terça-feira, 14 de dezembro de 2010

FOP – A Prisão de ossos

Imagine o quão ruim deve ser você passar o resto de seus dias encarcerado numa prisão, sendo privado de tudo o que você gosta de fazer: praticar esportes, dançar, namorar, viajar... É uma sensação claustrofóbica, ainda mais levando em conta que você divide um pequeno espaço com várias outras pessoas. Agora imagine o quão horrível deveria ser se essa prisão surgisse dentro de você e te prendesse internamente lhe privando de todos os seus movimentos. Difícil de imaginar? Pois é, mas essa sensação é real e surgiu na forma de uma doença raríssima conhecida como FOP – Fibrodisplasia Ossificante Progressiva. Essa enfermidade faz com que danos causados em ligamentos, tendões e músculos se transformem em ossos. E o que acontece se uma articulação ossifica? Ela fica paralisada permanentemente evitando que o indivíduo se movimente. Mesmo se essa ossificação for removida é inútil, pois a área da remoção da ossificação voltar a ossificar num processo semelhante à cicatrização. Com a progressão da doença, o indivíduo passa a ter um segundo esqueleto por cima daquele que ele já possui. Em alguns casos a doença pode ser erroneamente diagnosticada como câncer, fazendo com que exames, como a biopsia, contribuam para a evolução da ossificação pelo corpo do paciente.


Esqueleto de Harry Eastlack (Fonte: wgate)

O caso mais impressionante de FOP pertence ao americano Harry Raymond Eastlack. Ele nasceu em 1933, na Filadélfia, Pensilvânia, EUA e, aos 5 anos de idade, teve uma fratura na perna esquerda, quando brincava com sua irmã, e essa fratura trouxe algumas complicações, pois o local onde houve a lesão se tornou rígido, como se tivesse criado por dentro da pele uma placa. Aos poucos essa rigidez foi se espalhando pela coxa e pelos quadris, era o processo de ossificação progredindo pelo corpo do menino. Isso se tornou mais intenso entre os 10 e 20 anos de idade, quando suas vértebras começaram a se fundir. Aos 30 anos Harry já tinha boa parte do corpo paralisado, ficando impossibilitado de exercer várias atividades comuns do cotidiano. Em 1973, ele morreu de pneumonia, seis dias antes do seu aniversário de 40 anos. Nessa época Harry já tinha todo o corpo completamente ossificado, inclusive sua mandíbula, que também não se movimentava mais, deixando-o capaz de mover apenas os lábios. Antes de morrer ele permitiu que seu esqueleto fosse preservado para pesquisas científicas e atualmente está exposto no Museu Mütter, na Faculdade de Medicina da Filadélfia. Seu esqueleto se tornou um dos poucos preservados e se tornou um importante material para o estudo da doença.


Harry Eastlack e seu esqueleto (Fonte: wgate2)

A FOP não é caracterizada por antecedentes da doença na família, logo sua causa é atribuída a uma mutação esporádica. É uma enfermidade incapacitante em crianças e adultos jovens e o sinal mais comum da FOP pode ser identificado ainda no nascimento quando há má formação dos dedões dos pés, apesar dos médicos não entenderem a relação de uma coisa com a outra. Outro sintoma que surge até os 20 anos de idade, mais ou menos, é um grande inchaço que se forma geralmente na região do pescoço e/ou costas e cresce rapidamente. A região fica avermelhada, dolorida e quente, e, à primeira vista, pode ser confundido com um tumor, entretanto, com o tempo, esse inchaço diminui, a dor some, e no lugar do inchaço se forma uma placa óssea. Esses inchaços são conhecidos como ‘surtos’ e ocorrem durante toda a vida do indivíduo. Dessa forma, qualquer tipo de lesão por mais ínfima que seja, pode causar um surto, portanto, os movimentos do corpo do indivíduo podem ser perigosamente afetados, pois basta uma manifestação de um surto para que a região onde ele ocorreu fique paralisada por uma formação óssea. Uma simples batida numa articulação pode paralisar para sempre todo o membro, pois mesmo que a placa óssea seja removida, outra irá surgir no local, ou seja, não tem cura para a FOP.

Esqueleto tomado pela FOP e sinal de má formação nos dedões como indícios da FOP (Fonte: howstuffworks)


Em algumas pessoas a doença progride lentamente, enquanto em outras ela é rápida, logo é imprevisível determinar como ela vai se desenvolver em um certo indivíduo. A ocorrência dos surtos varia de pessoa pra pessoa, ou seja, enquanto uns demoram meses ou até mesmo anos para desenvolver um surto, outros possuem surtos freqüentemente criando novas formações ósseas pelo corpo, sendo que, não necessariamente é preciso que haja uma lesão para que ossos se formem em determinado músculo. Até onde se sabe não existe um tratamento adequado para FOP, já que qualquer intervenção cirúrgica é suficiente para o surgimento de novos surtos, até mesmo uma vacina no músculo ocasiona surtos na região. A remoção da ossificação resulta numa nova ossificação, porém mais densa que a anterior. É uma verdadeira prisão se formando no interior do acometido pelo problema.


Coluna calcificada (Fonte: howstuffworks)

Como existem poucos relatos de pessoas com FOP, é difícil conduzir um estudo para a criação de um remédio eficaz para bloquear o receptor hiperativo que causa a formação dos ossos. Alguns corticosteróides e antiogênicos, segundo relatos, tem apresentado alguma utilidade no processo de inibição dos surtos. O ideal é que o portador de FOP tenha condições de ter um bom plano de saúde, acompanhamento de um profissional da saúde e de modificar sua casa para evitar acidentes e facilitar a locomoção daqueles que utilizam cadeiras de rodas, devido ao processo de paralisação do corpo.


Criança com indicativo de surto nas costas (Fonte: wgate)

Com a evolução da ciência os estudos da FOP estão evoluindo cada vez mais e a chave para o segredo do processo de formação básica dos ossos está perto de ser encontrada. Com essa chave será possível que muitas pessoas que sofrem desse mal sejam libertadas de sua prisão interior.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Goddess Bunny - a rainha da noite underground

Há uns anos atrás um vídeo surgido no youtube gerou muita polêmica. Algumas das versões mostravam sons e imagens distorcidas entrecortados por cenas de uma mulher deformada que dançava bizarramente e ficava te encarando enquanto a câmera fechava um close na sua sombria face. Muitos que assistiram ficaram com medo, outros acharam graça (eu me encaixo na primeira opção). A lenda que girava em torno do vídeo dizia que ele foi criado por um grupo de transexuais satanistas que pertenciam a uma associação secreta que tinha como objetivo ganhar almas para o diabo através de mensagens subliminares inseridas neste vídeo em questão. Ele se chama “Obedece a la Morsa”.

Obedece a La Morsa (Fonte:1977voltios)
O tal grupo a serviço do demônio é conhecido como “La Morsa” e dizem que sua localização foi identificada em Lisboa, Portugal; Bremerhaven, Alemanha; e Fortaleza, Brasil. Até onde essa história é verdade?
Como já foi esclarecido em muitos sites, o grupo La Morsa nunca existiu, o vídeo era só mais um dos milhares de vídeos virais sensacionalistas que borbulham pela Internet. E a dançarina deformada? Essa sim é real, com uma única correção: não é uma mulher e sim uma drag queen e as cenas dela dançando fazem parte de um filme independente lançado em 1998 nos Estados Unidos que é chamado “Goddess Bunny” que conta a história de sua vida.


Cena do documentário Goddess Bunny (Fonte: paris-la)

O título do documentário dirigido por Nick Bougas é justamente o nome artístico de Johnnie Baima, um homossexual que padeceu de deformações provenientes da poliomielite que teve e, mesmo enfrentando essa e outras dificuldades, como o abandono dos pais, ele superou seus traumas e se tornou conhecido no cenário underground de Los Angeles e Califórnia como cantora, bailarina, atriz e modelo.


Baima de cara limpa (Fonte: forum.dead-donkey)

Johnnie Baima teve uma vida muita conturbada. Quando criança, ao padecer da poliomielite, sofreu uma terapia negligente por parte dos médicos que lhe implantaram uma barra de aço na coluna vertebral que vai de uma ponta a outra e esta, tinha o objetivo de reforçar a coluna fragilizada, mas causou o efeito contrário ao afetar seriamente sua postura e impedir o seu crescimento natural. Até onde se sabe, a barra não foi retirada até hoje. Baima relata ainda no documentário de Bougas que sofreu abusos sexuais pelos lares adotivos que passou durante a infância e foi estuprado na adolescência por um bando de delinqüentes. Na fase adulta se tornou Drag Queen e mudou seu nome para Sandy Crisp, com o qual começou a ganhar popularidade no meio gay e transgênero de Hollywood. Em 1986 fez um trabalho como modelo do fotógrafo Joel-Peter Witkin onde realizou o nu artístico para a obra fotográfica Leda, que foi exposta em Los Angeles e depois foi exibida em outras exposições pelo mundo. Posteriormente viria a adotar a alcunha de Goddess Bunny e passou a se apresentar em lugares alternativos como cantora e dançarina. Além disso virou anfitriã de eventos glbt onde ela apresentava personalidades gays, lésbicas e transgêneros.


Goddess Bunny e fã (Fonte: myspace)

Depois de já ter estabelecido uma certa fama no meio underground, Baima chama a atenção do diretor Nick Bougas que resolve fazer o já comentado filme independente Goddess Bunny que conta os percalços pelos quais Baima passou para chegar até onde chegou e o estigma de ‘Johnnie Baima’, o ser real, sem estar dentro da personagem que o popularizou mundialmente, principalmente através do estranhíssimo hoax Obedece a La Morsa. Na época que gravou este documentário, Johnnie casou-se com um ex-presidiário chamado Rocky, libertado recentemente naquela ocasião. Foi morar com ele e sua sogra, uma cristã fervorosa. Não demorou muito para que os conflitos entre eles se tornassem freqüentes, devido a não aceitação da mãe de Rocky pela estranha relação mantida entre o filho e a drag. Dentro de pouco tempo resolveram se divorciar e Baima teve que ir embora. Passou então a buscar um lugar estável para viver, mas até hoje, devido a seu aspecto físico e a sua vocação artística não consegue permanecer por muito tempo em algum lugar.


Goddess Bunny durante apresentação em casa noturna (Fonte: commons.wikimedia)

Mesmo diante de todas essas dificuldades a Goddess Bunny batalha diariamente pra se manter em evidência no cenário artístico. Já chegou a fazer uma participação no videoclipe The Dope Show, do Marilyn Manson e continua se apresentando pelas noites americanas provando que deficiência física e traumas do passado não são motivos pra desistir de sonhar e lutar por sua felicidade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Fazendo arte com moedas


Sabe aquelas moedas de 1 centavo que você detesta receber como troco? Não sabe o que fazer com elas? Que tal fazer isto:

(Fonte: coinstacking)

(Fonte: coinstacking)


(Fonte: coinstacking)


(Fonte: coinstacking)

Um detalhe: todas essas esculturas de moeda foram feitas sem o uso de nenhuma cola ou adesivo ou qualquer outro tipo de suporte às estruturas. É conhecida como coin stacking, acá, a arte de empilhar moedas. A graça desta modalidade está justamente no fato de desafiar as leis da física tentando construir monumentos de moedas sem a utilização de nenhum artifício. Na verdade o termo correto não seria ‘desafiar as leis da física’, mas sim se beneficiar dela.
O que mantém essas estruturas de pé é a relação existente entre a densidade, a resistência da moeda e o atrito entre um objeto e o outro. Vamos tomar como exemplo a primeira imagem: nesse caso, a moeda de cima tem que estar com o centro de massa apoiado na beirada da de baixo. Ainda poderia se considerar numa situação limite, que a moeda de cima tivesse o seu centro de massa apoiado em outra parte da moeda inferior. Mas dependendo de onde se localiza o centro de massa de toda a estrutura, o deslocamento de uma moeda em relação à outra não poderia ultrapassar os 50% senão a pilha de moedas desabaria. Ainda podemos concluir pelo tamanho da estrutura que quanto maior for o deslocamento da posição do objeto e maior for a área de contato entre eles, maior poderá ser o número de moedas utilizadas para elevar ainda mais o monumento.


(Fonte: coinstacking)

Apesar de extremamente complexo essas pilhas de moedas, ao se tentar fazer algo semelhante você verá que não é tão difícil quanto parece. Vou mostrar um passo a passo de como fazer uma estrutura de moedas empilhadas:

1º Passo

Quebre aquele seu potinho de moedas de um centavo, empilhe 10 tostões e use sua mão para deixá-los bem uniformes umas sobre as outras.


(Fonte: wikihow)

2º Passo

Crie uma tríade de moedas cuidadosamente em cima dos 10 tostões.


 
(Fonte: wikihow)

3º Passo

Coloque outra tríade em cima da tríade anterior. Continue adicionando tríades até conseguir a altura desejada.

(Fonte: wikihow)


4º Passo

Repita os passos acima para criar outra coluna com o mesmo tanto de tríades que você inseriu na primeira coluna. Após isso aproxime as duas colunas.



(Fonte: wikihow)

5º Passo

Conecte a ponte acrescentando um tostão por vez em cada extremidade levando a nova pilha em direção ao centro como na imagem a seguir:


(Fonte: wikihow)

6º Passo

Expanda novamente a ponte criando mais uma tríade em cima de cada pilha. Com isso você criará uma ponte com a largura de duas moedas, como na foto.


(Fonte: wikihow)

7º Passo

Enlargueça mais uma vez a ponte criando mais uma camada de tríades de centavos. Após isso você pode criar mais colunas para juntar às duas já criadas. Se pretende construir andares muita atenção para a distância entre as colunas. Quanto maior à distância entre elas maior deverá ser a camada de tríades necessárias para suportar um novo andar.


(Fonte: wikihow)

(Fonte: minhathoca)

A partir daí você pode se aventurar por estruturas mais complexas, as possibilidades são infinitas!

(Fonte: coinstacking)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Crianças enterradas vivas - Uma triste realidade indígena

No artigo sobre os funerais de Toraja eu havia comentado sobre a questão da cultura em diferentes regiões do mundo, onde eventos que nos parecem bizarros, para determinados povos não os são. Mas será que não existe limite para os extremismos culturais que, muitas vezes, envolvem sacrifícios banais em nome de uma tradição que no mundo moderno soa ultrapassada e sem sentido?


Infanticídio (Fonte: convulssion)

Uma organização sem fins lucrativos conhecida como ‘ATINI – Voz pela Vida’ desenvolveu um projeto em defesa da luta contra as práticas do infanticídio no mundo. Segundo eles, todos os anos centenas de crianças são sacrificadas em nome de uma tradição cultural seguida por determinados povos.  Na África Central e Ocidental, por exemplo, recém-nascidos que nascem com alguma deficiência são alvos de um preconceito extremo e são deixados à sorte até morrerem, o que geralmente causa alívio para todos. Na Índia, a família tem preferência pelas crianças do sexo masculino e, por essa razão, muitas mulheres são levadas a abortar o bebê quando descobre que é do sexo feminino. Além disso, as meninas são obrigadas a comer o resto de comida dos pratos dos meninos, geralmente adoecem mais e são as últimas a serem atendidas no sistema de saúde. Em algumas regiões de Camarões, Gabão, Nigéria e Libéria, crianças sensíveis e sonhadoras são acusadas de terem poderes diabólicos e são ligadas a eventos relacionados a acidentes e infortúnios. Em Benin, para uma criança ser morta basta ser encaixada em um desses requisitos: que na hora do parto saia primeiro os pés, ombros ou nádegas; que nasça com o rosto virado para baixo; que a mãe morra durante o parto; que nasçam primeiro os dentes inferiores, ou que simplesmente  não nasçam até os 8 meses de idade. Os pais ainda são obrigados a presenciar tudo e pagar pelo serviço. Um absurdo!

Campanha: Violência contra a criança (Foto: mesquita)
Aqui no Brasil também há registros de infanticídio em algumas tribos. O critério para determinar se uma criança deve ou não ser sacrificada é o fato de ela ter nascido com alguma deficiência física ou mental, de serem gêmeos, ou nascer de uma relação extra-conjugal. Uma grande discussão tem sido levantada em torno desse assunto, entre os defensores da prática em nome da preservação da cultura e aqueles que são a favor do fim dos sacrifícios. Aí nos perguntamos novamente: até onde uma tradição troglodita deve ser tolerada?
Isso me faz lembrar da era medieval onde a igreja concentrava o poder e matava milhares de pessoas em nome de Deus durante a inquisição. O propósito disso era claro, enquanto ela mantinha o povo sob controle permanecia inatingível. Depois que perdeu sua força com o tempo, hoje se limita a emitir opiniões condenando determinadas práticas como o uso da camisinha, numa época onde doenças como a Aids estão proliferando por todas as partes.

Criança indígena sendo enterrada viva (Fonte: Internationalsurvival)

Criança indígena sendo enterrada viva (Fonte: Internationalsurvival)

A ATINI, em 2008 lançou um documentário chocante sobre a prática de se enterrar crianças vivas, consideradas ‘amaldiçoadas’, em algumas tribos brasileiras. O nome do documentário é ‘Hakani, Enterrada Viva – a história de uma sobrevivente’ e conta a história de uma jovem índia chamada Hakani que nasceu 1995, numa tribo suruwaha, semi-isolada no sul da Amazônia. Como ela não se desenvolveu bem até os dois anos − tinha hipotireoidismo congênito − ela foi rejeitada pela tribo e seus membros pressionaram os pais de Hakani para que eles a sacrificassem. Porém o peso de ter que matar um filho foi demais para eles e os pais da menina resolveram se suicidar, deixando a indiazinha e um irmão órfãos. Sobrou então para o irmão mais velho a responsabilidade de matar a menina. Ele a levou para um local próximo a maloca, cavou uma cova rasa e a enterrou viva diante de alguns índios. Dentro da terra ainda dava para ouvir o choro abafado da criança (alguns relatos dizem que crianças enterradas vivas passam horas chorando debaixo da terra antes do silêncio prenunciar sua morte). Porém, antes que o choro de Hakani fosse silenciado seu irmão a desenterrou e a levou para o avô. Como se não bastasse todo esse drama, a tribo voltou a pressionar a morte da menina e coube ao avô essa triste responsabilidade. Ele tentou sacrificar a criança com uma flecha no coração, mas errou o alvo e atingiu o ombro da menina. Resultado disso: seu remorso pela situação foi tão grande que resolveu tomar um veneno conhecido como timbó e veio a falecer também. Aos 2 anos e meio a pequena índia viveu em condições subumanas na tribo onde era considerada um ser amaldiçoado. Porém, sua vida finalmente teve uma reviravolta depois de 3 anos de sofrimento físico e psicológico com o povo suruwaha. Hakani finalmente foi resgatada por um de seus irmãos e levada até um casal de missionários, Márcia e Edson Susuki, que trabalhava com o povo suruwaha a mais de 20 anos. Comovidos com a história de vida da garota eles passaram a cuidar dela como se fosse sua própria filha. Para se ter uma idéia do estado deplorável em que a menina se encontrava, ela, com 5 anos de idade, pesava apenas 7 quilos e media 69 centímetros de estatura. Os missionários decidiram posteriormente pedir permissão para o governo para poder adotar Hakani e levá-la para a cidade. Recebendo carinho e tratamento adequado, dentro de pouco tempo Hakani voltou a falar e a andar e o inocente sorriso que havia sido perdido há tempos voltou a brotar do seu rosto.

Hakani: um exemplo de luta pela vida (Fonte: hakani)

Hakani com seus pais adotivos e com o diretor David Cunninghan (Fonte: Fotolog)

Atualmente Hakani, aos 14 anos, está morando em Brasília, cursando a quinta série do ensino fundamental, fazendo aulas de natação e curso de inglês. Além disso, ela continua fazendo terapia para se livrar dos traumas ocorridos no passado. Em 2008 esteve em Washington com seus pais adotivos, durante a exibição do documentário que leva o seu nome, e na época do documentário, teve um emocionado reencontro com o irmão que a salvou de ser enterrada viva. É com certeza um exemplo de luta pela sobrevivência em meio a uma sociedade subversiva.
O documentário em si merece algumas observações importantes. Apesar de parecer extremamente chocante (quem não viu pode conferir no youtube buscando Hakani nas pesquisas) com cenas da criança Hakani com terra na boca chorando e sendo enterrada viva, as cenas não são reais. Segundo a ATINI, os índios que aparecem no vídeo são sobreviventes do infanticídio nas comunidades indígenas e a criança sendo enterrada não é Hakani. A terra que cobre a criança é pó de chocolate para fazer bolo, e segundo o diretor norte-americano David Cunningham, criador do documentário, ninguém se machucou durante a produção do vídeo. Agora os relatos de sobreviventes e pais que tiveram seus filhos enterrados são reais e mostram um drama que a organização tenta combater junto a grupos indígenas que defendem o fim dos sacrifícios de crianças nas tribos brasileiras.


Hakani e seu irmão (Fonte: inovavox)
É nesse contexto que o embate entre antropólogos que defendem a prática do sacrifício de crianças se insere. Imaginemos um documentário na África, onde um filhote de elefante se encontra sozinho no meio da savana. Ele é surpreendido por um grupo de leoas que começam a atacá-lo. A pessoa que está ali gravando o documentário está acompanhada de habitantes da região, armados com pistolas de dardos tranquilizantes. Apesar de estarem comovidos com a situação do pobre elefantinho eles não fazem nada. Por quê? Por que eles não vão lá e tentam intervir antes que o pobre animal vire refeição de um covarde grupo de leoas famintas? Eis a questão, para eles aquilo faz parte da vida na savana, é a lei onde o mais forte sobrevive. Eles não se intrometem na ação das leoas porque aquilo era para ser assim mesmo, é a ordem natural das coisas. Essa é justamente a visão de alguns antropólogos em relação ao caso dos infanticídios nas tribos indígenas. Eles consideram os sacrifícios como algo natural na cultura indígena. É algo que achamos desprezível, mas não podemos intervir. É como no caso dos rituais de Toraja, onde o maciço sacrifício de animais parece algo sem propósito, mas para eles tem um sentido muito maior, um sentido divino. Inclusive grupos como o “International Survivor” criticam duramente a organização ATINI, por suas intervenções nas culturas indígenas, alegando que na verdade o único objetivo da organização é a destruição das tradições indígenas e conseqüentemente da identidade desse povo. É uma discussão bastante complexa que se desdobra em muitos casos onde extremismo cultural vive chamando a atenção da mídia internacional, como o drama recente de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma mulher iraniana que é acusada de adultério e foi condenada a execução, mediante protestos pipocando por várias partes do mundo.




Extremismo não tem religião (Fonte: revistaforum)

Para mim esses casos são condenáveis, mas é muito complexo se falar em mudanças na cultura de um povo, pois a proibição desses rituais, dessas posições religiosas e políticas, trazem à sociedade uma transformação considerável, mas assim como trás benefícios, trás também prejuízos que podem ser considerados maiores do que aqueles problemas primariamente questionados. Atrevo-me até a fazer uma citação a uma das obras mais conhecidas de Orwell: “A Revolução dos Bichos”, onde após o controle da fazenda pelos animais, as expectativas de melhoras naquela sociedade se diluíram, quando eles viram que o que era ruim acabou ficando ainda pior. Ou seja, uma mudança sempre vem acompanhada de fatores positivos e negativos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O mundo dos pesadelos

Eu estava sentado no sofá, na sala da minha antiga casa. Tinha mais ou menos uns 12 anos de idade quando isso aconteceu. Na minha frente tinha uma estante de madeira onde ficava a TV, o vídeo cassete e umas louças da minha mãe. Do lado direito tinha um quadro do Charles Chaplin na parede que sempre me pareceu bastante tenebroso. Ele mostrava um semblante ruim e me encarava o tempo todo. Num determinado momento ele saiu do quadro e começou a me perseguir. Saí da sala rapidamente e corri para o corredor que dava no quarto dos meus pais. Antes que pudesse alcançá-los, aquele Chaplin com olhar demoníaco me agarrou, aí acordei.

Uma representação artística do pesadelo (Foto: meninadeplantao)
Hoje em dia esse tipo de pesadelo me soa bastante tosco, mas na época em que o tive, me cagava de medo de voltar pra cama. Quem já não teve um sonho ruim onde você era perseguido, assombrado por monstros ou caía num precipício? Esses sonhos negativos geralmente concatenam memórias do passado e formam pequenas histórias onde você se situa de alguma maneira inusitada. São predominantemente perturbadores e costumam causar uma opressão torácica e dispnéica, seguidos de um despertar agitado e angustiante.


Sucubus e Incubus (Foto: abismodaobscuridao)

A origem da palavra pesadelo vem do inglês nightmare, onde o mare significa demônio noturno, de acordo com o inglês antigo. Essa palavra, por sua vez originou-se do germânico maron, que significa ‘duende, ser fantástico’. A palavra nigthmare, durante a idade média, fazia referência a um demônio conhecido como Incubus. Este ser era semelhante aos vampiros e tinha o hábito de invadir o quarto de mulheres durante a noite para deitar sobre seus corpos e forçá-las a fazerem sexo, sugando suas energias vitais. Os homens, por sua vez, eram atacados da mesma forma pela Sucubus, uma versão feminina do Incubus, e o resultado desses ataques variavam de um irresistível prazer a um grande pânico. Segundo a demonologia tanto um quanto o outro descende do mesmo demônio onde sua forma varia de acordo com o sexo da pessoa que ele ataca.
A importância que atribuímos aos pesadelos varia muito de cultura para cultura. Por exemplo, enquanto numa o pesadelo está relacionado a fenômenos espirituais ou sobrenaturais, para outra sua causa pode estar associada a distúrbios mentais ou físicos. No nosso caso, o pesadelo pode estar associado a pessoas, situações e acontecimentos que fizeram parte do nosso dia-a-dia. O estresse físico e mental proveniente de problemas que enfrentamos no nosso cotidiano pode ser um dos principais fatores de sonhos ruins.


O sonâmbulo Brian Thomas e Sua mulher Christine(Fonte: thisissouthwales)

Um caso ocorrido no final do ano passado chamou a atenção da mídia: o britânico Brian Thomas com histórico de sonambulismo, durante um pesadelo que teve, acabou estrangulando sua mulher Christine, de 57 anos, acidentalmente! Eles estavam passando suas férias em um acampamento no País de Gales, quando Thomas atacou sua mulher no meio da noite. Ao acordar e se dar conta do que fez ele imediatamente ligou para a emergência comunicando o que havia ocorrido e pedindo socorro. O sonâmbulo disse o seguinte à atendente do serviço de emergência: “Acho que matei minha mulher. Meu Deus... Achei que um ladrão tinha entrado. Eu estava brigando com ele, mas era a Christine. Eu devia estar sonhando. O que eu fiz?
O que eu fiz? Vocês podem mandar alguém aqui?”.
Mas já era tarde, pois Christine já havia falecido e, quando as autoridades chegaram no local, acharam Thomas tremendo, chorando e balbuciando: “Ela é tudo pra mim...”.
A gravação de sua conversa com a atendente do serviço de emergência foi utilizada em uma das audiências de seu julgamento, na cidade de Swansea. A promotoria não buscou sentenciá-lo por homicídio, mas por insanidade. Porém, essa insanidade não seria entendida num sentido literal, mas no sentido de que, por estar dormindo, ele não tinha o controle da situação.
Thomas sofria desse distúrbio desde os 9 anos de idade e um exame feito por um grupo de médicos confirmou que ele sofreu naquela noite de automatismo (distúrbio em que o subconsciente toma o controle do indivíduo). A promotoria queria encaixá-lo no caso de automatismo insano, sendo que na lei britânica existem duas hipóteses: a do automatismo insano e a do não insano. Entretanto, se Thomas for encaixado nessa pena, será submetido a um tratamento psiquiátrico em um hospital e ainda poderá ser preso por tempo indefinido. Por conta disso, seus advogados de defesa estão tentando mudar o veredicto para automatismo não-insano, para que o réu possa ser absolvido. Ele estava casado a 39 anos e tinha duas filhas. Esse foi o pesadelo vivido por Brian Thomas que saltou do subconsciente para a sua realidade, transformando sua vida num inferno. Apesar de ser um evento bastante inusitado, faz parte das características do sonâmbulo, fazer coisas que ele faria se estivesse acordado: andar, comer, urinar, realizar tarefas comuns e até sair de casa, tudo isso sem consciência e possibilidade de se comunicar com alguém.

(Fonte: pepita)
Contudo, diferente do caso de Thomas, onde ele foi dominado por seu pesadelo, podemos dominar nossos sonhos intranqüilos a partir do momento em que começamos a compreender o que representam todas aquelas mensagens entrelaçadas num sonho. Tudo o que se passa num pesadelo está relacionado à nossa insegurança quanto a alguma coisa vivida no nosso dia-a-dia. Se você está correndo o risco de perder o emprego, a sua angústia em relação a isso será um prato cheio para um pesadelo perturbador. Agora se você resolve enfrentar determinada situação isso pode contar a seu favor. Exemplo: se você sonha com assombração, antes de dormir pode mentalizar como você irá desafiar isso, mostrar o quanto isso não lhe atinge. No meu caso, sempre tive muitos pesadelos quando era pequeno, pois tinha medo de muitas coisas, entre elas o escuro. Quando passei a enfrentar meus medos no mundo real, as assombrações nos pesadelos passaram a diminuir proporcionalmente. Quando sonho com demônios ou coisas do tipo sou bastante indiferente a isso, chega a ser cômico. Há um tempo atrás sonhei que estava deitado na cama e vi um reflexo meu sair do espelho do guarda-roupa. O meu sósia veio flutuando e o rosto transfigurou-se numa face demoníaca e risonha que ficou me encarando. Meu coração bateu mais forte, mas, mesmo assim, meti a mão na cara dele e falei: sai daqui que eu quero dormir! Não passou dois segundos e eu acordei um pouco assustado, mas logo me deu vontade de rir da minha atitude inusitada e logo voltei a dormir novamente. Quando me tornei indiferente a sonhos desse tipo, eles acabaram. Porém, ainda tem um tipo de sonho que me incomoda, que é aquele que imita a vida real, ou seja, ao invés de sonhar com assombrações e entidades você sonha com um bandido ou com a morte de um ente querido. Esse tipo de sonho eu ainda estou bolando estratégias para superar, hehe.


Sonhos Tranquilos (Fonte: eutenhovctem)

Um estudo recente feito há alguns meses atrás mostrou que um grupo de cientistas tinha criado algumas formas de acabar com pesadelos. Uma que achei bastante interessante, apesar de não ter testado, é a de você deixar um papel e uma caneta do lado da cama. Quando você tiver um pesadelo, ao acordar espere uns 2 minutos para o cérebro organizar a base da história do pesadelo, aí você escreve em detalhes tudo o que aconteceu, entretanto, o final do sonho deverá ser reescrito com um final onde tudo acaba bem, ou seja, o pesadelo será transformado num sonho bom. Esse exercício mental ao ser executado com freqüência, segundo as pesquisas, fará com que os pesadelos diminuam gradualmente até que se extingam com o tempo. Quem quiser tentar me fala depois se deu certo, hehehe.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma opinião sobre a violência

Antes de ir trabalhar estava eu em casa esparramado no sofá, ao lado do meu pai, vendo um daqueles noticiários policiais, onde não existe uma informação que se aproveite, e observei a seguinte manchete: um grupo de torcedores de um determinado time espancou um outro torcedor de um time rival até a morte. As cenas eram chocantes: o vídeo mostrava um jovem já caído no chão enquanto chegava outro com uma barra de ferro e o atingia várias vezes na cabeça antes de sair correndo. Em seguida outros homens chegavam batendo na vítima com placas, pedaços de pau, bicudos na cabeça, e o jovem caído há muito tempo já não reagia mais, pois já tinha morrido.


Torcida organizada (Fonte: abril)

O que choca mais é a motivação que leva um indivíduo a cometer tal barbárie. Considerando que esses torcedores são meros expectadores de uma partida de um esporte popular em sua cultura, o fanatismo que eles mantém pelo símbolo que o time para o qual eles torcem representa é tamanho, que uma maneira de demonstrar o poder do seu grupo é subjugando um outro grupo, o qual eles consideram seu rival. E isso funciona melhor num contexto de grupo que num contexto individual. Por exemplo: uma pessoa presencia um estranho cair desajeitadamente de uma escada. A primeira reação é imaginar se o sujeito se machucou ou não, ou ainda prestar alguma assistência à pessoa que se desequilibrou da escada. Agora se na mesma situação, no local do observador estiver um outro grupo de observadores que, ao verem o estranho cair, começarem a rir e fazer chacota do sujeito desastrado é possível que o observador da primeira situação seja levado a participar daquela euforia, esquecendo conseqüentemente do fato do sujeito que caiu da escada poder ter se machucado pra valer.


O que pode parecer engraçado para alguns não o é para outros (Fonte: mundomisturado)

O ser humano é um sujeito influenciável por natureza, tanto que, as pessoas que o acompanham durante a sua vida é que vão determinar que tipo de sujeito ele será no futuro. Se o jovem é agredido constantemente pelos pais, é possível que este faça o mesmo com seus filhos ou parceira. Se ele é constantemente humilhado na escola pelos colegas, é possível que se torne um adulto retraído e traumatizado. Assim vivemos numa utopia onde a violência não deixa de existir porque pessoas não deixam de sofrê-la e fazer sofrer. Os valores familiares se diluíram com o avanço da modernidade, com a liberdade que os jovens possuem para fazerem o que bem entenderem, com o acesso irrestrito a todo tipo de informação, desde aquelas associadas à pornografia até os extremos casos de violência, que chegam até nossa família pelos diversos meios de comunicação existente, em especial a mídia sensacionalista, que assim como o seu governo está mais preocupada com o lucro do que a educação de seus jovens.

Fonte: bengochea
Quando colocamos o caso do torcedor que foi espancado até a morte considerando o jovem morto como a vítima, esquecemos que na verdade todos são vítimas dos meios que os formam, pois se invertêssemos o caso e o jovem morto, junto com o seu grupo tivesse a oportunidade de espancar algum torcedor do time rival, quem garante que ele não o faria? Diferente dos cinemas, na vida real não existem bandidos e mocinhos, já que cada um mantém dentro de si um pouquinho de bandido e de mocinho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O ritual macabro de Toraja

Funeral (Foto: betzyapoderosa)
Quando perdemos um ente querido, além de nos causar muito pesar, sentimos a obrigação de lhe prestar uma última homenagem, uma despedida digna desse plano para um outro. Essa homenagem vem em forma de uma cerimônia religiosa que conhecemos como funeral, onde se reúnem parentes e conhecidos para fazerem discursos de despedida, rezarem ou orarem (dependendo da religião) e darem um último adeus. Porém, em algumas culturas, esse ritual é bem mais complexo e envolve muitas simbologias e crenças que não compreendemos direito o propósito. Existe um lugar onde a maneira de prestar homenagem ao morto é provocando várias outras mortes (de animais no caso)! Será que existem limites para o que nos parece incompreensível ou o problema está em nossa percepção diante dos fatos?


Tana Toraja (Foto: adventures-travel-tales-and-tips)

Tana Toraja é uma pequena região localizada na parte central de Sulawesi, na Indonésia, a maior ilha do arquipélago. É conhecida por seus rituais funerários excêntricos e suas casas típicas com telhados em forma de chifres. Apesar de serem convertidos ao cristianismo, eles ainda mantêm fortes raízes da religião animista. Esta, por sua vez se fundamenta no cosmocentro, no antropocentro e no teocentro e tem como regra os seguintes preceitos: tudo no Cosmo tem ânima; todo o ânima é transferível; e tudo que transfere ânima não perde a totalidade de seu ânima, mas quem ou quê o recebe perde parte ou a totalidade de seu ânima, o qual será tomado pelo ânima doador.
Os moradores locais acreditam que quando um ente querido morre, este é levado ao céu para ser julgado pelos atos cometidos, logo, o resultado desse julgamento é mensurado de acordo com o seu comportamento em vida. Outro fator primordial seria a quantidade de espíritos de animais que levam o espírito do falecido até o céu. E como seria possível a alma viajar para outro plano com uma porção de almas de animais? Simples: através de muuitos sacrifícios de animais!


Funeral em Toraja (Foto: e-farsas)

Essa é uma das principais características dos fúnebres funerais de Toraja. Diferente de outras regiões do mundo onde o funeral se resume ao sepultamento do morto diante de entes queridos, lá em Toraja os funerais só podem ser realizados depois que a família do falecido arrecadar muitos recursos para bancar toda a cerimônia. Para se ter uma idéia, é necessário construir uma vila completa para abrigar uma multidão de convidados durante o período de uma semana, após isso a vila é desmanchada. Além disso, a família precisará desembolsar muito dinheiro com animais para serem sacrificados (e não são poucos). Um búfalo de água, que é o animal mais comumente sacrificado em tal ritual, por ser também o mais valioso e ser comum de encontrar nas planícies da região, custa cerca de 40 milhões de rúpias (pouco mais de 3.000 dólares) e um porco 3 milhões de rúpias (aproximadamente 250 dólares). Não é raro num único evento desse serem sacrificados mais de 50 porcos, além de diversos búfalos. Por essa razão, muitas famílias mantêm em suas propriedades o corpo do ente querido mumificado, enquanto obtêm dinheiro suficiente para bancar toda a cerimônia (um processo que pode durar mais de 5 anos, dependendo da situação dos envolvidos).


Porcos prontos para o abate (Foto: basilico)

Búfalos sacrificados (Fotos: basilico)

O primeiro dia do funeral começa com o abate dos búfalos. Quanto maior for a importância do falecido, maior é a quantidade de búfalos a serem sacrificados. No dia seguinte, os convidados chegam, geralmente, trazendo os porcos para o sacrifício. Por fim, no último dia acontece, de fato, o funeral do defunto. Enquanto convidados se amontoam em cabanas de bambu, onde lhes são servidos chás e biscoitos, eles presenciam com bastante naturalidade búfalos e outros animais serem esfolados vivos e o sangue se espalhando pelo chão, com direito a crianças brincando inocentemente com o sangue e os restos de órgãos de animais mortos! Logo após isso, eles podem ir para outra cabana onde é possível presenciar os porcos serem sacrificados com uma punhalada no coração, estremecendo de dor até desmaiarem, e, em seguida, terem seus órgãos retirados diante da multidão curiosa.


Cabeças de búfalos expostas para os convidados do funeral (Foto: adventures-travel-tales-and-tips)

Depois do funeral, partes das carnes dos animais sacrificados são oferecidas aos convidados que podem levar para a casa para consumir posteriormente e caso essa distribuição não ocorra, a família pode ser mal vista pelos demais moradores da região. Assim, a conclusão do funeral se dá em outro dia, com caixão do falecido sendo levado para uma igreja para outro ritual, esse de natureza católica, pois como tinha sido dito no início deste artigo, eles são cristãos. Nessa parte do evento é muito comum os convidados tirarem fotos, pois seria um sinal de que o falecido ainda faria parte da comunidade. Subsequentemente o caixão segue em procissão até o local do enterro, ao som de gargalhadas e aplausos, para espantar os maus espíritos e, chegando no local, um grupo de atrizes se deitam sobre o caixão chorando, para incentivar a alegria a se tornar tristeza (umas chegam até a simular um desmaio), trazendo de volta o tom sério do ritual para um último adeus. Em seguida, o caixão é colocado numa sepultura cheia de outras caixões devido à falta de espaço, dando-se por encerrada toda a cerimônia de despedida do ente querido falecido. E há de se lembrar ainda que existem outras formas de sepultamento que variam de acordo com a classe social do indivíduo.


Procissão dos convidados até o local de sepultamento do falecido (Foto: adventures-travel-tales-and-tips)
A gente pode notar através desse evento que nos parece asqueroso como as nossas concepções variam de cultura para cultura. A morte, por exemplo, chega até nós como uma punhalada no coração, algo que nos choca e nos traz sentimentos negativos como tristeza e depressão. Confesso que fico extremamente perturbado em presenciar mortes de animais, pois me causam um incômodo muito grande que não sei explicar. Quando constato que em culturas como as de Toraja as pessoas crescem no meio de uma carnificina animal que celebram a morte de um indivíduo em meio a muita dança, festa e euforia, fico pensando se o erro está em julgar o que nos parece diferente, como acontece em diversas outras manifestações de preconceito. Se a gente nasce e cresce no meio de tais costumes, é inegável que aquilo para nós será completamente normal e aceitável. Então, por mais bizarro que pareça alguns costumes de outros povos, temos que lembrar que para eles fazemos coisas que são tão bizarras quanto sacrificar animais em um funeral.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Lamento das árvores e as manifestações divinas

É incrível como tudo aquilo que parece não ter explicação pode ser taxado como um milagre divino, como oportunidade de buscar curas e outros tipos de bênçãos. Há uma época atrás borbulhavam casos de imagens santas que, alegavam algumas pessoas, apareciam numa porta, numa janela, num jardim e até em papel higiênico. Tais imagens reuniam uma procissão de curiosos que faziam fila para rezar e pedir bênçãos entre outras coisas. Se uma mancha que parece Maria realmente faz milagre, não posso afirmar ao certo, mas o poder da fé que as pessoas tem nisso eu creio que é a responsável pelos mais diversificados milagres já relatados pelos crédulos que atribuem tal maravilha.


Um exemplo do fenômeno no Vale do Jaguaribe (Foto: planetavale)
            
Diante desse contexto podemos dar início ao tema desse artigo com a seguinte história: Numa quente manhã de Mossoró, Rio Grande do Norte, uma jovem senhora passeava com seu bebê quando parou em frente a uma árvore algarobeira quando percebeu um fenômeno estranho: a árvore transpirava abundantemente e diversos pingos afloravam dos seus galhos dando a impressão de que fossem lágrimas que escorriam fartamente de um triste vegetal. Além disso, havia traços de neve em várias partes da árvore, o que soa bizarro, levando em conta que não chovia há dias na região. Na verdade trata-se de uma espécie de espuma que brota dos galhos e se torna água límpida e passar a precipitar no solo ao redor da árvore. Impressionada com o que havia presenciado, a jovem senhora correu para contar aos demais cidadãos da cidade sobre a ‘árvore milagrosa’! Dentro de pouco tempo centenas de pessoas se aglomeravam no local se benzendo, levantando as mãos para o céu e buscando respingos das milagrosas lágrimas que só poderiam ser uma obra de Deus.



Estranha formação de flocos de neve nos galhos (Foto: planetavale)
O caso das árvores que choram não é um fato isolado em Mossoró e é um fenômeno bastante relatado em diversas partes do mundo. Só no Brasil, existem vários registros de ‘árvores tristonhas’ que passam o tempo chorando. Em Botafogo, no Rio de Janeiro, uma árvore choramingante reuniu uma multidão de pessoas que faziam peregrinações até o local, pedindo proteção, se benzendo com a água e até tomando dela literalmente, crente de que isso as beneficiarão de alguma forma. Este caso, assim como o primeiro, já chegou aos ouvidos da mídia, que apresentou ambas as histórias como um mistério sem explicação.
No caso do Rio, a situação, apesar de já ter sido solucionada pela CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) que alegou que havia próximo a árvore um cano rompido, muitos continuam a acreditar que a árvore chora sim, graças a um milagre de Deus! Mas será que os outros casos se explicam também pelo fato de haver um cano furado no local?

Cartoon de árvores que choram (Foto: ceticismo)
Moradores de Coelho Neto, no Maranhão, se dirigiram a uma árvore que chorava, munidos de baldes, bacias e garrafas para levar um pouco da água que alguns alegam ser benta. Alguns chegam a ficar horas debaixo da árvore e outros, pasmem, chegam a dormir debaixo delas, para receber uma chuva de bênçãos! Mas o que fazem essas pessoas terem tanta fé num fenômeno em que cientistas já descartaram a hipótese de ser sobrenatural? Talvez pelo contexto em que vivem. Um contexto de miséria, pobreza, fome e desamparo. É o padrão de vida de muitos brasileiros que vivem sem segurança, saúde, educação e emprego digno e são simplesmente esquecidos pelo governo que, em tempos de eleição, prometem o que não tem condições e nem disposição para oferecer ao povo. Este, por sua vez, recorre à ajuda espiritual, e busca em tudo a presença de Deus para lhe confortar de alguma forma.

Gutação (Foto: amigodasciencias)
Mas e os cientistas? O que dizem a respeito das árvores que choram? A explicação mais recorrente está num fenômeno conhecido como gutação, que é a eliminação de água em estado líquido pelas folhas das árvores. Ela ocorre quando a transpiração é lenta ou simplesmente ausente e a planta necessitando eliminar esse líquido do corpo a faz mediante a gutação, aproveitando a temperatura geralmente baixa (isso não é regra) e a umidade relativamente alta da atmosfera e do solo para eliminar a água em forma líquida (naturalmente uma planta elimina a água em forma de vapor).
Tal explicação se encaixa em boa parte dos relatos de árvores milagrosas e não podemos deixar de considerar outras inusitadas possibilidades como a de um cano furado, próximo ao vegetal, ou mesmo a de que realmente as gotas que precipitam das árvores sejam um milagre divino, afinal de contas, se dizem que a fé move montanhas, fazer uma árvore chorar então é bem mais simples do que parece.

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