segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Contos Mijinianos #2 - Trem das Paisagens

...foi então que vi tudo se desmanchando no ar como poeira se dispersando diante de meus olhos estarrecidos, então acordei...

(Fonte: flog)


Ao abrir meus olhos vejo à minha frente uma poltrona, e à minha esquerda uma paisagem bucólica e serena passando pela janela. Oh sim, me dei conta que ainda estou de viagem. Minha avó me aguarda ansiosamente na próxima estação e o meu trem deve chegar lá por volta das 17h.
Estou bastante cansado e já perdi a noção de quanto tempo estou sentado aqui a observar a paisagem que sempre passa em direção contrária ao sentido do trem, como devia ser de fato. Vejo campos, montes, árvores, gado... Tudo passa por mim e eu só tenho oportunidade de ver cada minudência do exterior do trem num lance de vista apenas. É como minha vida, pois tudo o que fiz só tive oportunidade de desdobrar uma única vez, sejam erros ou acertos, não importa, tudo ficou pra trás e o que me resta é o presente que vivo. Porém o próprio presente vira passado num piscar de olhos, então o que me resta é viver dos fantasmas do passado, que são como uma paisagem que se movimenta no mesmo sentido do trem que me carrega. Assim como o rio que vejo agora, onde a correnteza cursa no sentido da estação que almejo chegar, apesar de ela passar pela janela. Desta forma, observo sempre o deslocamento das mesmas águas. Entretanto, passei a perceber que, na verdade, o rio acompanha o rumo das correntezas, como se o trem estivesse viajando a ré. Quando o rio se encerra no horizonte posso mesmo confirmar a minha teoria, pois vejo as montanhas passando pela janela na direção oposta do que seria lógico. Assim a paisagem parece acompanhar o ritmo do trem, como se este estivesse fazendo a viagem ao inverso e tudo o que aprecio agora pela janela parece me escoltar nesta viagem.
Este sentimento estranho que sinto por vivenciar algo incomum me trás a ingenuidade e a curiosidade da minha infância e volto a reviver aquilo que jamais pudera ter sonhado readquirir em minha vida: reviver o passado novamente. Este, tão incerto quanto às nuvens que ameaçam precipitar sobre a terra.
Fito as nuvens pesadas no céu, ávido de esquadrinhar a maneira como a chuva há de se exibir no meu universo particular. Ela, então passa a cair do céu, como devia ser e eu espreito com sublime interesse o seu percurso sempre de cima para baixo. O mais curioso é que os campos sugerem sempre a secura de um mês ensolarado, como se ignorasse a chuva que cai sobre si. Porque de fato, as coisas começam a ficar coerentes dentro da minha incoerente visão da paisagem que o exterior me brinda. Sim, os campos permanecem intactos porque a chuva precipita ao inverso, fazendo-me acreditar que ela implora para retornar ao céu. O frio que vem de fora não é mais lânguido que o frio que sofre a minha espinha na intensidade de uma clausura em um elevador desgovernado subindo em alta velocidade. Essa pressão faz com que o meu corpo seja comprimido contra a poltrona. Ora, mas o que há de acontecer com esse trem, que passa a acompanhar o ritmo da chuva às avessas? Tudo o que via antes sumiu da minha vista e tudo o que posso observar agora é o céu nebuloso e acinzentado pulsando em fachos de luzes brancas que passam a invocar uma grande tempestade.

(Fonte: flog)


Aqui dentro do trem há uma grande agitação. As bagagens estão reviradas por toda a parte e pessoas passam a correr sem sentido, se debatendo com grande furor. Apesar de todo o tumulto, eu prefiro tentar me manter colado à poltrona a observar pela janela o destino dessa viagem. As nuvens aparecem cada vez mais carregadas à medida que a chuva retorna para o céu, desafiando todas as leis da natureza.
Num determinado momento, a chuva resolve aprontar mais uma travessura contra a gente e passa a descarregar as nuvens com intensa ira, formando então um imenso temporal. Nada se vê mais pela janela além de água se chocando no trem como uma manada de búfalos! E como já era de se esperar, o trem passa a seguir o ritmo da natureza e se precipita junto com o temporal. Todos os passageiros são lançados ao teto de forma feroz, inclusive eu, que tentava manter a calma, sentado na minha poltrona a observar pela janela o cruel jogo supostamente protagonizado pela natureza. Lembrei da minha avó que me esperava na próxima estação, muito provavelmente trazendo uma barra de chocolate, como sempre fazia quando eu a visitava. Talvez essas sejam apenas lembranças que ficaram para trás, assim como tudo o que passava pela janela e que podia experimentar contemplar apenas uma única vez nessa viagem.
E após alguns segundos, sentimos um grande impacto, como se o trem tivesse atingido o rígido solo, e fomos todos lançados de forma violenta contra o chão. Tudo aconteceu em milésimos de segundos. Minha cabeça rachou no braço de uma poltrona e a última coisa que pude vislumbrar antes de perder a consciência foi tudo se desmanchando no ar como poeira se dispersando diante de meus olhos estarrecidos...
Então acordei.
Ao abrir meus olhos, meio bêbado de sono ouço alguém falando: “17 horas na estação”. Minha primeira reação foi me prostrar sobre a janela e olhar a paisagem, que de traquinice passou a brincar com os meus nervos irrequietos. Mas desta vez tudo o que havia diante dos meus olhos era uma paisagem estática, como um quadro na parede, e na minha mão uma barra de chocolate pela metade.



Contos Mijinianos #1 - O Grito


Contos Mijinianos #3 - A Chuva


Contos mijinianos #4 - Pombos e anões


Contos Mijinianos #5 - Hotel Paranóia


Contos Mijinianos #6 - O barco

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