sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Efeito Backster – Um estudo sobre a percepção das plantas

Já pensou na possibilidade de você se pegar falando mal ou até mesmo pensando em fazer maldades com aquelas plantas da sua mãe que ficam infestando a casa de mosquito da dengue e, a planta, por sua vez, reagir como se compreendesse seus sentimentos negativos por ela? Pois foi justamente o que aconteceu na década de 60 após alguns experimentos científicos realizados por um cientista conhecido como Cleve Backster. Para ele todos os seres vivos possuem algum tipo de percepção extra sensorial e desenvolvem determinados níveis de ligação telepática entre si. Tal fenômeno ficou conhecido como Efeito Backster ou Percepção Primária.
O objetivo do experimento era descobrir se as plantas e outros seres vivos possuem algum tipo de emoção e se são capazes de perceber telepaticamente as emoções dos outros. Entretanto esse objetivo surgiu por acaso, pois inicialmente Backster pretendia descobrir quanto tempo levaria para que a água absorvida pela raiz da planta percorresse o caule e chegasse até as suas folhas. Mas então como surgiu a idéia de testar as emoções das plantas?

Cleve Backster durante um experimento de percepção primária (Fonte: antipolygraph)
O experimento foi realizado no dia 2 de fevereiro de 1966 num laboratório improvisado onde Backster costumava fazer treinamentos com polígrafos. Lá, enquanto ele marcava o tempo em que a água percorria a planta, ele olhou para os lados, viu aquele tanto de polígrafos espalhados pelos cantos e pensou: to aqui de bobeira, por que não testar o polígrafo de resposta galvânica da pele nessa planta? Foi dito e feito!
Esse tipo de polígrafo mede a resistência da pele a uma pequena corrente elétrica, logo as respostas obtidas são relacionadas a ansiedade do indivíduo e, conseqüentemente, com a honestidade do mesmo. Então, teoricamente falando, se uma pessoa fica ansiosa, a quantidade de suor aumenta e, à medida que isso se intensifica, a resistência a corrente elétrica no corpo diminui.


Um exemplar de polígrafo (Fonte: institutomarconi) 

Foi então, ao realizar os experimentos com o polígrafo de resposta galvânica da pele na planta que Backster percebeu que os contornos gráficos do polígrafo eram semelhantes ao de um indivíduo testado pelo mesmo aparelho. Então ele começou a criar situações de perigo para a planta para ver como ela reagiria. Durante o período de 13 minutos e 55 segundos, o cientista torturou a pobre planta fazendo peripécias como mergulhar suas folhas em café quente, não obtendo, entretanto, nenhuma resposta da planta. Após esse fracasso inicial Backster apelou para métodos mais radicais e decidiu queimar as folhas da planta para ver se ela reagiria ao polígrafo, mas por uma coincidência do destino não haviam fósforos para executar o novo plano. Então Backster relatou que, quando ele saiu em busca de fósforos, ele notou que o polígrafo entrou em intensa agitação e logo concluiu que a planta leu seus pensamentos, ou seja, ela sabia que ele iria buscar os fósforos para queimá-la. Ele ainda relata que, um tempo depois, chegou no local um parceiro dele da escola de poligrafia, que foi capaz de obter os mesmos resultados, seguindo suas instruções e levando em conta que ele tivesse a intenção de queimar a planta e não somente fingir que teve a intenção de queimá-la pois o vegetal seria capaz de discernir uma situação da outra e não reagiria ao polígrafo se não estivesse realmente em situação de perigo.


Árvores prevendo uma ameaça de morte (Fonte: guiaecologico)

Seus estudos ficaram famosos depois que o curioso cientista publicou sua pesquisa em 1968 no International Journal of Parapsychology ("Evidence of a Primary Perception in Plant Life") [Indícios de uma Percepção Primária em Vida Vegetal].  E, Backster, durante esses trinta anos de estudo do comportamento ‘psicológico’ das plantas, além de ter dado seu nome ao fenômeno (Efeito Backster), ganhou uma legião de seguidores, incluindo outros cientistas que se inspiraram em seus experimentos para escreverem livros ligados ao tema. A questão é que, por que a comunidade científica, de um modo geral, o ignora? Por que Backster não recebeu uma indicação ao Nobel depois de uma descoberta tão relevante para a ciência? Talvez porque, na verdade, seus estudos foram considerados irrelevantes, devido ao fato de terem sido feitos sem qualquer tipo de controle, sem estudos aprofundados da natureza dos vegetais e sem a participação de especialistas de outras áreas relacionadas ao assunto experimentado.


Cleve Backster (Fonte: theepochtimes)

Segundo a fisiologia das plantas elas não possuem nenhum tipo de órgão nervoso ou sensorial, apenas paredes celulares de celulose, diferente dos animais que já possuem tais órgãos. Logo poderíamos concluir que plantas não sentem dor e nem possuem percepções e sentimentos parecidos com os de um homem, afinal de contas plantas também não têm cérebro! Mesmo assim, Backster sem ter feito nenhuma pesquisa básica sobre a estrutura dos vegetais teve essa ‘brilhante’ idéia de testar um polígrafo numa planta de escritório.
Não demorou muito para as alegações de Backster serem refutadas por outros cientistas como Horowitz, Lewis, Gasteiger e Kmetz, que contestaram seus experimentos em razão da falta de controles adequados e quando estes eram aplicados, o polígrafo não detectava nenhuma reação a pensamento ou ameaça. Por essa razão, os detratores concluíram que os registros do polígrafo poderiam ter sido causado por numerosos fatores como alterações de umidade, eletricidade estática e movimentos na sala. E o curioso é que o próprio Backster sequer se deu ao trabalho de verificar outras possibilidades para os registros apresentados pelo polígrafo e simplesmente agarrou a sua teoria com unhas e dentes e defende ela até hoje, apesar de não ter desenvolvido nenhum aprofundamento no seu experimento repleto de falhas, como o fato de ter testado apenas um tipo de planta.
Apesar da comunidade científica apontar os estudos de Backster como uma farsa, a verdade é que ele ganhou muita fama e reconhecimento, principalmente da parte dos parapsicólogos que acreditam na possibilidade das plantas entenderem pensamentos humanos através da leitura de campos bioenergéticos, sendo que, num grupo de pessoas onde uma tinha intenção de prejudicar a planta, ela seria capaz de determinar naquele grupo quem tinha intenção de prejudicá-la, como? Backster explica. Então é provável que ele morra negando que sua experiência seja uma fraude, afinal de contas, tem gente por aí capaz de tudo por 15 minutos de fama, não é?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A longevidade de Matusalém e outros patriarcas antigos

Em 2010 a expectativa de vida dos brasileiros era de 72,2 anos, o que é considerada relativamente baixa se comparada a países desenvolvidos como o Japão, onde a expectativa de vida supera os 81 anos de idade. Isso poderia ser explicado talvez pela qualidade de vida das pessoas, incluindo fatores como a interação com a cultura (alimentação, hábitos saudáveis) e o meio ambiente (poluição, habitações adequadas) respectivamente. Em 2007, a daguestanesa Sarhad Rashidova morreu aos 131 anos de idade, comprovado pelo seu passaporte, quando foi trocado do soviético para o russo, e foi considerada até então como a mulher mais velha do mundo. A grande questão que se faz é: por que no mundo contemporâneo relativamente poucos seres humanos conseguem viver mais que um centenário, sendo que, no mundo antigo, a bíblia relata anciões de extrema longevidade vital como Matusalém que morreu aos 969 anos (Gen. 5:27), Noé que viveu até os 950 anos (Gen. 9:29) e Adão que morreu quando tinha 930 anos (Gen. 5:5)?


Matusalém (Fonte: reporternet)

Ao se estudar a genealogia do Gênesis podemos notar um fator interessante com relação à idade dos homens antigos: até o momento do dilúvio a expectativa de vida dos homens poderia superar os 900 anos, entretanto, após esse evento, apesar de alguns conseguirem chegar aos 500 anos, como Sem, Arfaxade, Selá e Eber, houve uma queda brusca na expectativa de vida dessas pessoas. Após Eber, nasceu Pelegue, durante a divisão geográfica da Terra (Gen. 10:25) e, este por sua vez, viveu apenas 209 anos (Gen. 11:19), menos da metade da duração de vida dos homens mais velhos da época. O mesmo aconteceu com o filho de Pelegue, Réu que viveu 207 (Gen. 11:21). A partir daí a expectativa de vida dos patriarcas bíblicos passou a reduzir-se gradativamente: Abraão viveu 165 anos, Isaque 180 e Jacó 147, culminando com José, que viveu 110 anos, algo mais próximo da nossa realidade.


Dilúvio (Fonte: aoreidosreis)

Alguns estudiosos apontam o evento do dilúvio como fator determinante da queda repentina da expectativa de vida, pois, segundo eles, Deus havia prolongado a vida dos homens antigos para que eles tivessem tempo suficiente para se arrepender de seus pecados enquanto estivessem na carne. Outros sugeriram a retidão como fator determinante do comprimento da vida desses anciãos, ou seja, Deus teria considerado a virtude desses homens como justificativa para que esses homens vivessem muito mais que o necessário, tendo tempo suficiente para desenvolver exaustivos estudos astronômicos e geométricos, como a predição do período das estrelas, algo que, naquela época levaria pelo menos uns 600 anos para ser concluído. Outra teoria considerada é de que os patriarcas daquela época viveram muito por terem obedecido rigorosamente as leis da vida, usando o tempo que lhes foi dado para aperfeiçoar o corpo e mente. E ainda foi considerada a possibilidade do dilúvio ter mudado drasticamente as condições ambientais da época, diminuindo assim a expectativa dos homens que viveram após essa catástrofe.


Sarhad Rashidova (Fonte: videolife.tk)

Podemos refletir sobre essa última possibilidade levando essa idéia ao contexto em que vivemos hoje, onde sofremos constantemente com a ação dos radicais livres que entramos em contato através dos alimentos que consumimos e até mesmo pelo simples fato de respirar. Os radicais livres invadem nosso corpo como elétrons instáveis que agem roubando elétrons de outras moléculas. Ao fazer isso eles danificam as células atacadas fazendo com que elas envelheçam mais rápido. Enquanto somos jovens produzimos antioxidantes que são capazes de fazerem a proteção dessas células prejudicadas. O problema é que, à medida que envelhecemos, passamos a perder essa capacidade de produzir antioxidantes, deixando o corpo vulnerável à ação dos radicais livres que vem do ar e dos alimentos. Por essa razão pessoas que vivem em lugares isolados geograficamente, livres da poluição e de alimentos industrializados, ricos em sódio, são capazes de viver muito mais tempo que um ser humano comum. O Exemplo disso está na história de Sarhad Rashidova, que viveu em Zidian, localizada entre as montanhas do Cáucaso e o mar Cáspio, um lugar tranqüilo e livre da ansiedade e do estresse, fatores nada saudáveis do nosso dia-a-dia. E é sabido que nas montanhas do Cáucaso vivem muitas das pessoas mais velhas do planeta que, além de viverem isoladas geograficamente, cultuam hábitos milenares que certamente aumentam suas expectativas de vida.

Representação dos radicais livres (Fonte: xarangoxango)
É possível que as condições ambientais da época aliadas aos costumes saudáveis dos povos antigos tenha sido determinantes para garantir uma grande longevidade de vida. Mas levando em conta que Deus tinha nessa época contato direto com os seres humanos, a melhor hipótese é a de que os antigos patriarcas viveram muito porque Deus tinham um propósito para eles que tiveram tempo para acumular bastante conhecimento e influenciar de alguma forma os outros homens que andavam pelos caminhos pecaminosos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O protesto silencioso


Quang durante auto-imolação (Fonte: landiosi)

Durante o período de 1959 e 1975 o sudeste asiático estava vivendo o inferno da guerra do Vietnã. De um lado estava a República do Vietnã (Vietnã do Sul) e os Estados Unidos com o apoio da Coréia do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia; do outro lado estava a República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte) e a Frente Nacional para a Libertação do Vietname (FNL) com o apoio logístico da União Soviética, da China e da Coréia do Norte. Essa guerra trouxe como resultado cerca de 4 milhões de mortes de vietnamitas de ambos os lados, mais outros dois milhões de mortes de cambojanos e laocianos, que foram arrastados pra guerra devido a propagação do conflito. Em 1973 o país foi reunificado sob o governo socialista, após a derrota dos Estados Unidos e, em 1975, foi oficialmente declarado como a República Socialista do Vietnã.


Vietnamitas padecendo das agruras da guerra (Fonte: lidercomvisao)

A intervenção dos Estados Unidos nessa guerra ainda trouxe outras seqüelas na sociedade vietnamita.
As Convenções de Genebra, realizadas durante o período de 1864 a 1949, estabeleciam direitos e deveres de pessoas, combatentes ou não, em tempos de guerra. Assim, na época da guerra do Vietnã, o país foi temporariamente dividido em dois por um dos tratados de Genebra. Esse tratado determinava que o país seria dividido momentaneamente em dois a partir do paralelo 17, onde a parte norte ficaria sob o governo de Ho Chi Minh e a parte sul ficaria sob o domínio do imperador Bao Dai (dependente dos franceses). Outras cláusulas do tratado diziam que entre as duas partes do país haveria uma Zona Desmilitarizada (ZDM) e que haveria eleições para unificar o país, sob a supervisão internacional. Entretanto, os Estados Unidos se recusou a assinar o acordo e, posteriormente, armou um golpe militar em Saigon. Durante um plebiscito (reconhecidamente fraudulento), Bao Dai foi deposto e o líder Católico Ngo Dinh Diem, comprometido com os norte-americanos, tomou o poder para si. Diem, então, implantou uma ditadura militar, proclamou a independência do Vietnã do Sul e cancelou as eleições previstas pelo acordo de Genebra, porque estava convicto que a vitória seria de Ho Chi Minh.


Thich Quang Duc (Fonte: quangduc)

E foi justamente no contexto da Era Diem que ocorreu um evento histórico perpetuado pelos monges budistas do Vietnã que, até então, era a maioria da população. No dia 11 de junho de 1963, em uma das frequentes passeatas que andavam acontecendo na cidade de Saigon, os monges, insatisfeitos com a opressão propagada pela elite católica (reflexo da colonização francesa) e com a política religiosa do governo Diem, saíram de um pagode e avançaram por uma das ruas principais da cidade. Um automóvel que acompanhava a marcha parou num determinado momento e dele desceram três religiosos. Os demais manifestantes organizaram um círculo ao redor do carro e, um dos três monges, um idoso chamado Thich Quang Duc, sentou-se numa almofada e cruzou as pernas. Os outros dois monges que acompanhavam Quang pegaram um galão de gasolina e espalhou por todo o corpo dele, depois sacaram uma caixa de fósforo e atearam fogo no corpo de Quang, este por sua vez, permaneceu imóvel em posição de lótus, virando uma tocha humana. Enquanto queimava, ele, além de não se mover, não gritou e nem sequer fez um pequeno ruído, apenas esperou a morte em silêncio. Após a sua auto-imolação Quang foi considerado um Bodisatva (título dado aos que possuem elevada sabedoria), principalmente depois de um fato curioso: dizem que após ser queimado vivo ele teve seu corpo cremado novamente e mesmo assim seu coração permaneceu intacto. Por essa razão, seu órgão foi transladado aos cuidados do Banco de Reserva do Vietnã como relíquia.


Quang em chamas (Fonte: schlicken.blogsome)

O coração de Quang permaneceu intacto após o incêndio do corpo dele (Fonte: quangduc)

Durante o seu suicídio o monge foi fotografado por Malcolm Browne, que foi consequentemente premiado com os Pulitzer e Foto do Ano da World Press Photo. Em virtude disso as fotos de Browne rodaram o mundo e viraram um símbolo dos anos 60, assim como os Beatles e o Che Guevara.
Apesar de ser um método bastante doloroso de se protestar, a auto-imolação de Quang não foi um fato isolado, muito pelo contrário, se tornou algo bastante frequente nos protestos dos budistas vietnamitas. O surgimento de outros casos de auto-imolação se tornou algo tão comum que o governo sul-vietnamita criou um esquadrão anti-suicídio, equipado de extintores de incêndio para evitar novas tentativas de auto-sacrifício.



Quang ficou conhecido por promover o chamado protesto silencioso, onde sua coragem de se sacrificar refletiu decisivamente na conclusão da guerra do Vietnã. Após sua morte, a pressão internacional sobre o regime Diem aumentou fazendo com o que o líder anunciasse reformas para tentar acalmar o ânimo dos budistas.       No entanto, essas reformas foram implementadas bem lentamente e algumas das reformas prometidas sequer foram concretizadas, resultando na deterioração da disputa. Em virtude da continuidade dos protestos, Diem autorizou as Forças Especiais, leais ao irmão dele,  Ngô Ðình Nhu, para que atacassem os pagodes budistas em todo o país. Esses ataques geraram centenas de mortes de budistas e muitos, a exemplo de Quang, passaram a  se auto-imolarem, sendo que logo em seguida, Diem foi assassinado durante um golpe militar, determinando o fim da Era Diem. As imagens do sacrifício budista pode não ter sido o principal fator responsável pelo fim do embate no Vietnã, mas foi decisivo por mostrar ao mundo o que realmente estava acontecendo na região, algo muito além do simplismo da Guerra Fria.


(Fonte: euopinotuopinaseleopina)


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O legado de Hamurabi



Hamurabi diante do deus Shamash (Fonte: seguindopassoshistoria)

Hamurabi foi o sexto rei da dinastia babilônica e tornou-se o primeiro rei do império babilônico após a conquista da Suméria e da Acádia, no período de 1792 a 1750 a.C.. Ficou famoso por ter concebido o mais antigo código de leis escritas, conhecido como Código de Hamurabi, consolidando assim uma legislação pré-existente na época. O código foi transcrito numa estela (monumento talhado em rocha de diorito) em três alfabetos diferentes e tinha como objetivo regular a vida cotidiana dos cidadãos da região. A sociedade era dividida em três categorias:

Awilum: homens livres, independente de ser pobre ou rico;
Muskênum: funcionários públicos;
Escravos: prisioneiros de guerra.


O código de Hamurabi (Fonte: jusfacto)

Nesse contexto os principais pontos abordados por essa legislação era a lei de talião (olho por olho, dente por dente), falso testemunho, roubo / receptação, estupro, família e escravos. A punição ou a pena diferia de acordo com a classe social do indivíduo e antes que alguém pudesse alegar ignorância da lei ela estava lá exposta livremente a todos, apesar da maioria das pessoas não saberem sequer ler, com exceção dos escribas.
           As punições eram demasiadamente severas e dentro do princípio de talião funcionavam mais ou menos como um castigo-espelho, ou seja, toma lá, dá cá. Observemos alguns artigos:

21. Se alguém arrombar uma casa, ele deverá ser condenado à morte na frente do local do arrombamento e ser enterrado.

25. Se acontecer um incêndio numa casa, e alguns daqueles que vierem acudir para apagar o fogo esticarem o olho para a propriedade do dono da casa e tomarem a propriedade deste, esta(s) pessoa(s) deve(m) ser atirada(s) ao mesmo fogo que queima a casa.

108. Se uma dona de taverna não aceitar grãos de acordo com o peso bruto em pagamento por bebida, mas aceitar dinheiro, e o preço da bebida for menor do que o dos grãos, ela deverá ser condenada e atirada na água.

129. Se a esposa de alguém for surpreendida em flagrante com outro homem, ambos devem ser amarrados e jogados dentro d'água, mas o marido pode perdoar a sua esposa, assim como o rei perdoa a seus escravos.

132. Se o "dedo for apontado" para a esposa de um homem por causa de outro homem, e ela não for pega dormindo com o outro homem, ela deve pular no rio por seu marido.

195. Se um filho bater em seu pai, ele terá suas mãos cortadas.

196. Se um homem arrancar o olho de outro homem, o olho do primeiro deverá ser arrancado

200. Se um homem quebrar o dente de um seu igual, o dente deste homem também deverá ser quebrado

229 Se um construtor construir uma casa para outrem, e não a fizer bem feita, e se a casa cair e matar seu dono, então o construtor deverá ser condenado à morte.

230. Se morrer o filho do dono da casa, o filho do construtor deverá ser condenado à morte.


(Fonte: karinamerlo)

Como podemos notar, muitos desses artigos legislativos nos soam um tanto quanto ultrapassados, exagerados e intolerantes. Hamurabi mantinha uma postura bastante rígida para controlar a sociedade e se pararmos para pensar, essa fórmula de justiça que nos parece cruel e bárbara e se assemelha mais a uma vingança do que a uma necessidade de se punir com justiça, pode ser entendida com a máxima de que ela também é baseada numa relação de equilíbrio entre o crime e a punição. Mas na prática, no decorrer da história, o princípio de talião perdeu parte do seu foco principal que era o de dar ao crime a sua punição na intensidade correta, para assim, ser considerada uma pena justa. O que vimos na verdade foi a execução de penas grotescas declaradas sempre pela necessidade de punir em nome de um bem aparentemente maior. Além da questão do equilíbrio, expresso no próprio significado do termo talião (do latim, talio, significando ‘tal’ ou ‘igual’), ter sido deturpado, o propósito da justiça e da injustiça foi substituído pelo propósito do bem e do mal, dando lugar ao julgamento subjetivo, ao invés do julgamento imparcial.


Iraniana comemorou a condenação de seu algoz pela lei de talião (Fonte: ceboanova)

A lei de talião (escrita mesmo em minúscula por não se tratar de nome próprio) permanece presente ainda hoje em quase todas as sociedades, mesmo que de forma indireta: se um estuprador for preso, provavelmente será estuprado na prisão; se um bandido mata alguém sem a autorização do líder de sua facção, muito provavelmente será morto também. Além disso, a máxima ‘olho por olho, dente por dente’ também aparece claramente em alguns códigos penais como o do Irã. Um exemplo disso foi uma notícia divulgada no G1 há um dia atrás, onde um homem iraniano foi condenado a perder um olho e uma orelha por ter jogado ácido sulfúrico no rosto de outro sujeito, queimando sua orelha. O réu identificado apenas como Hamid, justificou no tribunal que teria feito tal atentado por ter confundido a vítima com um ex-colega de classe que o incomodava na época do colégio. A matéria ainda relatava que acontecimentos como este estavam acontecendo com bastante freqüência nos últimos anos. Em novembro deste ano, um sujeito conhecido como Mojtaba foi condenado a perder os olhos por ter cegado o marido de sua amante com ácido na cidade sagrada de Qom e, em fevereiro do ano passado Majid Movahedi também foi condenado à cegueira por ter jogado ácido no rosto de uma colega de faculdade em 1994, depois que ela rejeitou-se a casar com ele. Quando ela ficou sabendo do resultado da condenação comemorou: “Ele será anestesiado e não sofrerá dores. Não vou desfiguar o rosto, porque bastam algumas gotas, e nem terá lesões internas, como eu tive. Ele deve pagar. Olho por olho, dente por dente, essa é a lei de talião”.



(Fonte: direito-vivo)

O código de Hamurabi, apesar de parecer um tanto quanto inumano em sua essência, serviu de inspiração para muitos códigos legislativos que vieram futuramente e influenciou de alguma forma a própria teoria de direito. A gente pode concluir que a problemática de sua aplicação não está necessariamente na sua essência, e sim na forma como determinaram que ela seria aplicada. O desvirtuamento do objetivo final faz parecer que a lei de talião seja coisa de trogloditas, contudo jamais isso poderia ser considerado uma verdade absoluta, nem do ponto de vista mais humano.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Visão Animal dos Espíritos

Certa vez fiquei acordado até o princípio da madrugada lendo alguns artigos na Internet. Tinha um papagaio que dormia num poleiro que ficava no alto de uma das paredes da copa. Quando fui me deitar, depois de alguns minutos, ouço o bater de asas do bicho e logo imaginei que ele tivesse pulado lá de cima, sem entender a razão. Ao chegar na copa encontro o meu papagaio bastante assustado, como se tivesse visto algum estranho ou alguma outra coisa ameaçadora, mas na verdade não havia nada, pelo menos nada visível para mim. Coloquei-o de volta no poleiro e ele ficou lá com o pescoço esticado olhando amedrontado fixamente em uma direção, sendo que, nessa direção não havia nada, só alguma mobília da casa. O que é mais intrigante é que este tipo de situação é bastante comum entre animais domésticos. Quem já não presenciou um cachorro que fica latindo em direção a uma parede, como se estivesse querendo espantar algo, ou um gato que observa fixamente o nada? Geralmente que tem bichos de estimação já viu algo parecido, mas afinal de contas, o que esses animais vêem que não vemos?


(Fonte: new.taringa)

Para a parapsicologia os animais podem possuir habilidades paranormais, de acordo com testes parapsicológicos já realizados em laboratório. Logo, se você já teve visões, sensações fora do corpo ou coisas do tipo, seus animais de estimação também podem ter. Segundo o neurologista Kevin Nelson, especialista em análises dos processos de sensação espiritual nos animais, é razoável imaginar que os animais também sejam capazes de ter experiências espirituais, pois tais experiências têm origem nas áreas mais primitivas do cérebro humano, logo animais com estruturas cerebrais semelhantes poderiam compartilhar das mesmas experiências. Ele ainda afirma que animais como primatas, cavalos, gatos e cachorros possuem tal semelhança com nossa estrutura cerebral primitiva.


Aos gatos eram atribuídas diversas habilidades espirituais (Fonte: professorajesmary)

Vez ou outra vemos num noticiário uma manchete sobre um bicho de estimação que prevê algum desastre iminente como um terremoto, salvando posteriormente o dono de tal evento. Essa ‘intuição’ é muito comum, principalmente em gatos. Estes, particularmente, possuem bastantes associações ao espiritismo como, por exemplo, a habilidade de vislumbrar outros mundos. No antigo Egito, além dessa característica, acreditava-se que os gatos eram capazes de enxergar espíritos e deuses, entre outras entidades, e era capaz de viajar pelo mundo dos mortos. Em virtude disso, era comum um gato ser sacrificado após o falecimento de um sacerdote, um nobre ou um faraó, pois para o espírito do falecido era mais simples encontrar o caminho do além seguindo o espírito do gato que servia como guia espiritual. Já para as bruxas, os gatos serviam para detectar a presença de espíritos num determinado local. Se o gato passar se comportar de maneira estranha, assustado sem razão, observando algo que você não pode ver, significa que ali há uma presença espiritual.


As bruxas também acreditam que os gatos vêem espíritos (Fonte: bruxaria)

Do ponto de vista bíblico existem pouquíssimos relatos a respeito do assunto. Há dois momentos claros onde animais interagem com espíritos: a passagem sobre a jumenta de Balaão, no livro de Números, e a passagem da manada de porcos endemoniados do livro de Mateus. Vamos verificar:


A jumenta de Balaão (Fonte: ebdweb)


Números 22

21 Então levantou-se Balaão pela manhã, albardou a sua jumenta, e partiu com os príncipes de Moabe.
22 A ira de Deus se acendeu, porque ele ia, e o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho por adversário. Ora, ele ia montado na sua jumenta, tendo consigo os seus dois servos.
23 A jumenta viu o anjo do Senhor parado no caminho, com a sua espada desembainhada na mão e, desviando-se do caminho, meteu-se pelo campo; pelo que Balaão espancou a jumenta para fazê-la tornar ao caminho.
24 Mas o anjo do Senhor pôs-se numa vereda entre as vinhas, havendo uma sebe de um e de outro lado.
25 Vendo, pois, a jumenta o anjo do Senhor, coseu-se com a sebe, e apertou contra a sebe o pé de Balaão; pelo que ele tornou a espancá-la.
26 Então o anjo do Senhor passou mais adiante, e pôs-se num lugar estreito, onde não havia caminho para se desviar nem para a direita nem para a esquerda.
27 E, vendo a jumenta o anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão; e a ira de Balaão se acendeu, e ele espancou a jumenta com o bordão.
28 Nisso abriu o Senhor a boca da jumenta, a qual perguntou a Balaão: Que te fiz eu, para que me espancasses estas três vezes?
29 Respondeu Balaão à jumenta: Porque zombaste de mim; oxalá tivesse eu uma espada na mão, pois agora te mataria.
30 Tornou a jumenta a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste toda a tua vida até hoje? Porventura tem sido o meu costume fazer assim para contigo? E ele respondeu: Não.
31 Então o Senhor abriu os olhos a Balaão, e ele viu o anjo do Senhor parado no caminho, e a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou a cabeça, e prostrou-se com o rosto em terra.
32 Disse-lhe o anjo do senhor: Por que já três vezes espancaste a tua jumenta? Eis que eu te saí como adversário, porquanto o teu caminho é perverso diante de mim;
33 a jumenta, porém, me viu, e já três vezes se desviou de diante de mim; se ela não se tivesse desviado de mim, na verdade que eu te haveria matado, deixando a ela com vida.
34 Respondeu Balaão ao anjo do Senhor: pequei, porque não sabia que estavas parado no caminho para te opores a mim; e agora, se parece mal aos teus olhos, voltarei.
35 Tornou o anjo do Senhor a Balaão: Vai com os mem, ou uma somente a palavra que eu te disser é que falarás. Assim Balaão seguiu com os príncipes de Balaque


Nessa passagem podemos perceber que a jumenta de Balaão, desde o princípio, tinha notado a presença do anjo de Deus no caminho, já Balaão não conseguiu enxergá-lo em nenhuma das 3 aparições e foi necessário que Deus fizesse a jumenta falar para que Balaão entendesse que aquele não era o caminho a ser seguido. Mesmo assim ele ignorou o apelo da jumenta e Deus finalmente fez com que o anjo se apresentasse diante dos olhos de Balaão que já havia espancado o animal por diversas vezes por não compreender porque ele sempre desviava o caminho.


Porcos endemoniados se suicidando (Fonte: ecclesia)

Mateus 28

28 Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, saindo dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho.

29 E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?

30 Ora, andava pastando, não longe deles, uma grande manada de porcos.

31 Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos.

32 Pois ide, ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se precipitou, despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, e nas águas pereceram.

33 Fugiram os porqueiros e, chegando à cidade, contaram todas estas coisas e o que acontecera aos endemoninhados.

34 Então, a cidade toda saiu para encontrar-se com Jesus; e, vendo-o, lhe rogaram que se retirasse da terra deles.

Aqui temos o relato da passagem de Jesus Cristo pela cidade de Gadara e o seu encontro com dois homens endemoniados. Ao expulsar os demônios, estes se apossaram de uma manada de porcos que havia nas proximidades e levam todos eles ao suicídio. Mas é bom notar que os demônios pediram antes autorização para poderem se apossar do corpo dos porcos, pois não poderiam fazer isso por vontade própria.

Pelas duas passagens podemos concluir que, biblicamente falando, é possível a interação entre animais e espíritos e que os animais são capazes de enxergar coisas que não enxergamos, apesar da bíblia não colocar o assunto nesses termos. No segundo caso ainda poderíamos dizer que um espírito só poderia interagir com um animal, mediante autorização divina (da mesma forma que um espírito não seria capaz de ser visto por uma pessoa comum, mas apenas por aquelas que carregam consigo alguma habilidade mediúnica). Mas se levássemos esse fator a sério poderíamos então perguntar, porque Deus autorizaria a manifestação de um espírito para um animal? No caso da jumenta de Balaão há uma justificativa clara que é mudar a rota pela qual ele seguia com sua jumenta em tal ocasião. E no contexto de quem tem seu bicho de estimação e ele fica lá se assustado com algo que não vemos, qual seria o propósito então? Não podemos negar a existência de tais entidades, até porque estaríamos também negando relatos do mesmo nas mais diversas culturas, desde os povos mais antigos até as gerações mais avançadas. Entretanto não podemos tomar nada como verdade absoluta, o que é para uns, pode não ser para outros, ou pode simplesmente significar algo diferente, mas do meu ponto de vista os espíritos estão sim, por aí de alguma forma tentando manter comunicação seja com pessoas, seja com animais.


(Fonte: cachorrosespeciais)


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Tuskoy - A Cidade do Câncer

No mês passado a BBC de Londres divulgou uma matéria sobre o drama ocorrido numa das mais belas regiões da Turquia, a Capadócia. Nela encontramos a cidade de Tuskoy, que até pouco tempo atrás estava sendo evacuada em razão de um grave problema trazido pelas erupções dos vulcões Argeu, Hasan, Acigöl, Melendiz e Göllü há milhões de anos: um surto de câncer que vem acometendo os moradores de Tuskoy!


Tuskoy (Fonte: blogs.exitos939)

A região histórica da Capadócia, localizada na Anatólia central da Turquia, é conhecida por suas paisagens exóticas e exuberantes, com formações geológicas antigas de rochas porosas talhadas pelo tempo, e por suas ruínas históricas, responsáveis pela atração de mais de 2 milhões de turistas por ano. As rochas encontradas no local são resultados de erosões e atividades vulcânicas de milhões de anos e o patrimônio histórico e cultural do lugar é proveniente das cidades subterrâneas e das inúmeras habitações e igrejas escavadas na rocha desde um milênio atrás. As características geológicas de Capadócia deram origem às paisagens que comumente são descritas como lunares, devido à abundância de cavernas naturais e artificiais, onde algumas ainda são habitadas até hoje. As rochas encontradas, principalmente o tufo e o calcário, formam paredes macias o suficiente para que humanos construam suas habitações simplesmente escavando as rochas, sendo desnecessária a construção de edifícios para moradia. Tirando essa excêntrica característica, podemos dizer que os cidadãos de Tuskoy têm um cotidiano como a de qualquer outra cidade antiga: pode-se observar tratores circulando pelas ruas, mulheres em trajes característicos passeando pelas praças, homens gastando seu tempo de reposição em lojas de chá, ou jogando baralho e gamão.


Cidade esculpida na rocha (Fonte: obviousmag)

Rocha macia e porosa fácil de manipular (Fonte: ellystur)

Mas enquanto seus habitantes viviam sua rotina tranqüilamente, eles começaram a sofrer anormalmente uma alta taxa de doenças respiratórias, o que se tornou responsável por metade das mortes em Tuskoy. Até pouco tempo atrás ninguém sabia a causa desse surto de doenças respiratórias. Os médicos geralmente diagnosticavam a maioria dos pacientes com tuberculose que, antigamente, era algo muito comum de se ver. Entretanto, as pessoas que receberam o tratamento contra essa doença não apresentaram nenhum quadro de melhora e a maioria faleceu com o agravamento do estado de saúde.


Dr. Izzettin Baris (Fonte: hurriyetdailynews)

A verdadeira causa foi descoberta em meados da década de 1970 pelo Dr. Izzettin  Baris, que começou a estudar os pacientes de Tuskoy e duas outras aldeias afetadas pelo mesmo mal, a Karaiun e a Sarahidir. Baris descobriu que os doentes de Tuskoy, na verdade, sofriam de mesotelioma, uma forma virulenta de câncer, causada pela exposição ao amianto.


Amianto (Fonte: portalmedquimica)

O mesotelioma é um tipo de câncer que ocorre nas camadas mesoteliais da pleura, pericárdio, peritônio e, geralmente, atinge mais aos homens do que às mulheres. Nesta doença as células malignas se desenvolvem no mesótelio, uma camada protetora que reveste a maioria dos órgãos internos do corpo, sendo que, os mesotélios mais acometidos pela doença são os da pleura (revestimento externo do pulmão e da parede torácica interna), os do pericárdio (uma espécie de saco que envolve o coração) e os do peritônio (revestimento da cavidade abdominal).


Mesotelioma desenvolvido na pleura, o tipo mais comum (Fonte: willilive)

A maioria das pessoas que desenvolvem este tipo de câncer trabalha em empregos ou faz alguma atividade onde está exposta a partículas de amianto, também conhecido como asbesto. O amianto é um material fibroso natural com grande flexibilidade e resistências tênsil, química, térmica e elétrica muito elevadas e, além disso, pode ser tecido para roupas entre outras coisas. O amianto é constituído de feixes de fibras extremamente finas e longas, facilmente separáveis umas das outras e com tendências a liberarem um pó de partículas muito pequenas que flutuam no ar, aderem em tudo e são facilmente inaladas ou engolidas por um indivíduo que esteja em contato com esse material. Essas características são responsáveis pela sua abolição em mais de 30 países.
Entretanto, no caso dos moradores de Tuskoy, eles não estiveram exposto ao amianto então, teoricamente falando, eles não teriam como desenvolver mesotelioma. Outro fator que intrigava os estudiosos do caso era o fato de os índices da doença em Tuskoy serem centenas de vezes mais altos do que em qualquer outro lugar da Turquia. Foi aí que, recentemente, foi descoberto que o causador do mesotelioma nos moradores da região era um mineral raríssimo chamado erionita, muito presente nas rochas porosas da cidade. Esse mineral possui propriedades muito semelhantes ao amianto e pode estar presente em rochas ígneas, principalmente as vulcânicas e, comercialmente falando, é utilizada como catalisador em tratamento de efluentes, devido a sua capacidade de absorção de material particulado, entre eles os metais pesados.


Erionita (Fonte: todocoleccion)

Como as rochas presentes em Tuskoy são macias e porosas, é muito comum a existência de fragmentos de erionita no ar. As mulheres, por exemplo, costumam ir aos celeiros escovar a poeira das paredes, espalhando fragmentos por todas as partes. Mesmo aqueles que se mudaram para outras localidades também desenvolveram o mesotelioma, nem mesmo uma criança nascida em Tuskoy que tenha saído da cidade não conseguiria escapar do mal que acomete os demais habitantes. Os sintomas mais recorrentes nos doentes são dor torácica, tosse, febre, emagrecimento e perda da força muscular. A doença pode manifestar-se num período de mais ou menos trinta anos e, em cerca de 95% dos casos, os pacientes vão a óbito até 24 meses após o diagnóstico.
Infelizmente esse foi o tempo necessário para o governo de Tuskoy enxergar que a erionita era a responsável pelo surto de câncer nos moradores. Já no fim da década de 70 os moradores já apresentavam diversos tipos de problemas respiratórios, mas o mesotelioma era sempre confundido com a tuberculose. Agora que tudo foi esclarecido o governo concluiu que a melhor maneira de contornar a crise pela qual a cidade passava era transferir os moradores de lá para outra cidade, construída numa localidade livre da erionita. O governo liberou recursos para esse empreendimento depois de declarar como zona de desastre algumas partes do vilarejo. Agora um dos problemas enfrentados é o fato de alguns moradores se recusar a sair de Tuskoy, por não acreditar na vinculação do câncer com as rochas encontradas no local e, inclusive, acusaram o Dr. Baris de ter taxado o vilarejo de ‘cidade do câncer’, quebrando o turismo que era uma de suas principais fontes de renda. Pra piorar, a construção da nova cidade se dá a passos de tartaruga e a maioria dos moradores de Tuskoy ainda permanecem no lugar em contato com as paredes porosas, presentes de erionita. Baris afirma que todo o local deveria ser considerado zona de desastre e a melhor medida a ser tomada era evacuar a cidade, isolar a área e deixar a natureza tomar conta do local, pois a demolição da cidade poderia causar um grande risco devido à quantidade de pó que seria lançada no ar.
Enquanto a gravidade do caso não for considerada infelizmente é provável que o mesotelioma ainda esteja presente nas futuras gerações de habitantes que vivem ou viveram em Tuskoy.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

As Piranhas de James Cameron


Muitos filmes costumam ser taxados de ‘trash’ por conter um roteiro absurdo ou uma direção amadora onde nada parece ser levado a sério ou, às vezes, é tão levado a sério que acaba se tornando cômico de tão ridículo que ficou após ser finalizado. Um dos exemplos clássicos de filmes trash é o primeiro filme de James Cameron, Piranhas 2 – Assassinas Voadoras, onde uma instrutora de mergulho, ao investigar a morte de um mergulhador, descobre que o responsável, ou melhor, as responsáveis eram uma espécie desconhecida de piranhas que possuíam asas e saíam por aí voando e se atirando no pescoço das vítimas! Quem diria que o aclamado diretor de Avatar teria começado sua carreira com um clássico do terror trash? A gente pode imaginar de onde ele tirou uma idéia tão absurda dessas?


Piranhas Voadoras (Fonte: cinemacemanosluz)


Bom, na verdade existe uma espécie de peixe que não sai voando pela cidade atrás de comida humana, mas ele é capaz de se lançar da água a grandes alturas e permanecer planando durante algum tempo. Como não poderia deixar de ser, ele é conhecido como peixe voador.


Peixe Voador (Fonte: vidaselvagem.spaceblog)

Essa espécie também conhecida pelos nomes voador-cascudo, voador-de-pedra, voador-de-fundo, cajaléu, pirabebe, entre outros nomes chegam a medir até 45 centímetros, possui um corpo alongado, dorso azul-acinzentado, flanco prateados e ventre claro, nadadeiras pélvicas bem curtas, peitorais bem desenvolvidos e caudal furcada com lobo inferior maior. É um peixe de águas salgadas e é encontrado em diversas regiões no mundo, inclusive no Brasil, onde um parente seu conhecido como peixe-machadinha consegue fazer vôos bem mais curtos.
Ao contrário do que muitos pensam, essa espécie não voa, na verdade, ela plana. O peixe voador é capaz de ganhar impulso para saltar fora d’água a uma distância de até 6 metros de altura e cobrir uma longa distância durante o plano.

Garoto segurando um peixe voador (Fonte: bocaberta)

O ‘vôo’ desse peixe é um recurso muito utilizado para fugir de predadores maiores. Ao se sentir ameaçado ele cruza o mar em grande velocidade, com as barbatanas coladas ao corpo, depois muda a direção para cima e prepara o salto. Quando atinge a superfície o peixe voador dá um último impulso, batendo freneticamente a cauda na água, a levanta e decola para o céu, se inclinando 15º em relação à superfície líquida. Já no ar o peixe abre as barbatanas para poder se sustentar durante a planagem por cima da água. Enquanto plana, essa espécie pode chegar a voar por até 180 metros em um único vôo ou 400 metros em vôos múltiplos. Mas os passeios aéreos costumam ser rápidos e duram de 2 a 15 segundos.


Peixe voador (Fonte: pipocadebits)


Recentemente uma equipe do canal de televisão japonês NHK conseguiu um registro de um peixe voador planando no ar durante 45 segundos, no que já é considerado como o vôo mais longo de uma espécie dessa já gravado. É muito provável que nessa ocasião o peixe tenha chegado ao seu limite físico para executar tal façanha, levando em conta que o bicho não respira fora d’água.


James Cameron e suas piranhas (Fonte: filmofilia)

Sabendo disso, podemos dizer que James Cameron continuará com seu estigma de diretor de filme trash, pois, diferente dos peixes voadores da vida real, suas piranhas não planam, elas de fato voam, para lá e para cá, batendo suas barbatanas como se fossem asas e respirando na superfície por muito tempo. Além disso, elas não pegam impulso para saltar fora da água, elas simplesmente saem voando, para o terror dos personagens que fazem parte de seu universo fictício. Portanto, fiquemos tranqüilos, pois dificilmente toparemos com um bicho desse no nosso próximo passeio pelo litoral.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A maldição de Ondina

Quem nunca tentou segurar ao máximo a respiração para ver até o quanto suportaria? Debaixo da água então eu mesmo já fiz várias vezes, mas chega num momento que nossa cabeça parece que vai explodir que nem um balão e acabamos soltando o ar dos pulmões para respirarmos novamente. Isso ocorre devido aos mecanismos de respiração involuntária que temos. Graças a eles, a gente permanece respirando mesmo quando não estamos conscientes dessa necessidade, como na hora do sono. Mas e se não fosse possível ter controle próprio da respiração e precisássemos estar alerta para fazer o processo de ventilação pulmonar durante 24 horas por dia, incessantemente? Esse é justamente o drama vivido por aqueles que são acometidos pela maldição de Ondina.


(Fonte: oestrogenio)

Também conhecida como síndrome de Ondine ou hipoventilação alveolar primária, as pessoas que sofrem desse problema simplesmente perdem o controle da respiração, ou seja, se o indivíduo não estiver atento pode simplesmente esquecer de respirar e morrer sufocado!
A palavra Ondina ou Ondine faz referência à ninfa das águas, segundo a mitologia germânica, e a síndrome que leva seu nome foi descoberta a cerca de 30 anos atrás. Hoje se acredita que há pelo menos uns 400 casos conhecidos, mas na realidade esse número pode ser bem maior já que a maioria dos bebês que nascem com essa síndrome tem morte súbita e, geralmente por falta de conhecimento dos médicos, são diagnosticados erroneamente ou simplesmente morrem sem ter uma causa determinada.


Ventilação mecânica durante o sono (Fonte: pamellafisio)

A doença é causada por mutações em genes, sendo que a mutação do gene PHOX2B é a principal responsável. Geralmente a síndrome é presente em recém-nascidos, mas indivíduos heterozigotos para PHOX2B podem desenvolver formas mais leves da doença e chegarem até a fase adulta. Entretanto, o maior perigo está mesmo na fase do sono, pois o fato do indivíduo não respirar adequadamente pode ser fator de risco para enfermidades cardiovasculares e cerebrais, sendo que, os problemas mais freqüentes durante e após o sono são o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral, sem falar nas lesões isquêmicas arteriais irreversíveis causadas pela diminuição do fluxo sanguíneo cerebral, por falta de ventilação na região. Geralmente os casos mais graves exigem um suporte de ventilação mecânica 24 horas por dia e, em alguns casos, uma cirurgia para a adição de um marca-passo frênico, mas é uma intervenção muito rara, pois é de elevado custo e existem pouquíssimos hospitais no mundo que fazem esse tipo de cirurgia.


(Fonte: humorsafado)

A maldição de Ondina é de difícil diagnóstico, devido a sua baixa incidência. Nos casos mais antigos da doença, os pacientes apresentavam diversos graus de atraso no desenvolvimento psicomotor, no crescimento estrutural, quadros convulsivos com seqüelas devido aos episódios de hipoxemia (deficiência anormal de concentração de oxigênio no sangue arterial) entre outros. Atualmente essas seqüelas vêm diminuindo graças à evolução da medicina, onde a doença pode ser diagnosticada precocemente, e ao suporte domiciliar intensivo de 24 horas, onde o paciente é acompanhado por especialistas. Além disso, o suporte de ventilação mecânica sofreu muitas melhorias e algumas opções adicionais para o tratamento do paciente, apesar do prognóstico se limitar a complicações do uso prolongado da ventilação mecânica. É importante destacar que em uma família mais pobre, um tratamento adequado da doença se torna inviável, principalmente pelo fator do alto custo e do esclarecimento da família do indivíduo, levando em conta que a equipe que faz o acompanhamento do paciente deve ser formada por cardiologista, neurologista, otorrino, endócrino, gastro, oftalmo, pneumologista, psicólogos, terapeutas, fonoaudiólogos, enfermeiros, assistente social e nutricionista. Além disso, a família necessitará de treinamento específico para cuidar do doente que precisará ou não de suporte de ventilação invasivo e de monitoração com oximetria (avaliação do grau de oxigenação sanguínea) e capnografia (avaliação do gradiente de dióxido de carbono durante a expiração), pois o paciente pode não apresentar sinais clínicos de esforço respiratório perante uma situação de comprometimento do sistema respiratório.


Paciente com síndrome de Ondina, acompanhada por especialista (Fonte: 1m1f)

A maioria dos casos de síndrome de Ondina é do tipo moderado, sendo que, pouquíssimos casos considerados graves foram registrados.
Ao refletir sobre isso é difícil imaginar como seria a rotina de uma pessoa que sofre desse mal, principalmente na hora do sono. Talvez eu me lembre disso da próxima vez que prender a respiração debaixo da água.

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