre do telhado faz ecoar um simbilante rasgado que se encontra com o simbilar das gotas no jardim e o simbilar enfurecido das enxurradas, que são como chuvas terrestres que se precipitam sempre em sentido horizontal, sem destino. O conjunto desses sons forma uma melodia muito particular, algo que eu nunca tinha provado a sensação. Pareço-me hipnotizado com o padrão encontrado na desordem da chuva. Essa música, às vezes, confundem meus sentidos, pois sinto a água molhando todo o exterior da casa, apesar de nada enxergar. Sinto a água dominando tudo ao redor do meu lar, tal qual um aquário às avessas, onde sou um peixe que não pode viver dentro do mar. Apenas observo sem poder nada ver.
A chuva é espessa e bate nos muros com bastante ódio. Ela parece querer se aproximar mais de mim, tentando penetrar a muralha que me mantém seguro. Pressagio a água escorrendo por dentro das paredes do meu quarto, mas eu olho para os lados e nada vejo, apenas sinto. A chuva parece dominar meu quarto, pois o chão encharcado pressagio, e mesmo assim não tenho ânimo para pôr um dos meus pés no chão para senti-lo umedecendo-se.
A melodia simbilante continua em ritmo intenso, e quando mais eu me deixo ser dominado por essa harmonia aquática, mais sinto meu quarto enchendo-se de água. Tenho a impressão que a chuva está precipitando apenas dentro do meu quarto, pois olho para a janela, transpassando a cortina azul para observar o céu, mas é em vão, pois nada vejo, apenas sinto.
Deitado na minha cama antiquada experimento a sensação de estar mergulhado dentro da água da chuva. Sinto-me completamente molhado, mas estou enxuto. Sinto-me sufocado pela falta de oxigênio, apesar de ele estar presente. Sinto-me tonto, com vontade de desmaiar, mas acho que estou apenas com sono. E enquanto a música que simbila infinitamente ao meu redor é executada pela chuva com maestria, sinto-me sensibilizado a ponto de me afogar no seco.


Contos Mijinianos #1 - O Grito

Contos Mijinianos #2 - Trem das Paisagens


Contos mijinianos #4 - Pombos e anões


Contos Mijinianos #5 - Hotel Paranóia


Contos Mijinianos #6 - O barco

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Contos Mijinianos #2 - Trem das Paisagens

...foi então que vi tudo se desmanchando no ar como poeira se dispersando diante de meus olhos estarrecidos, então acordei...

(Fonte: flog)


Ao abrir meus olhos vejo à minha frente uma poltrona, e à minha esquerda uma paisagem bucólica e serena passando pela janela. Oh sim, me dei conta que ainda estou de viagem. Minha avó me aguarda ansiosamente na próxima estação e o meu trem deve chegar lá por volta das 17h.
Estou bastante cansado e já perdi a noção de quanto tempo estou sentado aqui a observar a paisagem que sempre passa em direção contrária ao sentido do trem, como devia ser de fato. Vejo campos, montes, árvores, gado... Tudo passa por mim e eu só tenho oportunidade de ver cada minudência do exterior do trem num lance de vista apenas. É como minha vida, pois tudo o que fiz só tive oportunidade de desdobrar uma única vez, sejam erros ou acertos, não importa, tudo ficou pra trás e o que me resta é o presente que vivo. Porém o próprio presente vira passado num piscar de olhos, então o que me resta é viver dos fantasmas do passado, que são como uma paisagem que se movimenta no mesmo sentido do trem que me carrega. Assim como o rio que vejo agora, onde a correnteza cursa no sentido da estação que almejo chegar, apesar de ela passar pela janela. Desta forma, observo sempre o deslocamento das mesmas águas. Entretanto, passei a perceber que, na verdade, o rio acompanha o rumo das correntezas, como se o trem estivesse viajando a ré. Quando o rio se encerra no horizonte posso mesmo confirmar a minha teoria, pois vejo as montanhas passando pela janela na direção oposta do que seria lógico. Assim a paisagem parece acompanhar o ritmo do trem, como se este estivesse fazendo a viagem ao inverso e tudo o que aprecio agora pela janela parece me escoltar nesta viagem.
Este sentimento estranho que sinto por vivenciar algo incomum me trás a ingenuidade e a curiosidade da minha infância e volto a reviver aquilo que jamais pudera ter sonhado readquirir em minha vida: reviver o passado novamente. Este, tão incerto quanto às nuvens que ameaçam precipitar sobre a terra.
Fito as nuvens pesadas no céu, ávido de esquadrinhar a maneira como a chuva há de se exibir no meu universo particular. Ela, então passa a cair do céu, como devia ser e eu espreito com sublime interesse o seu percurso sempre de cima para baixo. O mais curioso é que os campos sugerem sempre a secura de um mês ensolarado, como se ignorasse a chuva que cai sobre si. Porque de fato, as coisas começam a ficar coerentes dentro da minha incoerente visão da paisagem que o exterior me brinda. Sim, os campos permanecem intactos porque a chuva precipita ao inverso, fazendo-me acreditar que ela implora para retornar ao céu. O frio que vem de fora não é mais lânguido que o frio que sofre a minha espinha na intensidade de uma clausura em um elevador desgovernado subindo em alta velocidade. Essa pressão faz com que o meu corpo seja comprimido contra a poltrona. Ora, mas o que há de acontecer com esse trem, que passa a acompanhar o ritmo da chuva às avessas? Tudo o que via antes sumiu da minha vista e tudo o que posso observar agora é o céu nebuloso e acinzentado pulsando em fachos de luzes brancas que passam a invocar uma grande tempestade.

(Fonte: flog)


Aqui dentro do trem há uma grande agitação. As bagagens estão reviradas por toda a parte e pessoas passam a correr sem sentido, se debatendo com grande furor. Apesar de todo o tumulto, eu prefiro tentar me manter colado à poltrona a observar pela janela o destino dessa viagem. As nuvens aparecem cada vez mais carregadas à medida que a chuva retorna para o céu, desafiando todas as leis da natureza.
Num determinado momento, a chuva resolve aprontar mais uma travessura contra a gente e passa a descarregar as nuvens com intensa ira, formando então um imenso temporal. Nada se vê mais pela janela além de água se chocando no trem como uma manada de búfalos! E como já era de se esperar, o trem passa a seguir o ritmo da natureza e se precipita junto com o temporal. Todos os passageiros são lançados ao teto de forma feroz, inclusive eu, que tentava manter a calma, sentado na minha poltrona a observar pela janela o cruel jogo supostamente protagonizado pela natureza. Lembrei da minha avó que me esperava na próxima estação, muito provavelmente trazendo uma barra de chocolate, como sempre fazia quando eu a visitava. Talvez essas sejam apenas lembranças que ficaram para trás, assim como tudo o que passava pela janela e que podia experimentar contemplar apenas uma única vez nessa viagem.
E após alguns segundos, sentimos um grande impacto, como se o trem tivesse atingido o rígido solo, e fomos todos lançados de forma violenta contra o chão. Tudo aconteceu em milésimos de segundos. Minha cabeça rachou no braço de uma poltrona e a última coisa que pude vislumbrar antes de perder a consciência foi tudo se desmanchando no ar como poeira se dispersando diante de meus olhos estarrecidos...
Então acordei.
Ao abrir meus olhos, meio bêbado de sono ouço alguém falando: “17 horas na estação”. Minha primeira reação foi me prostrar sobre a janela e olhar a paisagem, que de traquinice passou a brincar com os meus nervos irrequietos. Mas desta vez tudo o que havia diante dos meus olhos era uma paisagem estática, como um quadro na parede, e na minha mão uma barra de chocolate pela metade.



Contos Mijinianos #1 - O Grito


Contos Mijinianos #3 - A Chuva


Contos mijinianos #4 - Pombos e anões


Contos Mijinianos #5 - Hotel Paranóia


Contos Mijinianos #6 - O barco

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Contos Mijinianos #1 - O Grito


Quinze horas no meu relógio! Devo apressar-me para chegar até o prédio onde trabalho. Porém, como sempre, sem desembaraço, pois o chão que caminho é de vidro e não pode quebrar sob mim, visto que cairia eu num precipício sem limite.

(Fonte: fotolog)


Vivo diante desse martírio já que não suporto altura e me sinto sempre atraído pelo chão como quem está prestes a desmaiar, dominado por vertigens intensas. Dizem que os medos que carregamos conosco sempre procedem de algum trauma de infância, mas não lembro eu de algum momento decorrido que justifique meu pavor de altura.
E por mais que eu não quisesse me locomover diariamente para evitar o meu tormento, sou obrigado a levantar todos os dias da minha cama e pisar num chão de vidro. Escovo os dentes, tomo banho, me arrumo, saio de casa e percorro uma distância incomensurável até o prédio onde eu trabalho que é todo feito de vidro, assim como os outros prédios da cidade. Caminho sempre olhando para o alto e vez ou outra me vejo tropeçando num meio fio ou em uma saliência qualquer, e meu coração sempre dispara. Às vezes imagino que vou infartar qualquer dia desses, mas se meu coração já suportou a pressão de mais de três décadas vividas, porque iria vacilar agora?
Trabalho no 13º andar. Dizem que o número 13 dá azar, mas sou eu incrédulo demais para dar importância à tamanha tolice. Porém, ao mesmo tempo, me sinto um azarado, pois queria eu trabalhar no primeiro andar, ao invés do décimo terceiro. Lá do meu escritório daria para ver todos os demais dos andares inferiores, entretanto, há uma conduta de ética, onde ninguém pode olhar o que fazem os funcionários que trabalham nos andares abaixo e nos acima.
Curiosamente, já faz mais de oito anos que trabalho aqui e nunca vi ninguém olhando para cima ou para baixo. As pessoas sempre andam olhando para frente, às vezes de uma maneira tão mecânica que nem parecem que estão vivas! Parecem meros robôs programados para seguir determinadas normas de conduta e fazer tudo sempre do mesmo jeito. E parece tudo tão perfeito que me sinto incomodado e predisposto a ser antiético pelo menos uma vez na vida. Mas se fizesse eu tal descomedimento o que haveria de acontecer? Nenhum homem até hoje se atreveu a quebrar as leis regidas pelos nossos superiores, pelo menos até onde eu saiba, e por isso não faço ideia de quê tipo de punição eu experimentaria se me atrevesse a desobedecer, pois a lei não expõe tais conseqüências.
           Chegando ao meu escritório, enquanto procuro por algo que muito me interessa, percebo certa movimentação no andar abaixo. Seria algum dos seguranças? Pois nenhum dos funcionários trabalha aqui em dia de feriado nacional, apenas os seguranças. Porém ouço uma voz feminina, mas nenhuma mulher faz serviço de vigilância por aqui, então quem será? A mulher parece murmurar algo que não compreendo daqui de cima, mas parece aflita com algo.
Minha vista vacila, procurando observar alguma coisa contra a minha vontade, mas coloco uma mão sob ela, para evitar que isso aconteça. Minha mão, entretanto, quer sair por debaixo dos meus olhos e liberar tal contemplação misteriosa que me aguça a curiosidade.

(Fonte: fotolog)


De repente, ouço alguém batendo a porta violentamente e não é a misteriosa moça, ou seja, ela não está sozinha lá embaixo. O que será que acontece? Porque eu não posso ver? Privaram-me da liberdade de enxergar o que quero e a sociedade só me permite ver aquilo que eles me colocam como imposição? Ridículo! Se ninguém até hoje teve a ousadia de quebrar os tabus, serei eu o primeiro a contrariar os princípios estipulados pelo ser humano!
De súbito, virei minha cabeça para baixo e a primeira coisa que pude observar foi o grande abismo repartido pelos escritórios dos andares inferiores. Ao mesmo tempo, fui atacado por violentas vertigens causadas pelo pânico que tenho por altura! Meu coração acelerou, minhas pernas se desequilibraram e eu senti meu corpo ser puxado em direção ao chão. Procurei algo para me segurar, mas não tinha nada por perto e meu estado de pânico não me permitiu que movesse um dedo naquele momento. Só então me lembrei das pessoas que estavam no andar abaixo do meu: eram três homens e uma mulher, vestidos com um uniforme vermelho com algumas faixas azuis. Não eram do corpo de bombeiros, nem da polícia, nem para-médicos. Eram as únicas opções que me vinham à cabeça naquele momento, não conseguia mais raciocinar. Pude perceber o desespero estampado na cara deles quando me viram lá em cima deitado no chão os encarando com os olhos esbugalhados. Eles corriam desnorteados de um lado para o outro gritando, mas era estranho, pois eu nada ouvia. Parecia que eles tinham perdido a voz, ou será que eu quem tinha perdido a audição?
Tentei gritar lá de cima para perguntar o que estava ocorrendo, mas, por incrível que pareça, eu não consegui, perdi minha voz. Tentei gritar com todas as minhas forças e não consegui. Tive vontade de chorar, mas não dava conta, meus olhos estavam secos e o desespero atacava somente a minha alma, nada mais.
Repentinamente ouvi um zumbido vindo ao longe. Na verdade, não era bem um zumbido, mas um som agudo e penetrante que foi aumentando gradualmente, como se estivesse se aproximando. Enquanto isso observei a mulher em prantos apontando para o norte, enquanto os homens me encaravam com um olhar atordoante, como se quisessem dizer que eu fui culpado por algo, mas o que seria?
Virei minha cabeça vagarosamente em direção ao norte, e vi alguns prédios ao longe se estilhaçando por completo, lá de onde vinha aquele barulho ensurdecedor. E a cada segundo que passava, o barulho se intensificava em múltiplos crescentes. Minhas mãos nos ouvidos eram inúteis agora, meus tímpanos já tinham estourado e minha cabeça parecia querer explodir de tão insuportável dor que eu sentia. O sangue escorria latente sobre minhas mãos e os prédios mais próximos começaram a estourar. O mundo parecia estar em colapso! E quase para desmaiar senti o chão que me sustentava começando a trincar. O barulho intolerável parecia querer destruir tudo com bastante furor, como um deus ensandecido castigando as suas criaturas. De repente, o teto desaba sobre mim e acabo sendo perfurado por milhares de estilhaços de vidro que caem infinitamente em meu corpo que é lançado como um farrapo infinitamente no abismo ao redor de inúmeros cortantes que me flagelam incessantemente, ao som de um furioso barulho, ou melhor, de um grito.



 

Contos Mijinianos #2 - Trem das Paisagens


Contos Mijinianos #3 - A Chuva


Contos mijinianos #4 - Pombos e anões


Contos Mijinianos #5 - Hotel Paranóia


Contos Mijinianos #6 - O barco

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