sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Taxonomia deturpada – O comércio de nomes de organismos recém-descobertos

Quando estudamos biologia e lemos aqueles nomes científicos estranhos dos animais e das plantas ficamos imaginando por que os cientistas escolhem nomes tão complicados para batizar os seres vivos? Por que não uma coisa mais óbvia como macaco ou zebra, ao invés de Nymphalidae Swainson ou Lycaenidae Leach? Sabemos que muitos desses nomes são baseados no nome de quem descobriu a espécie e, agora, algumas comunidades científicas decidiram usar desse artifício para financiar suas pesquisas, ou seja, por que não explorar a vaidade humana e vender para pessoas comuns o direito de batizar uma espécie recém-descoberta com o seu próprio nome? Seria uma espécie de versão moderna da taxonomia.


A arte da taxonomia (Fonte: reflexoesnaturais)
  
A taxonomia, por sua vez, é considerada uma das profissões mais antigas do mundo, mais especificamente surgida no século 18, com o botânico sueco Carl Linnaeus, que tornou popular o sistema de classificação onde o ser vivo é batizado com um nome científico de duas partes, geralmente em latim. Em razão disso é comum os descobridores de alguma espécie nova batizá-la com os nomes de seus cônjuges, filhos, colegas, benfeitores, ou até mesmo de celebridades. Agora, a grande diferença é que os serem recém-batizados terão o nome de quem estiver disposto a desembolsar uma pequena bagatela por esse direito.
Esse novo empreendimento é liderado pelo Instituto Scripps de Oceanografia (supportscripps.ucsd.edu), da Universidade de San Diego, que é especializado no estudo de vermes e moluscos. Quem não gostar da idéia de ter o seu nome associado a um verme pode procurar pelo instituto Biopat (http://www.biopat.de/), que está vendendo os nomes de 100 novas espécies, como sapos e orquídeas.
           Vou apresentar agora alguns exemplos de animais recém-descobertos que foram batizados por cidadãos comuns:

Goodhartzorum (Fonte: explorations.ucsd)

Jeff Goodhartz (Fonte: noticias.terra)

Espécie - Goodhartzorum (uma espécie pertencente a um novo gênero, cujo nome ainda não foi definido).
Quem comprou - O americano Jeff Goodhartz.
R$ 7.900

Jeff é um professor de matemática no ensino médio, solteiro e sem filhos. Por essa razão queria garantir que o nome de sua família fosse lembrado no futuro, de alguma forma. Daí surgiu a idéia de desembolsar uma fatia gorda de dinheiro para que uma exótica espécie de bicho translúcido, com um exuberante tufo azul fosse batizado com o seu nome. Assim Goodhartz conseguiu que o anelídeo passasse a ser chamado de Goodhartzorum.

Opsiphanes blythekitzmillerae (Fonte:butterfliesofamerica)
Espécie - Opsiphanes blythekitzmillerae.
Quem comprou - A família Kitzmiller.
R$ 70.000

Em 1972, faleceria Margery Kitzmiller, uma criativa americana que possuía muitos hobbies como escrever poesias, tocar piano e cantar. Seu netos sempre diziam que ela era como se fosse uma borboleta e, depois que souberam da possibilidade de dar seu próprio nome a um animal descoberto recentemente, resolveram homenagear a avó falecida nomeando uma espécie de borboleta com o sobrenome da família.


Lebbeus clarehanna (Fonte: sbnation)

Espécie - Lebbeus clarehanna.
Quem comprou - O ex-jogador de basquete Luc Longley.
R$ 5.000

A cientista australiana Anna McCallum teve a peculiar idéia de leiloar no site eBay o direito de nomear uma nova espécie de camarão descoberto por ela. Não demorou muito para que aparecesse alguém interessado na oferta de McCallum. O comprador foi Luc Longley, um ex-jogador de basquete que foi craque no time Chicago Bulls. Ele resolveu colocar no camarão o nome de sua filha Clare Hanna.


Mesonerilla neridae (Fonte: csmonitor)

Espécie - Mesonerilla neridae.
Quem comprou - O biólogo Greg Rouse.
R$ 25 mil

Que tal homenagear a sua namorada pegando o nome dela para batizar um verme? Achou absurdo? Pois foi exatamente o que fez Greg ao ficar sabendo que o nome de um verme aquático recém-descoberto estava à venda. Mesmo não sendo lá uma atitude muito romântica, Nerida, a namorada do biólogo, parece ter adorado a surpresa!


Callicebus aureipalatii (Fonte: odde)

Espécie - Callicebus aureipalatii.
Quem comprou - Um cassino online.
R$ 1,1 milhão

Depois de pagar R$ 1.600 para tatuar seu logotipo no rosto de uma mulher, os donos do cassino virtual Golden Palace acharam um jeito ainda melhor de divulgar a marca: compraram o nome científico de um macaco boliviano, que virou "palácio dourado" em latim.

Esses e outros exemplos têm mostrado o quanto essa prática de comércio tem se popularizado ultimamente. Porém essa crescente procura de pessoas por nomes de espécies novas de animais e plantas tem acendido um debate que procura determinar se a prática abre brechas para falsas descobertas e se isso pode levar as pessoas a serem prejudicadas seriamente. “É possível conceber que alguém possa inventar uma nova espécie para fazer dinheiro, se isso se provar lucrativo”, diz Andrew Polaszek, entomologista do Museu de História Natural de Londres. Já Doug Yaneda, um entomologista da Universidade de Riverside, considera que o ideal seria se os nomes dos animais fossem publicados num centro de referência, devido ao fato de que, hoje, o anúncio de novos nomes de animais termina espalhado em muitas das publicações científicas existentes, sendo que, algumas delas, conduzem uma revisão científica menos rigorosa das descobertas. Yanega não vê problemas em que cientistas sérios vendam os direitos de batizar espécies para financiar seu trabalho, mas ele teme que pessoas sem ética vejam nisso um meio para fazer dinheiro. "O potencial para abuso ainda é muito grande", disse Yanega. "É muito fácil montar um esquema e explorar o sistema". Ainda mais tendo em vista a idéia de que quanto mais raro e evoluído for organismo descoberto, maior é quantidade de dinheiro a ser angariada.

Afresco de Adão nomeando os animais no Éden (Fonte: zel)

Tanto o Instituto Scripps, quanto o Biopat, garantem que esse tipo de fraude raramente poderia acontecer, mas se o negócio de vender nomes de espécies novas começar a se tornar uma prática rentável para pessoas sem escrúpulos, eles iriam intervir de alguma forma. Já, eu, estive pensando na possibilidade de nomear uma espécie de organismo com o nome do meu blog. Que tal seria uma nova espécie de escorpião com o nome de Opinianus Mijinianidae? 


1 comentários:

Infinite Mijinian disse...

Olá ,meu nome é berg, gostei muito do seu artigo sobre os nomes ciêntificos e gostaria de saber se as nomeclaturas taxonomicas de Carls Von Linné foram modificada e se há algum livro que fale sobre o assunto,desde já eu agradeço.

Resposta:
Atualmente há duas organizações internacionais que determinam as regras de nomenclatura, uma para zoologia e outra para botânica. Segundo as regras, a primeira nomenclatura publicada (a partir do trabalho de Linnaeus) é a correta, a menos que a espécie seja reclassificada, por exemplo em outro gênero. A reclassificação tem ocorrido com certa freqüência desde o século XX. O Código Internacional de Nomenclatura Zoológica preconiza que neste caso mantém-se a referência a quem primeiro descreveu a espécie, com o ano da descrição, entre parênteses, e não inclui o nome de quem reclassificou. Esta norma internacional decorre, entre outras coisas, do fato de ser ainda nova a abordagem 'genética' da taxonomia, sujeita a revisão devido a novas pesquisas científicas, ou simplesmente a definição de novos parâmetros para a delimitação de um táxon, que podem ser morfológicos, ecológicos, comportamentais etc.

O sistema atual identifica cada espécie por dois nomes em latim: o primeiro, em maiúscula, é o gênero, o segundo, em minúscula, é o epíteto específico. Os dois nomes juntos formam o nome da espécie. Os nomes científicos podem vir do nome do cientista que descreveu a espécie, de um nome popular desta, de uma característica que apresente, do lugar onde ocorre, e outros. Por convenção internacional, o nome do gênero e da espécie é impresso em itálico, o dos outros táxons não. Subespécies têm um nome composto por três palavras.

Em relação a livros que tratam do assunto, a maioria parte para ramos mais específicos da taxonomia: Taxonomia Zoológica, Botânica, Bactericiana, etc. Não encontrei nenhum que parecesse tratar de tudo de uma forma mais geral. Na verdade achei um, mas como não li, não garanto que vc vá encontrar as informações que precisa. Mas fica a dica:
TAXONOMIA BIOLOGICA, de J. Bousquets, Editora Fondo de Cultura.

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...